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Crítica | The Alienist – Angel Of Darkness – 2ª Temporada

por Rafael Lima
565 views (a partir de agosto de 2020)

Em sua 2º Temporada, The Alienist continua a abordar o início da psicologia criminal no fim do Século XIX, através das investigações do alienista Dr. Laszlo Kreisler (Daniel Brühl). Adaptando Angel Of Darkness, segundo livro da série Kreisler de Caleb Carr (cujo título serve como subtítulo da temporada) o show, agora comandado por Stuart Carolan, mantém o clima gótico urbano do primeiro ano, mas troca o foco do protagonismo, com a detetive Sara Howard (Dakota Fanning) assumindo o centro da trama no lugar de Laszlo.

Na trama, um ano se passou desde que Kreisler, ao lado de seu amigo John Moore (Luke Evans) e da aspirante a detetive Sara Howard, deram fim aos assassinatos em série que aterrorizaram Nova York. Desde então, Laszlo fundou a sua própria clínica; Sara saiu da polícia para abrir uma agencia de detetives; enquanto John agora trabalha no New York Times e está noivo de Violet (Emily Barber), afilhada do barão da imprensa, William Randolph Hearst (Matt Letscher). Os caminhos dos três voltam a se cruzar quando eles falham em impedir que Martha Napp (Hebe Beardstall), uma mulher humilde que alega ter tido a sua bebê roubada em uma clínica, seja executada na cadeira elétrica, acusada de matar a filha e se livrar do corpo. Quando a criança aparece morta em uma loja de brinquedos e a filha do embaixador espanhol desaparece em circunstâncias semelhantes à bebê Napp, Sara percebe que há outro serial killer na cidade, desta vez tendo bebês como alvos.

O novo ano da série gera um estranhamento inicial pelo fato de o personagem título perder tanto espaço (ainda que Laszlo e o alienismo continuem a ter papel fundamental). Mas a forma como a trama se desenha torna o protagonismo que Sara ganha natural, já que todo o mistério está mergulhado em um universo feminino, não só pela assassina deste ano ser uma mulher (conclusão à qual Laszlo chega ainda na Premiere), mas por suas motivações girarem fortemente em torno do feminino.

A discussão sobre o machismo na sociedade, já abordada na temporada anterior, ganha mais espaço ao se conectar diretamente com a história da assassina, além de se fazer presente nos obstáculos que Sara enfrenta na trama. Tal como no ciclo de estreia, o cenário social possui grande impacto na narrativa, onde não só o machismo é discutido, mas também a xenofobia, luta de classes e imprensa sensacionalista. Diferente do ano anterior, o 2º ano destrincha a psique de sua vilã central sem deixar as suas motivações em aberto, explorando o que move a assassina, além de estabelecer paralelos entre ela e Sara que se tornam vitais na história. Abandonando o whodunit no meio da temporada, ao revelar a identidade da maníaca como sendo a jovem enfermeira Libby Hatch (Rosy McEwen), a série passa se concentrar em um jogo de gato e rato mais pessoal entre a infanticida e Sara, deixando a trama mais dinâmica e empolgante.

A série volta a explorar os cantos mais sombrios da Nova York dos anos 1890; como as regiões controladas pelas violentas gangues de rua, e as instituições de saúde que dão um tratamento desumano às pessoas de baixa renda. O contraste entre as classes é mais uma vez abordado, mostrando o assassino mais uma vez beneficiando-se de mazelas sociais para atuar, neste caso através de um serviço de assistencialismo mais preocupado em poupar homens ricos do que em proteger as mulheres grávidas de baixa renda. A polícia volta a ser retratada como uma instituição corrupta e racista, o que é mais uma vez simbolizado pelo agora ex-conselheiro Thomas Byrnes (Ted Levine).

