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Crítica | The B-Side – Elsa Dorfman’s Portrait Photography

por Leonardo Campos
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Nostalgia é um tema recorrente na produção cultural contemporânea. As diversa gerações em contato, na atualidade, querem saber mais sobre acontecimentos que não marcaram as suas respectivas épocas, ou então, quem tem alguma relação com objetos e modos de consumo já não existentes hoje, mergulha de cabeça em narrativas retrospectivas que as permitem recordar e reviver coisas que fizeram parte de suas histórias. Parte integrante de nosso cotidiano, seja nas redes sociais ou em situações mínimas que acontecem diariamente, a fotografia já passou por diversas fases ao longo da sua história relativamente recente, quando comparada com outras modalidades artísticas clássicas. Na cultura digital, momento histórico que demarca o aqui e o agora de quem vos escreve, em pleno 2020, a imagem é um recurso obrigatório para a comunicação nos diversos suportes que demarcam os nossos hábitos culturais, tudo isso motivado pela popularização das câmeras digitais, seguida da inserção deste mecanismos em nossos smartphones, aparelhos que dominam nossas dinâmicas ao fotografar, agregar aplicativos diversos, permitir ligações, dentre tantas outras funcionalidades. Foi na ascensão desta cultura da imagem digitalizada que o formato polaroid perdeu o fôlego e deixou de ser parte do esquema de produção fotográfica no mundo todo.

Algo que no passado foi uma febre, agora é história. Documentada e registrada em diversos documentários, sendo The B-Side – Elsa Dorfman’s Portrait Photography, dirigido por Errol Morris, amigo da personagem biografada, também o diretor de fotografia do projeto escrito por Dorfman, aqui na posição de personagem e roteirista. Acompanhada pela condução sonora de Paul Leonardo-Morgan, as imagens revelam, ao longo do documentário de 76 minutos, como e quando certas fotos famosas da profissional foram registradas, num olhar para o desenvolvimento de seu modo de produção, bem como a explanação das escolhas de trabalho em paralelo com os suportes tecnológicos que lhe permitiram produzir o singular projeto com fotos polaroid gigantes. Conhecida por ter captado imagens de poetas, escritores, artistas, membros de sua família e círculos de amigos/conhecidos, dentre ele, Allen Ginsberg e Bob Dylan. Nascida em Cambridge, em Massachusetts, a fotógrafa começou a sua experiência artística com personalidades literárias em Grove Press, em Nova Iork, ambiente que lhe permitiu contato com diversos membros exaltados no que hoje chamamos de Geração Beat.

Lançado em 2016, é um documentário que vai além das curiosidades. The B-Side – Elsa Dorfman’s Portrait Photography parece uma versão alongada de algum episódio da série Abstract, mas com ritmo mais letárgico e pouco uso de recursos de edição para fazê-lo se movimentar melhor e de maneira mais atraente. Funciona como expressão de um modo peculiar de fazer arte, bem como expressa poeticamente a trajetória de uma artista que ficou conhecida por uma modalidade de reprodução imagética que hoje não está mais em voga, mas que representou muito enquanto esteve relevante no mercado. Fora isso, faltou ao documentário a capacidade de falar para um público maior, pois não acredito que filmes sobre esses temas tenham que ser apenas para amantes de fotografia ou estudantes de comunicação que usam o seu conteúdo para estudar modalidades artísticas, etc. Não é uma obrigação do documentário ser uma narrativa veloz e furiosa, mas convenhamos, ao assisti-lo, sentimos a necessidade de ver depoimentos que saiam da letargia e demonstrem ânimo para os seus espectadores, a crença vibrante diante da importância do material que é exposto para a contemplação alheia.

É como aquele lance motivacional: se você não acredita em seu material, quem vai comprar a sua ideia? The B-Side – Elsa Dorfman’s Portrait Photography vende um produto com conteúdo relevante, mas com pouca animosidade, algo que pode afastar os mais inebriados pela atmosfera vibrante da arte. Ademais, como registro histórico, a produção é uma beleza. Pode até ter “um porém” no viés do entretenimento, mas constrói algo relevante ao traçar a trajetória da biografada em paralelo aos diversos contextos históricos de sua atuação fotográfica. O fato de ter registrado Jorge Luis Borges, Audre Lorde, Anne Sexton, Anais Nin, dentre outros, coloca Elsa Dorfman num patamar privilegiado da realização artística do século XX. Num breve panorama, da primeira fotografia polaroid feita por Edwin H. Land em 1948 ao final de seu processo de produção com a falência da empresa patenteada em 1929 e fechada em 2008, o documentário também nos permite conhecer um pouco mais do mecanismo desta modalidade fotográfica produzida instantaneamente, sem o mecanismo de revelação tradicional que hoje chamamos de impressão, algo que no passado, dava ao autor da fotografia a sensação imediata de contato com as imagens registradas, recursos que na cultura dos smartphones, já é algo banal/corriqueiro.

The B-Side – Elsa Dorfman’s Portrait Photography — Estados Unidos, 2016
Direção: Eroll Morris
Roteiro: Eroll Morris
Elenco: Elsa Dorfman
Duração: 76 min.

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