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Crítica | The Alienist – 1ª Temporada

por Rafael Lima
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A ideia de uma adaptação audiovisual do livro The Alienist, de Caleb Carr, existe desde os anos 90, com o diretor Curtis Hanson tendo passado uma década tentando levar a obra para o cinema. Foram precisos mais de vinte anos para que o thriller policial histórico sobre os primórdios da psicologia forense enfim chegasse às telas, com Cary Fukunaga chegando à conclusão de que o material seria melhor explorado como uma série de TV. Conflitos de agenda fizeram Fukunaga abandonar o projeto, sendo substituído por Jakob Verbruggen, que assumiu o posto de Showrunner desta 1ª temporada para a TNT.

A série se situa na Nova York de 1896, onde o Dr. Laszlo Kreizler (o tal alienista), investiga uma série de assassinatos de meninos prostitutos travestis encontrados mutilados em pontos altos da cidade. Com os métodos de Krezler sendo mal vistos pela polícia, ele é secretamente apoiado pelo comissário Theodore Roosevelt a formar uma equipe de investigação clandestina. Contando com a ajuda de seu amigo John Moore, um desenhista caído em desgraça; Sara Howard, secretária de Roosevelt e a primeira mulher a trabalhar para a polícia de Nova York, e os irmãos Isaacson, dois legistas com técnicas progressistas de investigação, Kreizler inicia uma caça ao maníaco para por fim ao seu reinado de terror — mas também para entender o que motivou os crimes.

Ao longo dos dez episódios da temporada, The Alienist explora Nova York como um caldeirão multicultural onde poucos privilegiados têm direito a respeito e consideração. A série retrata um mundo opressivo e hostil, repleto de xenofobia e misoginia, onde os crimes do psicopata só são possíveis graças a um sistema que sustenta a prostituição infantil, já que os proprietários dos bordéis frequentados pelo vilão são ricos e poderosos. A polícia, representada principalmente pelo Conselheiro de Polícia Thomas Byrnes, surge como uma instituição corrupta, mais preocupada em proteger os nomes da alta sociedade envolvidos de alguma forma com o caso, do que em pegar o assassino.

Ainda que o cenário social seja vital no universo da série, The Alienist preocupa-se sobre como os crimes mexem com os demônios internos de seus personagens. John tenta sufocar as suas inseguranças e carências com álcool e prostitutas, sem perceber que está em uma espiral autodestrutiva. Sara, por sua vez, internaliza os seus traumas e tristezas, já que por estar atuando em um ambiente predominantemente masculino, sente que qualquer sinal de vulnerabilidade pode ser visto por seus pares como um sinal de fraqueza da aspirante a detetive. O próprio Kreizler, que vive expondo os complexos de seus aliados para encontrar paralelos e contrastes que o ajudem a entender o maníaco que está caçando, tem as suas próprias questões para resolver, vide a problemática relação com o pai no passado e a atração que sente por sua criada e ex-paciente, Mary.

A dinâmica do trio protagonista é muito bem construída. Temi que a série escorregasse para o melodrama barato quando os primeiros episódios parecem configurar a relação entre Laszlo, John e Sara como um triângulo amoroso, mas tal triângulo apenas auxilia o desenvolvimento individual dos personagens, evoluindo de forma orgânica a relação entre eles. É natural, por exemplo, que Sara confunda os seus sentimentos em relação a Laszlo quando ele é provavelmente o primeiro homem a reconhecer as capacidades dela antes de seu gênero. Os roteiros são hábeis em trabalhar o crescimento emocional de seus protagonistas não apenas para o seu desenvolvimento, mas também para a contribuição que cada um traz para a resolução da trama central.

Se a dinâmica dos personagens é fascinante, grande parte se deve ao ótimo elenco. Daniel Brühl entrega um Laszlo que ostenta uma fachada fria e manipuladora, que está obcecado em entender os motivos do assassino, ainda que essa obsessão oculte as suas próprias fragilidades. Luke Evans, por sua vez, torna John Moore o personagem mais vulnerável e identificável do show, sendo os olhos do público na trama, ao mesmo tempo em que tem uma bela jornada de recuperação. Já Dakota Fanning concede extremo carisma para Sara Howard que surge como uma mulher determinada e à frente de seu tempo, sempre hesitante em expor os seus sentimentos, o que apenas torna os momentos em que ela permite que eles venham à tona, mais pungentes.

Ainda que tenha grandes méritos, a narrativa não é livre de problemas. A trama torna-se arrastada em alguns episódios, não justificando os dez temporada. Além disso, os roteiros incluem certas subtramas, como os movimentos políticos em que um dos Irmãos Isaacson se envolvem, o que até ajuda a contextualizar o universo da série, mas que ganha espaço demais na história sem nunca levar a lugar algum. Nos aspectos técnicos, a série é um primor, com o figurino e cenografia fazendo uma reconstituição acurada da época, tanto dos ambientes mais opulentos da alta sociedade nova-iorquina quanto dos guetos da cidade. A fotografia é outro trunfo, dando um aspecto sombrio e úmido à serie, mas ainda assim bonito de uma forma macabra. A direção e os efeitos de maquiagem não se furtam dos aspectos mais brutais da história.

The Alienist, apesar de certa barriga na metade da temporada, revela-se uma grata surpresa para quem gosta de um bom Thriller policial de suspense com toques góticos, trazendo um universo rico e sufocante, habitado por personagens fascinantes, defendidos por um elenco afiadíssimo e com uma química ímpar. Lançando um olhar interessante e sinistro para as raízes da psicologia criminal (e geral), além de abordar uma série de questões sociais que continuam relevantes mais de um século depois do período em que a série se passa, The Alienist é uma ótima experiência televisiva.

The Alienist- 1ª Temporada – EUA. 21 de Janeiro de 2018 a 26 de Março de 2018
Criadores: Cary Fukunaga, Jakob Verbruggen
Direção: Jakob Verbruggen, James Hawes, Paco Cabezas, David Petrarca, Jamie Paine
Roteiros: Hossein Amini, E. Max Frye, Gina Gionfriddo, Cary Fukunaga, John Sayles, Chase Palmer (Baseado em Romance de Caleb Carr)
Elenco: Daniel Brühl, Luke Evans, Dakota Fanning, Brian Geraghty, Robert Ray Wisdow, Douglas Smith, Matthew Shear, Q’orianka Kilcher, Matt Lintz, Ted Levine, Martin McCreadle, David Wilmot, Antonio Magro, Jackson Gann, Michael Ironside, Sean Young, Joseph Altin, Peter McRobbie, Bill Heck
Duração: 10 Episódios de aproximadamente 50 Minutos

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