Apesar da ótima construção do plot central, há subtramas que acabam não sendo bem resolvidas, ou que são simplesmente abandonadas. A conspiração que mantém a clínica do Dr. Markoe (Michael McElhatton), por exemplo, é deixada de lado, nem sendo citada nos episódios finais. Outro exemplo é o romance entre Kreisler e Karen Stratten (Lara Pulver), uma sedutora alienista que dá a Laszlo insights para entender Libby. O plot surge de forma atravessada na temporada, com os roteiros trabalhando a relação sem construir as suas bases. 

Felizmente, o bom elenco ajuda a ocultar estas carências. O trio principal continua apresentando uma química ímpar, criando uma cumplicidade palpável entre os três amigos. Individualmente, os três atores também estão ótimos. Dakota Fanning continua a retratar uma Sara Howard independente e corajosa, mostrando nas sutilezas que apesar de evitar demonstrar as suas emoções, a detetive está muito longe de ser uma pessoa fria, especialmente quando deixa estas emoções aflorarem.

Daniel Brühl concede maior humanidade ao Dr. Laszlo Kreisler neste ciclo, trazendo um alienista menos manipulador e mais preocupado com os sentimentos daqueles à sua volta, embora ainda mantenha uma postura cínica, que oculta as dificuldades do médico com interações que fujam do campo intelectual. Luke Evans, por sua vez, vive John Moore como um homem gentil, cuja insegurança o leva a não conseguir se impor. Ainda que traga o lado romântico do show, o arco de John é o mais simples do trio, com o qual a maioria de nós irá se identificar, pelo ar de pessoa comum que Evans dá ao jornalista.

Os coadjuvantes são igualmente competentes. Ted Levine continua fantástico ao atrair a raiva do publico como o corrupto Thomas Byrnes. Matt Letscher também está ótimo como William Randolph Hearst (figura verídica que inspirou o clássico Cidadão Kane), transmitindo o carisma e o cinismo do barão da imprensa. Mas o destaque da temporada é mesmo Rosy McEwen, com a sua interpretação da psicótica Libby Hatch. McEwen entrega uma vilã intensa e imprevisível, que pode ser assustadora e brutal em um momento, e no seguinte nos fazer sentir pelo sofrimento que essa mulher carrega. Os roteiros constroem a história de Libby de forma exemplar, mas o trabalho de McEwen merece aplausos por nos fazer simpatizar com uma assassina que não poupa nem bebês, sem com isso diminuir a aura ameaçadora da antagonista.

Os aspectos técnicos da série continuam primorosos, com um belo trabalho de reconstituição de época que dá a Nova York de 1897 um leve aspecto gótico urbano, que casa perfeitamente com a trama. A arte e a fotografia se esforçam para retratar o abismo social da cidade tão importante para a narrativa, ao mesmo tempo em que manipulam com assertividade os signos dos gêneros detetivescos e terror para criar alguns dos ambientes mais significativos da trama, como o consultório de Laszlo, o escritório de Sara, e o covil onde Libby mantém os bebês sequestrados.

Em termos de direção, a série mantém-se fiel aos aspectos grotescos do ano de estreia, não se furtando em mostrar as imagens horríveis que um show que tem a violência macabra como um de seus motores exige, mas sendo elegante o suficiente para não banalizar esta mesma violência. Percebe-se também uma condução mais ousada neste segundo ciclo, com passagens onde se sente mais o peso da direção, vide a sequência de apresentação de Sara na Premiere, que parece estabelecer a detetive como a protagonista da temporada ao lançar uma visão quase enaltecedora sobre ela; ou a festa de noivado de John e Violet no 4º episódio, onde a decupagem faz uma ótima metáfora visual com o consumismo desacerbado e futilidade das classes privilegiadas.

