Crítica | The Boys – Vol. 2: Mandando Ver

Simplesmente não tem como Garth Ennis ser um uma pessoa normal. Já li muita coisa dele, incluindo Preacher, mas só os dois primeiros volumes de The Boys já colocam tudo no chinelo em termos de decrepitude moral. E não, não estou dizendo que Ennis é de alguma forma doente, apenas que sua imaginação para coisas doentias, normalmente ligadas ao sexo, é de assustar. Em O Nome do Jogo isso já tinha ficado evidente, mas achei que ele mudaria de abordagem nas edições posteriores. O que vi, porém, é que esse (o sexo) parece ser um tema recorrente.

E não leiam nessas minhas palavras qualquer tipo de desgosto pelo trabalho dele ou algum verniz de moral superior, pois não é nada disso. É, decididamente, apenas uma constatação e Ennis, mesmo de certa forma repetindo a temática, sabe escrever histórias divertidas, daquelas que nos levam primeiro ao espanto e, em seguida, a risadas culposas, quase como se ficássemos com vergonha da cumplicidade que eles nos “obriga” a ter com ele.

Mandando Ver, segundo encadernado da série de 12, conta, diferente do primeiro, duas histórias não relacionadas tendo os “rapazes” como protagonistas. O primeiro arco leva o nome do encadernado (Get Some, no original) e usa como trampolim aquela conversa de décadas que todo leitor de quadrinhos sempre teve: e afinal, Batman e Robin, a Dupla Dinâmica, são gays? Para isso, ele cria duas contrapartidas desses grandes heróis da DC Comics para seu universo doentio: Tek-Knight e SwingWing (o primeiro Laddio, ou Robin, de Tek-Knight, que, agora, vive carreira solo).

Quando o arco começa, Tek-Knight, um sujeito grandalhão usando uma armadura tecnológica que não esconde em absolutamente nada sua correlação com o Homem-Morcego, está em um psiquiatra confessando que tornou-se um compulsivo sexual, capaz de transar com qualquer coisa que tenha um buraco (e, por qualquer coisa, entenda MESMO qualquer coisa). O drama pessoal do suposto super-herói é hilário e ao mesmo tempo nojento, já nos preparando para o que está por vir, ainda que não haja uma conexão direta entre essa sua compulsão e o desenrolar da história.

O fio da meada é uma missão que Billy, o Carniceiro e Hughie recebem da Lenda, personagem sem nome que é escritor de quadrinhos (mas que os odeia) e que amalgama todos os grandes mestres da Nona Arte. Eles precisam descobrir quem matou o neto da irmã da Lenda, um homem gay, e, com isso, a narrativa começa a aproximar-se, indiretamente, de Tek-Night e seu ex-sidekick SwingWing, ainda que o destaque mesmo fique com o primeiro. É uma história construída em cima da clássica estrutura investigativa do whodunit que permanece focada apenas em Billy e Hughie quase o tempo todo, aumentando a sensação de que são esses dois os principais de The Boys, com os três outros do grupo sendo coadjuvantes que só aparecem mesmo quando conveniente, para dar a impressão de que estamos diante de um grupo e não de apenas uma dupla (ou trinca, claro, já que Terror, o cão mais sensacional do mundo dos quadrinhos, sempre acompanha Billy).

(1) Tek-Knight e SwingWing e (2) Love Sausage.

Se a investigação não é lá tão sensacional assim e de certa forma subutiliza Billy e Hughie, a abordagem que Garth Ennis dá para todo o ecossistema gay e, principalmente, o que heterossexuais acham dele, é muito interessante e incômodo. A razão desse incômodo é que o roteirista, como de costume, não tem papas na língua e não deixa pedra sob pedra, jamais desviando seu caminho do politicamente incorreto com o objetivo de desnudar preconceitos. A principal maneira que Ennis encontrou para lidar com a questão foi desenvolver as noções pré-concebidas que Hughie tem em relação aos homossexuais, com o personagem afirmando, muito tranquilamente, que ele “não tem nada contra”, mas que “não se sente bem perto de gays”. É a velha história: não sou preconceituoso, mas eu não gosto.

Billie, por seu turno, é o grosseirão que chama os gays de uma vasta quantidade de nomes coloridos, mas que se sente genuinamente a vontade entre eles, pouco se importando com suas respectivas orientações sexuais. Mas, como fica clara essa minha tentativa de descrever os comportamentos dos dois, talvez nenhuma das duas posições seja aceitável e Garth Ennis joga em nosso colo a responsabilidade de chegar a essa eventual conclusão, sem discursos moralistas, sem nenhuma tentativa de justificar ou condenar (abertamente) uma coisa ou outra. Ennis canta as pedras como ele as vê e deixa o jogo aberto para que nós levemos os peões até a reta de chegada.

No segundo arco, O Glorioso Plano de Cinco Anos (Glorious Five Year Plan), a história é um pouco mais rasteira, sem grandes comentários críticos. Nela, Billy e o restante do grupo vão para a Rússia para, junto do ex-super-herói local Love Sausage (qualquer dúvida sobre a razão para o nome, reparem na anatomia do sujeito na imagem no corpo de presente postagem), desbaratar um plano que envolve a mini-mafiosa Little Nina (outra tarada sexual, mas dessa vez por vibradores, digamos, avantajados) e um misterioso executivo americano e que envolve a arregimentação de dúzias de super-seres.

Ainda que eventualmente essa história venha a ter alguma importância em volumes posteriores de The Boys, a grande verdade é que, excetuando-se o hilário Love Sausage e, claro, os litros de sangue que escorrem pelas páginas, o arco não é capaz de oferecer algo mais que o retire do lugar-comum. Além disso, Ennis se perde em intermináveis diálogos expositivos tanto do lado vilanesco quanto do lado dos “rapazes” que preenchem balões atrás de balões e fazem o arco de quatro edições parecer gigantesco, interminável.

A arte de Darick Robertson (na vasta maioria das páginas, já que Peter Snejbjerg desenha algumas) é crua da forma como já esperamos do artista. Sua capacidade de lidar e amplificar todo tipo de sujeira que Ennis escreve é prodigiosa e resulta em momentos tão fascinantes quanto asquerosos.

Mandando Ver é um volume irregular, com duas histórias de ritmos diferentes que divertem, mas não satisfazem completamente. Existe um limite para o quanto de perversão e violência pode ser inserido em uma história sem causar fadiga e aquela sensação de déjà vu. Ou talvez não exista, não sei…

The Boys – Vol. 2: Mandando Ver (The Boys – Vol. 2: Get Some, EUA – 2007/8)
Contendo: The Boys #7 a 14
Roteiro: Garth Ennis
Arte: Darick Robertson, Peter Snejbjerg
Arte-final: Rodney Ramos
Cores: Tony Aviña
Letras: Simon Bowland
Capa: Darick Robertson, Tony Aviña
Editora original: Dynamite Comics (Dynamite Entertainment)
Data original de publicação: maio de 2007 a janeiro de 2008
Editora no Brasil: Devir
Data de publicação no Brasil: janeiro de 2012 (encadernado)
Páginas: 205

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.