Home FilmesCríticas Crítica | A Assistente (2019)

Crítica | A Assistente (2019)

por Michel Gutwilen
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O dia ainda nem amanheceu, e Jane (Julia Garner), a assistente de um importante produtor de cinema, sai de sua casa, entra no banco traseiro de um carro e, antes de chegar ao trabalho, alterna entre momentos de sono e olhares, através da janela, para a cidade que ela mora há apenas dois meses. Esta é, basicamente, uma das únicas vezes que A Assistente não se passa dentro de um mundo burocrático e sufocante. Neste sentido, o longa de Kitty Green se assemelha a Negra De…, do senegalês Ousmane Sembene, cujo universo se restringia a um apartamento, onde a protagonista, naquele caso, aceitava ser empregada doméstica na França em busca de uma vida melhor. Apesar de estruturalmente similares, se o clássico de 1966 entra na temática racial e colonizadora, a produção norte-americana ganha sua contextualização dentro do movimento #MeToo e dos casos de abuso sexual envolvendo um dos “ex-chefões” de Hollywood, Harvey Weinstein. 

Contudo, Weinstein não é o “vilão” da película, uma vez que o chefe da protagonista sequer é nomeado e tampouco aparece. Obviamente, dá para imaginar que há motivos extra fílmicos por trás de tal escolha, como um possível processo jurídico, mas o que importa é a incrível força que tal omissão representa para o desenvolvimento narrativo. A não personificação, neste caso, representa a não individualização de um problema estrutural. Diferentemente de O Escândalo, que  traz uma caricatura tosca e até cômica do dono da Fox News, The Assistant cria uma entidade invisível que assinala um grande mal-estar. Deste modo, o assediador se materializa pelo ambiente do escritório: numa chamada ameaçadora de telefone, um e-mail passivo-agressivo, o boca-a-boca dos seus funcionários sobre suas histórias, ou dos vestígios que ele deixa, como as drogas que Jane precisa recolher. Essa falta de um corpo hospedeiro não só ajuda a reforçar a mensagem de que se trata de um problema impregnado por toda a indústria (o produtor, a empresa, e nem a cidade são nomeados), como também trabalha o poder da imaginação daquele que assiste, já que vamos imaginando um verdadeiro monstro conforme seus atos vão sendo revelados. Ou seja, aquele homem pode ser qualquer um.

Por conta disso, o grande poder de The Assistant está na sugestão e nos pequenos gestos. Não se trata de assédios visíveis, mas ações estruturais que vão se acumulando em uma espiral, dos colegas que constroem as frases de seu e-mail aos homens que contam piadas sexuais a sua volta como se fosse algo normal. Um exemplo de sutileza é quando Jane cansa de ser apenas uma observadora sem voz naquele ambiente predominantemente masculino e decide ir ao RH da empresa. Nesta hora, ela está com um casaco extra e um cachecol que deixam apenas sua cabeça de fora. Fora o fato de ser um figurino que impede qualquer visão sexualizada de sua pessoa, já indica um certo casulo que a personagem cria para si mesma, assim como nas numerosas cenas em que cruza os braços quando está desconfortável. Ao chegar, o chefe do setor lhe convence a retirar o cachecol, desarmando sua postura defensiva e fazendo com que ela deposite um ato de ingenuidade e boa-fé no sistema. O diálogo desta sequência é talvez o mais explícito do filme, fugindo da sutileza geral, mas que é necessário por representar o momento que a assistente percebe estar sozinha contra todo um mundo dominado por homens.  

Como um todo, Kitty Green cria uma unidade estilística que trabalha em prol de anular a presença de Jane por uma criação de um ambiente desconfortável. Isso é algo que vai das cores monocráticas cinzas que geram um tom de apatia; passando pelos enquadramentos em que a protagonista está posicionada no canto da tela, quase espremida (como nos elevadores); e percorre o uso de uma câmera superior em plongée que parece subjugá-la. De tal modo, cabe a incrível Julia Garner uma atuação minimalista, absorvendo todo este impacto e sendo obrigada a “engolir o choro”, pois esta não é uma história de revolta ou empoderamento, mas justamente de impotência. Logo, o interesse de Grenn está em filmar sua atriz reagindo às mais diversas situações constrangedoras que vão acontecendo no intervalo de apenas uns 2 dias, mas como a diretora nunca estabelece claramente a passagem dos mesmos, cria-se uma sensação de um tempo psicológico, como aquelas horas intermináveis no trabalho que parecem durar meses. 

Se, na sequência inicial, Jane olhava pela janela do carro buscando o exterior da cidade, pelos reflexos dos edifícios luminosos, como se negasse a olhar seu conteúdo, sua visão agora é para o interior da janela, onde encontra a verdade enraizada no sistema, representada pelo fantasma do produtor assediador. No fim, a própria ambiguidade do gesto derradeiro vai de encontro a todo o sentimento de impotência da personagem sentido ao longo da trama. Afinal, o caminhar de Jane para longe da câmera e na direção oposta do escritório pode significar tanto que ela se conformou com a situação e irá voltar no dia seguinte quanto que ela abandonou seu sonho. Chega a ser cruel, porém brilhante, que o filme tire até o direito da personagem em responder pelo próprio destino, deixando a cargo de nossa interpretação e reforçando a intenção da obra em ser sobre o silenciamento feminino na indústria. 

The Assistant  – EUA, 2019.
Direção: Kitty Green
Roteiro: Kitty Green
Elenco: Julia Garner, Matthew Macfadyen, Makenzie Leigh, Kristine Froseth, Jon Orsini, Noah Robbins, Patrick Wilso
Duração: 87  min.

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