Crítica | The Boys – Vol. 4: Hora de Partir

The Boys começou muito bem com O Nome do Jogo, encadernado compilando as seis primeiras edições da série e que conta uma história introdutória única e sólida, girando ao redor de Hughie, o novato na divisão da CIA encabeçada por Billy, o Carniceiro, que tem como função manter os super-heróis desse universo depravado de Garth Ennis em xeque, literalmente sendo aqueles que vigiam os vigilantes. Apesar de nunca menos do que divertidos, os encadernados seguintes – Mandando Ver e Bom para a Alma – por diversas razões diferentes que explorei nas respectivas críticas, não conseguiram chegar ao mesmo nível do inicial. Mas Hora de Partir não só consegue como ultrapassar a qualidade do arco inaugural, com uma história única em sete edições e mais um epílogo que coloca os “rapazes” em uma interessantíssima missão investigativa, como demonstra de vez o potencial para além do escracho (mas sem esquecer dele) que a série sem dúvida tem.

Tudo começa quando a chefe e amante (a relação deles é muito, MAS MUITO doentia e, de tabela, engraçada) de Billy pede para que ele investigue o suicídio de Silver Kincaid, heroína dos G-Men, grupo de super-heróis “renegados” liderados pelo misterioso John Godolkin em uma mansão que faz as vezes de escola. Reconheceram os X-Men aí? Pois é. Os diversos super-grupos de mutantes da Marvel Comics são os alvos da crítica ferina e sarcástica de Ennis, que não perdoa absolutamente nada, dos aspectos comerciais dos G-Men – eles são os mais lucrativos da Vought American, empresa patrocinadora dos grandes supers – e também dos práticos, como o fato de todos, ou quase todos serem órfãos acolhidos por Godolkin ainda em tenra idade (mesmo sem eu escrever mais nada, quem conhece Ennis sabe muito bem onde é que isso vai dar, não é mesmo?).

A estrutura hierárquica dos “grupos G” emula as dos “grupos X” da Casa das Ideias, com os esperados exageros do autor, como um grupo G (G-Style) só de negros que precisam falar como negros estereotipados de algum gueto empobrecido ou outro (G-Brit) que, claro, só tem heróis britânicos. Um desses grupos, que poderia ser chamado de grupo teste ou grupo de entrada, é o G-Wiz – talvez equivalente aos Novos Mutantes – em que, surpresa, surpresa, Hughie precisa infiltrar-se fingindo ser o super-herói escocês Bagpipe (ou Gaita de Fole), em um hilário momento em que o vemos uniformizado perante Billy e seus demais colegas que, não tenha dúvida, caem na risada. O objetivo é simples: plantar escutas na sede dos G-Men que tem defesas em tese impenetráveis, bem mais do que as d’Os Sete.

(1) Hughie como Bagpipe e (2) os G-Men!

Essa infiltração acontece instantânea e facilmente demais, com uma elipse narrativa muito mal explicada e extremamente conveniente que varre tudo para debaixo do genérico tapete da burocracia interna dos grupos G e da Vought American. Mas esse é um detalhe menor, pois, por intermédio de Hughie, vamos aprendendo sobre os membros do G-Wiz e, por mais enlouquecidos que eles sejam (sexo, novamente, é uma parte enormemente importante, valendo destaque para um doentio home theater pornográfico com uma biblioteca de vídeos pornô de todo o tipo e com poltronas guarnecidas de lubrificantes e caixas de lenços de papel…), percebemos que eles parecem genuinamente gostar um do outro, basicamente sendo possível chamá-los de “gente boa”, pelo menos em termos comparativos com todos os demais super-heróis a que fomos apresentados até agora na série, com exceção, lógico, de Annie, ou Starlight.

Com isso, a missão de Hughie, graças a ele mesmo, ganha contornos maiores e mais altruísticos e, sem dúvida, naturalmente mais perigosos, com Billy cada vez mais preocupado com seu colega em situação de potencial perigo. No entanto, simultaneamente ao trabalho do escocês infiltrado, a narrativa lida com Leite Materno investigando in loco a morte de Silver Kincaid, tentando encontrar a razão psicológica por trás de seu suicídio à luz do dia, em plena praça de uma cidadezinha no interior dos EUA. O trabalho de Ennis, aqui, é completamente pé no chão, no estilo tradicional de investigação, sem nem um pingo de artifícios super-heroísticos para “atrapalhar”. Com isso, o gigante do grupo de Billy ganha espaço para seu detalhismo (quase obsessão) ser abordado em uma narrativa paralela que vai, aos poucos, preenchendo  os espaços deixados pelas circunstância da formação dos grupos G.

De certa forma, este é o arco com menos “ação” até agora, no sentido clássico da palavra. Tudo fica concentrado no final e com relativamente pouca participação direta dos “rapazes”, o que, ao contrário do que se pode imaginar, é um bônus, pois torna o que acontece no clímax mais crível e realista e, por isso mesmo, ainda mais horripilante e nauseante que eu poderia imaginar, com especial destaque  para uma certa carga sendo arremessada de um avião no epílogo.

Hora de Partir sobe o sarrafo de qualidade e de seriedade de The Boys, mostrando que Garth Ennis sabe brincar tanto quanto sabe enxertar drama sério de qualidade. Acho que nunca mais lerei X-Men novamente sem lembrar-me dos G-Men…

The Boys – Vol. 4: Hora de Partir (The Boys – Vol. 4: We Gotta Go Now, EUA – 2008/9)
Contendo: The Boys #23 a 30
Roteiro: Garth Ennis
Arte: Darick Robertson, John Higgins
Arte-final: Rodney Ramos
Cores: Tony Aviña
Letras: Simon Bowland
Capa: Darick Robertson, Tony Aviña
Editora original: Dynamite Comics (Dynamite Entertainment)
Data original de publicação: outubro de 2008 a setembro de 2009
Editora no Brasil: Devir
Data de publicação no Brasil: agosto de 2014 (encadernado)
Páginas: 206

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.