Crítica | The 24 Hour War

O conflito entre a Ford e a Ferrari ao longo dos anos 60 é um dos mais interessantes casos de rivalidade empresarial que se tem notícia, mas é curioso notar como relativamente pouca gente fora do círculo de entusiastas de automóveis e corridas automobilísticas sabe o que realmente ocorreu, isso quando sabem que algo ocorreu. Os documentaristas Nate Adams e Adam Carolla, ambos responsáveis pela abordagem da vida automobilística de Paul Newman em Winning: The Racing Life of Paul Newman, tentam corrigir essa falta com The 24 Hour War, talvez a melhor maneira de se conhecer essa história fora das ofertas literárias que abundam e da obra de ficção capitaneada por James Mangold.

Rico em filmagens fascinantes de época, voltando no tempo até quase o começo do século XX, o documentário cumpre muito bem sua primeira função, que é estabelecer a história de origem da Ferrari, em 1939, com foco, claro, em seu fundador, Enzo Ferrari. Mesmo correndo, a personalidade turrona dele é bem construída e fixada na mente do espectador, especialmente em vista de seu começo como piloto da Alfa Romeo, a criação da Scuderia Ferrari dentro da fabricante de carros e, depois, a separação e a criação da primeira Ferrari propriamente dita em 1947 e a hegemonia da empresa spin-off na mítica corrida de 24 horas de Le Mans. Todo esse desenvolvimento mereceria um documentário em separado, já que há histórias absolutamente fascinantes que ficam apenas como tira-gosto para a batalha corporativa que se seguiria não muito tempo depois.

Do outro lado, temos a Ford, mais conhecida à época por ser fabricante de automóveis “banheira” bem americanos, prezando o conforto e o tamanho e não a eficiência ou a velocidade. Mas Henry Ford II, neto do fundador da empresa, encasquetou que queria mudar essa imagem e decidiu comprar a Ferrari. Como as negociações não deram certo, ele então decidiu que derrotaria Enzo em seu próprio território, fazendo de tudo para arrancar Le Mans da Ferrari. Nesse lado da narrativa, o documentário falha em estabelecer o empresário de maneira um pouco mais série, deixando um retrato de que ele era um filhinho de papai teimoso e turrão, algo que não é exatamente verdadeiro. O contraste entre o Enzo Ferrari heroico e valente e o Henry Ford II bufão e raivoso quase esvazia a credibilidade do filme.

No entanto, os diretores acertam quando saem desse conflito macro e entram nos detalhes técnicos da “guerra”, ainda que sem tornar a obra árida demais para aqueles não muito familiarizados com o jargão automobilístico. Mais importante, na verdade, do que a “rebimboca da parafuseta” é o material humano apresentado com resultado do orgulho ferido do magnata americano. Entram na equação nomes como os de Carroll Shelby, Ken Miles e Phil Remington, alguns dos responsáveis pela evolução meteórica da Ford em seu programa de corridas, culminando com o famoso Ford GT40. As imagens dos diversos momentos históricos são emocionantes e impressionantemente bem conservadas, com um belo trabalho de curadoria dos diretores, além do cuidado em entrevistar pessoas ainda vivas que viveram essa época marcante na história automobilística.

O grande pecado do documentário é mesmo ele não se aprofundar nos assuntos que aborda. Ao longo de apenas 100 minutos, tudo é exposto rapidamente demais, mais como breves pinceladas do que como uma abordagem mais completa. É perfeitamente possível visualizar diversos momentos que, se tivessem ganhado mais desenvolvimento, teriam enriquecido a narrativa, notadamente a construção dos protótipos da Ford e os conflitos entre Shelby e equipe e Henry Ford II. No entanto, The 24 Hour War é suficientemente interessante para prender o espectador na cadeira e introduzir um recorte específico de uma batalha empresarial que definitivamente mostra a tenacidade das pessoas quando decidem fazer algo, por mais impossível que possa parecer.

The 24 Hour War (EUA, 2016)
Direção: Nate Adams, Adam Carolla
Com: Charlie Agapiou, Mario Andretti, A.J. Baime, Bob Bondurant, Peter Brock, Gordon Chance, Piero Ferrari, Edsel B. Ford II, Henry Ford, Mauro Forghieri, Alan Grant, Dan Gurney, David Hobbs, Lee Holman, John Horsman
Duração: 100 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.