Crítica | The Boys – Vol. 6: A Sociedade da Autopreservação

Marcando a metade (em encadernados) da série ultraviolenta, quase totalmente pornográfica e mais do que doentia do quinteto da CIA que mantém em xeque os super-heróis desse universo de Garth Ennis, A Sociedade da Autopreservação é o primeiro volume que coloca os “rapazes” realmente de frente com alguns supers, no caso o grupo de segundo escalão Liga da Revanche, que, a pedido da Vought American, sai para quebrar o grupo liderado por Billy, o Carniceiro. O resultado é uma rinha de galo que estabelece uma espécie de novo padrão para pancadaria na Nona Arte.

Esse arco, que batiza o encadernado e é composto por quatro edições, já começa sem perder tempo, fazendo com que a Fêmea seja emboscada e, apesar de causar estrago, acabe em coma. Billy, Leite Materno, Francês e Hughie, então, precisam enfrentar Jovem Soldado (algo como um sidekick de Homelander, líder d’Os Sete), Mentaldroide (um telepata de meia-tigela), Insetus (que só voa e faz bzzzzz), Condessa Escarlate (essa sim formidável – em todos os sentidos) e o nazista (mesmo) Trovoada, basicamente o Superman se a nave inventada por Jor-El caísse na Alemanha dos anos 30 no lugar do Kansas.

O resultado é destruidor, com uma crueza gráfica daquelas de nos fazer fechar os olhos graças à arte de ninguém menos do que do espanhol Carlos Ezquerra, co-criador de Judge Dredd. A reunião do texto completamente sem freios – mas não desgovernado! – de Ennis com o traço do mestre Ezquerra é explosiva, com uma boa quantidade de partes da anatomia humana sendo arrancadas e esmigalhadas em um festival de sanguinolência que provavelmente deixará o leitor aturdido e a HQ literalmente sangrando.

Como história, porém, esse arco é só isso mesmo, uma rinha de galo sem maiores elucubrações que não seja a retirada da luva de pelica da Vought American em relação aos “rapazes”, o que provavelmente resultará em uma espiral ainda maior de sangue, tripas e ossos quebrados. Ennis chega a uma espécie de “ponto sem retorno” para seu grupo, estabelecendo o que provavelmente será um enfrentamento mais direto daqui por diante, já que, até esse ponto, o autor vinha conseguido esquivar-se de já colocar Billy e companhia diretamente em atrito com super-heróis importantes de verdade, quase no topo da cadeia alimentar.

E talvez seja por isso que, no lugar de seguir diretamente com essa narrativa nas quatro edições que completam o encadernado, Ennis tenha decidido fazer uma parada estratégica. Nela, ele nos faz novamente entrar na pela de Hughie como o recipiente de informações históricas importantes, como foi o caso da longa e detalhada narração da Lenda para o novato do grupo em Bom para a Alma sobre a aterradora “origem” de todo esse universo super-heroístico. No entanto, no lugar de criar uma desculpa orgânica para que essas novas histórias aconteçam, Ennis simplesmente as enfileiram, começando com a origem do Leite Materno em duas edições e, em seguida, as do Francês e da Fêmea, cada uma em uma edição.

Com isso, as revelações são estranhas, praticamente vindo do nada, sem que sequer Hughie peça por elas. Não que essas origens não sejam interessantes, pois elas são e Ennis ainda tem a paciência de torná-las tonal e narrativamente bem diferentes entre si – Leite Materno conta sua história na forma de algo muito pessoal e, diria, nojento; Francês como um conto de fadas surreal e Fêmea pela narração do Francês como se estivesse lendo o diário da Fêmea em uma história marcadamente inspirada na de Wolverine – o que evita repetições e que o leitor perca o interesse. Mesmo assim, não posso dizer em sã consciência que esta foi a melhor escolha para o roteirista “se livrar” dessas origens logo de uma vez, já que elas poderiam ter sido mais fluidamente inseridas no contexto de outras histórias.

A Sociedade da Autopreservação, portanto, é um volume irregular, que começa muito bem com uma história simples, mas repleta de ação e, depois, esmorece um pouco com três origens bem mais complexas, mas também significativamente mais maçantes pela forma como elas são contadas. Mas não se enganem: a imaginação fértil de Ennis não desapontará ninguém que chegou até aqui nessa doideira irresistível chamada The Boys.

The Boys – Vol. 6: A Sociedade da Autopreservação (The Boys – Vol. 6: The Self-Preservation Society, EUA – 2009/10)
Contendo: The Boys #31 a 38
Roteiro: Garth Ennis
Arte: Darick Robertson, Carlos Ezquerra, John McCrea, Keith Burns
Arte-final: Hector Ezquerra, Keith Burns, John McCrea
Cores: Tony Aviña
Letras: Simon Bowland
Capa: Darick Robertson, Tony Aviña
Editora original: Dynamite Comics (Dynamite Entertainment)
Data original de publicação: junho de 2009 a janeiro de 2010
Editora no Brasil: Devir
Data de publicação no Brasil: novembro de 2017 (encadernado)
Páginas: 152

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.