Crítica | The Boys – Vol. 3: Bom para a Alma

Mesmo sendo transgressor do começo ao fim, Bom para a Alma, o terceiro volume de The Boys, é, para os padrões que Garth Ennis estabeleceu para essa sua série, o mais light até agora. E por light eu quero simplesmente dizer que o escracho total abre um pouco de espaço para dois arcos mais sérios, o primeiro focado em Annie, ou Starlight, a mais nova adição ao Os Sete e, o segundo, oferecendo ao leitor uma “história resumida” desse universo doentio que o roteirista criou.

O primeiro arco, composto das edições #15 a 18 e que carrega o nome do encadernado, lida com as dúvidas morais e religiosas de Annie, que foi obrigada o fazer sexo oral com três membros d’Os Sete para garantir sua permanência lá, em um momento aterrador, mas infelizmente mais comum do que muitos imaginam no show business e em outras áreas, logo no primeiro volume da série. A personagem representa a perda da inocência da maneira mais violenta possível (ou quase) e ela luta para conciliar o que aprendeu desde então com sua crença religiosa, tentando entender porque seu deus não interferiu lá, como não interfere nunca. É a perda da fé trabalhada de maneira inteligente e lógica por um roteiro maduro, bem construído, que ainda aproveita para aproximar Annie de Hughie ainda mais, depois que os dois se conheceram por acaso em um banco do Central Park.

Paralelamente, Hughie precisa lidar com a volta de Blarney Cock, o super-herói que ele matara no primeiro confronto na nova versão dos “rapazes” com um super-grupo, no caso o Teenage Kix. A crítica, aqui, claro, é em relação às constantes ressuscitações de heróis e vilões nos quadrinhos, algo que, ao longo das décadas tornou-se tão absurdamente comum que ninguém mais consegue levar uma morte sequer a sério. O twist da mente doentia de Ennis é que essa “volta” dos heróis mortos, uma espécie de sub-produto do Composto V, responsável por grande parte dos “supers” desse mundo, não é exatamente uma volta, mas sim uma jogada de marketing apenas, já que o super-ser retorna apenas fisicamente, sem qualquer capacidade cognitiva.

É praticamente um milagre que Ennis tenha conseguido inserir por trás de todo esse horror uma simpática historinha de amor entre Annie e Hughie, algo que funciona bem, mas que, como era de se esperar, precisava de uma pequena reviravolta relacionada lá com as partes baixas da moça e a barba do rapaz que me pegou completamente de surpresa e me fez gargalhar. São pequenos momentos assim, simples e geniais, que tornam o trabalho do autor uma delícia de se ler, mesmo considerando que há um risco embutido de me chamarem de maluco e pervertido usar o termo “delícia” para o que ele escreve.

(1) A coitada da Starlight e (2) A Lenda explicando o mundo para Hughie.

O segundo arco, É Tudo Verdade, Soldado!, é, tecnicamente, um problema. Se de um lado Billy lidando com as consequências da espionagem d’Os Sete que leva a uma sabotagem do endosso do vice-presidente dos EUA aos super-grupo tornar-se uma espécie de arma do país, gera uma boa troca de ameaças entre Homelander (o Superman desse universo e líder d’Os Sete) e o líder dos The Boys, com o primeiro com um longo solilóquio permeado de comentários sobre o que Billy está sentido com base em seus super-sentidos, mas sem que Billy diga uma só palavra, por outro o arco é entupido até o ladrão de textos expositivos entre Hughie e A Lenda.

Essa conversa, que é intercalada com Billy e Homelander se enfrentando no topo das ruínas da ponte de Brooklyn, tem sua razão de ser, claro, pois ela nos revela, por intermédio de Hughie (que nada mais é do que o interlocutor do leitor), a origem dos super-humanos desde os anos 40 e o papel nefasto que a empresa Vought American, patrocinadora d’Os Sete e de quatro outros grupos teen de heróis, teve na história dos EUA ao longo das décadas. Não se enganem quando eu digo que há problemas aqui, pois eles não se referem de forma alguma ao que é contado. Ao contrário, é fascinante e aterrador o que Ennis estabelece para esse seu mundo, incluindo aí o papel dos quadrinhos na validação da imagem positiva que os “supers” têm perante o público.

A questão é apenas do lado técnico, do “como” Ennis faz isso, já que o autor escolheu derramar essa parte da história de uma vez só, trabalhando em flashbacks narrados pela Lenda que são pesados em termos de texto e tornam a leitura um pouco cansativa. Ajuda o intercalamento com Billy e Homelander e também com uma narrativa envolvendo Starlight e A-Train e também o conteúdo do que é explicado é fascinante o suficiente para que o leitor preste atenção, mas, para mim, foi uma correria desnecessária que talvez merecesse algumas edições dedicadas e passadas integralmente no passado. Há riqueza e, ao mesmo tempo, podridão demais no que é revelado para que tudo dependa de um longo monólogo da Lenda.

Seja como for, Garth Ennis expande seu universo pervertido e nojento com Bom para a Alma e prepara o que pode ser o agravamento do conflito velado entre os “rapazes” e Os Sete. Imagino que não sobrará pedra sobre pedra de quem quer que seja até o final, e essa jornada tem sido realmente interessante (e também doentia, repulsiva, aviltante e destruidora…).

The Boys – Vol. 3: Bom para a Alma (The Boys – Vol. 3: Good for the Sould, EUA – 2008)
Contendo: The Boys #15 a 22
Roteiro: Garth Ennis
Arte: Darick Robertson, Peter Snejbjerg
Arte-final: Rodney Ramos
Cores: Tony Aviña
Letras: Simon Bowland
Capa: Darick Robertson, Tony Aviña
Editora original: Dynamite Comics (Dynamite Entertainment)
Data original de publicação: fevereiro a setembro de 2008
Editora no Brasil: Devir
Data de publicação no Brasil: abril de 2013 (encadernado)
Páginas: 205

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.