Crítica | The Boys – Vol. 5: Herogasm

Sexo! Eu quero sexo!
Como é que eu fico sem sexo?
Me dá sexo! Me dá sexo!
Eu quero sexo!
Como é que eu fico sem sexo?
Sexo!
– Ultraje a Rigor

Quando eu acabar a leitura dos volumes de The Boys, minha visão já cínica dos quadrinhos em geral jamais voltará a ser a mesma. Não conseguirei ler uma página sequer das HQs mainstream sem lembrar-me do que Garth Ennis fez com elas, não deixando pedra sobre pedra sobre o assunto e funcionando como verdadeiras chicotadas de realidade (a realidade dele, mas mesmo assim uma realidade) nesse meio tão tumultuado e tão endeusado por tantos. É como se The Boys fosse um moedor que faz papel picado de parte bastante relevante das minhas décadas de leitura das inocentes “revistinhas” como eu chamava em priscas eras. E é por isso, principalmente, que acompanhar essa “anti-HQ” tem sido tão divertido.

Se eu encerrei a crítica passada afirmando que nunca mais conseguiria ler X-Men sem lembrar dos G-Men, agora vou começar afirmando que será impossível levar a sério qualquer saga ou crossover sem que Herogasm me venha imediatamente à cabeça. O que é Herogasm? Bem, não só é o primeiro spin-off de The Boys na forma de uma minissérie em seis edições compilada como o quinto volume da história macro, como é o nome das férias secretas dos super-heróis e super-vilões desse universo de Ennis que, durante alguns dias por ano, desaparecem em razão de alguma ameaça global que é inventada pelo departamento de relações públicas da Vought American, ou seja, alguma saga ou crossover que exija a presença de todos, lá do outro lado da galáxia, e vão para uma ilha paradisíaca no pacífico para “f@od&r”, só para usar o palavreado de Homelander. Em suma, bem em linha com o que qualquer pessoa poderia deduzir ao ler o nome Herogasm, os supers vão para a mais completa e absoluta esbórnia sexual regada a drogas, como se eles já não vivessem assim em seu dia-a-dia…

Em outras palavras, Ennis dá carta branca para John McCrea e Keith Burns, dupla de artistas que substituiu Darick Robertson nessa minissérie, aloprarem completamente. Portanto, pelo menos no terço inicial, o leitor deve se preparar para deliciar-se com corpos nus, sexo, hummm, digamos, inventivo, e todo o tipo de sandice que normalmente acompanha esse tipo de abordagem. E o estilo especialmente de McCrea funciona bem para a proposta da história, já que ele trabalha com a anatomia humana (e super-humana) mais exagerada e mais caricata, por vezes resvalando (de propósito, tenho para mim), nos arroubos dos quadrinhos noventistas, mas sempre de maneira criativa.

Mas Ennis usa Herogasm como um veículo para abordar uma interessante e conspiratória trama paralela envolvendo a Vought American e seus planos para Vic, o VP, vice-presidente de Q.I. de ameba que é um peão da empresa e que ela pretende colocar na cadeira de presidente dos EUA em uma trama sórdida que expande e retrabalha o 9/11 desse universo conforme contado pela Lenda a Hughie no segundo arco de Bom para a Alma. Os “rapazes” estão secretamente na ilha para justamente receber informações bombásticas de um agente do serviço secreto da equipe do vice-presidente e, aos poucos, vamos aprendendo mais sobre os bastidores do jogo de poder tendo os super-heróis como potenciais armas de guerra. Além disso, descortina-se o que parece ser o começo de algum tipo de rebelião do próprio Homelander contra seus “chefes” em um sequência estranha e perturbadora no começo do arco que ganha um desfecho ainda mais estranho e perturbador.

Mesmo que a trama envolvendo o vice-presidente acabe fácil e conveniente demais, pelo menos pelo momento, o arco em seis edições mantém o leitor aceso e curioso o tempo todo, sem dar descanso visual algum e ainda “introduzindo” – he, he, he – uma subtrama breve, mas doentia, para Hughie que fica sem desfecho aqui e que promete ter desdobramentos em futuro próximo. O preço disso é que as sagas e crossovers dos quadrinhos, agora, serão motivos de chacota eterna e não pelas razões usuais…

The Boys – Vol. 5: Herogasm (Idem, EUA – 2009)
Contendo: The Boys: Herogasm #1 a 6
Roteiro: Garth Ennis
Arte: John McCrea, Keith Burns
Arte-final: Keith Burns, John McCrea
Cores: Tony Aviña
Letras: Simon Bowland
Capa: Darick Robertson, Tony Aviña
Editora original: Dynamite Comics (Dynamite Entertainment)
Data original de publicação: maio a outubro de 2009
Editora no Brasil: Devir
Data de publicação no Brasil: outubro de 2017 (encadernado)
Páginas: 152

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.