Angel Of Darkness, como foi batizada esta segunda temporada de The Alienist mantém todas as qualidades do ano de estreia, além de conseguir atingir um ritmo muito mais interessante, com uma história mais ágil e direta (a diminuição dos dez episódios da temporada anterior para oito fez bem á série). A escolha em dar mais tempo de tela para a antagonista do novo ciclo também permitiu a série entregar uma vilã principal muito mais complexa e multifacetada, que a meu ver valida o protagonismo dado a Sara pela ótima dinâmica de rivalidade e identificação construída entre as duas personagens. Apesar de insistir em criar algumas subtramas que acabam não levando a lugar nenhum, ou que não ganham a atenção que deveriam, a 2ª temporada de The Alienist consegue elevar o já ótimo nível da temporada de estreia, mantendo os elementos que trouxeram êxito ao programa, mesmo que sob uma perspectiva um pouco diferente. 

The Alienist – Angel Of Darkness – 2ª Temporada (EUA, 2020)
Criadores: Cary Fukunaga e Jakob Verbruggen
Direção: Clare Kilner, David Caffrey
Roteiro: Stuart Carolan, Gina Gionfriddo, Alyson Feltes, Karina Wolf, Tom Smuts, Amy Berg (Baseado em romance de Caleb Carr)
Elenco: Dakota Fanning, Daniel Brühl, Luke Evans, Ted Levine, Matt Letscher, Rosy McEwen, Robert Ray Wisdow, Douglas Smith, Matthew Shear, Dominic Herman Day, Melanie Field, Michael McElhatton, Heather Goldenhersh, Emily Barber, Bruna Cusi, Brittany Marie Batchelder, Georgia Lowe, Diego Martin, Demetri Goritsas, Frederick Schmidt, Lara Pulver, Gavin O’Connor.
Duração: 08 Episódios de 50 Minutos.

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2 comentários

Mariana Xavier Almeida 25 de fevereiro de 2021 - 23:51

Segunda temporada bem melhor que a primeira, chega a dar uma dor no estômago a cena do primeiro episódio do julgamento da mulher, retrata mto a realidade do senso de justiça naquela época. Não gostei o final dado para a trama do relacionamento da Sarah com o John parece que todos os diálogos deles na temporada e construção foram invalidados. Que vila complexa e que direção impecável nas cenas de de confronto da Sarah com a vilã

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Rafael Lima 26 de fevereiro de 2021 - 11:39

Também gostei mais da nova temporada do que da primeira, e um dos grandes motivos para isso foi essa vilã brilhante apresentada neste novo ciclo, assustadora e brutal, mas ao mesmo tempo cheia de camadas. Aquele discurso final dela pra Sara foi de deixar qualquer um com um nó na garganta.

Quanto ao desfecho da história da Sarah e do John, entendo o seu ponto, mas não sei se chega a invalidar essa construção. Um dos grandes impedimentos do romance dos dois (especialmente do ponto de vista da Sara) vinha justamente das divergências sobre o que os dois queriam da vida, especialmente da parte da Sara. John queria uma família, Sara por sua vez parecia rejeitar tal ideia por inevitavelmente ver o papel de mãe e esposa como um impedimento ou no mínimo um dificultador para a independência que ela tanto lutou para conquistar (uma mulher independente na década de 1890 já era algo estranho, uma mãe e esposa independente era algo inconcebível).

Claro, os dois se amam (alias, a química de Fanning e Evans é fantástica) e a jornada dos dois aqui é que ambos estão dispostos a arriscarem perder os seus sonhos para estarem um com o outro (ao decidir ficar com Sara, John está preparado pra nunca ser pai, mesmo que queira muito isso, Sara por sua vez, está preparada para ser mãe, mesmo que claramente não deseje isso pelo que isso representaria para o seu trabalho). A tragédia é que embora estejam prontos pra fazer tal sacrifício, não significa que eles possam, especialmente pelo sonho de John se tornar também a sua obrigação com a gravidez da Violet. Entendo que possa ser um final meio frustrante e um pouco trágico, mas acho orgânico e fiel aos personagens.

Grande abraço, e obrigado pelo comentário e pela leitura!

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