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Crítica | The Boys – Vol. 7: Os Inocentes

por Ritter Fan
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  • spoilers.

Depois de muita ação, violência e sexo nos dois arcos anteriores, Herogasm e A Sociedade da Autopreservação, The Boys traz um sétimo volume que lembra bastante o estilo do terceiro, Bom para a Alma, em que Garth Ennis está mais interessado em rearrumar o tabuleiro e trazer muitas explicações para a mesa, no lugar de equilibrar falatório com pancadaria. Os Inocentes é, de certa maneira, um ponto de virada para Hughie, já que todas as edições que compõem o volume (são oito, um número considerável até) são focadas quase que exclusivamente nele e na forma terrível com que Billy se mostra um manipulador completamente sem escrúpulos.

Como de praxe, há dois arcos no volume, mas ambos conversam muito entre si em razão de manterem o já citado Hughie como foco das atenções. No primeiro, que carrega o título do encadernado e que englobam as edições #39 a 43, Billy, descobrindo por acaso que Hughie tem um caso com Annie, a Starlight d’Os Sete, passa a hesitantemente desconfiar que o escocês é um traidor. Sem avisar nada para seus demais colegas, Billy então manda Hughie para uma missão de vigilância do grupo Super-Híper que, aparentemente sem maiores explicações, ganha um nove líder vindo de outro grupo. Claro que Billy “vigia o vigilante” justamente para estabelecer sua fidelidade.

A paródia de super-grupos de heróis de quadrinhos é um dos chamarizes de The Boys e a capacidade de Ennis de criar versões perfeitamente reconhecíveis e ao mesmo tempo bem diferentes daqueles personagens que tanto amamos é realmente incrível. Quando comecei a ler o volume, a apresentação dos componentes do Super-Híper arrancou um enorme sorriso do rosto, já que fica evidente o alvo da acidez do autor: a Legião dos Super-Heróis. Eu sempre detestei esse super-grupo, por achá-lo simplesmente imbecil do começo ao fim, sejam os poderes idiotas, sejam os nomes bobocas de seus componentes. Portanto, minha felicidade foi dupla, tripla ao ver Ennis desancando a Legião com o Super-Híper, grupo formado de super-heróis “vindos do futuro” que é uma coleção de adultos com mentes de criança com nomes e atitudes completamente inocentes, além de poderes para lá de inúteis, sendo sequer capazes de resgatar um gatinho que subiu em uma árvore.

Quando me recuperei do choque que foi ver minhas exatas impressões da Legião aparecerem magicamente nas páginas, cortesia de Ennis e, claro, de Darick Robertson, que, com exceção do prelúdio (edição #39), foi responsável pela arte de todo o arco, pude perceber, porém, que a história não tinha muito mais a oferecer do que aquilo ali mesmo somado à chegada do mais completo babaca super-herói Malquímico, paródia do Metamorfo. É a boa e velha história de abuso que é lugar-comum nesse universo de Ennis, e que serve para mostrar a retidão moral de Hughie de um lado e, de outro, a podridão de Billy, o Carniceiro. Entre uma coisa e outra, há o desenvolvimento da relação de Hughie e Annie, que chega a seu ponto alto com efusivas declarações de amor eterno.

(1) O Super-Híper e (2) Annie releva a verdade.

Mas os “inocentes” do título não são só os componentes do Super-Híper, mas sim também – e especialmente – Hughie e Annie, as duas grandes vítimas da manipulação de Billy. É o que vemos no segundo arco, Believe, contido nas edições #44 a 47, que gira ao redor da organização de um evento evangélico super-heroico em plena Nova York. O pano de fundo é familiar, com os poderosos explorando a inocência dos fieis, mas há uma subtrama que permanece misteriosa e que envolve Homelander e um plano que parece envolver um apoio maciço ao esquema da Vought de reposicionar os super-heróis como peças-chave no Departamento de Defesa americano.

Esse elemento, no entanto, é apenas o envelope macro da narrativa, já que, no foco micro, a atenção fica mesmo toda em Hughie depois que Annie finalmente revela para ele que ela é uma super-heroína do grupo que ele mais odeia. Claro que sabemos que Hughie tem seu próprio e gigantesco segredo, que ele mantém escondido de Annie, pelo que sua reação é a pior possível, algo que é amplificado pela continuidade da manipulação vilanesca de Billie que, acrescentando sal à ferida recém-aberta, faz com que Hughie “sem querer” veja o vídeo de Annie sendo forçada a fazer sexo oral em Homelander e dois de seus colegas, inclusive A-Train, o assassino de sua namorada.

Nessas edições finais, a forma como Russ Braun, que encabeçou a arte, desenha a queda física de Hughie é impressionante, chegando realmente a dar pena do mais novo membro da equipe de Billy. A crueldade do líder é sem par e será muito interessante ver como o escocês sairá dessa e como será sua reação na próxima vez que tiver que se encontra com Annie, seja com ou sem seu uniforme branco e amarelo.

Apesar de a verborragia dominar o volume, ela, aqui, parece melhor e mais bem encaixada do que em Bom para a Alma, ainda que Ennis tivesse se beneficiado mais equilibrando texto expositivo com ação efetiva que fosse mais do que a espionagem do Francês e da Fêmea sobre os planos de Homelander. Seja como for, Hughie acaba mentalmente destruído aqui, realmente deixando para trás todo o resquício de inocência que ainda tivesse. Um verdadeiro horror.

The Boys – Vol. 7: Os Inocentes (The Boys – Vol. 7: The Innocents, EUA – 2009)
Contendo: The Boys #39 a 47
Roteiro: Garth Ennis
Arte: John McCrea, Keith Burns, Darick Robertson, Richard P. Clark, Russ Braun
Arte-final: Keith Burns, John McCrea
Cores: Tony Aviña
Letreiramento: Simon Bowland
Capa: Darick Robertson, Tony Aviña
Editora original: Dynamite Comics (Dynamite Entertainment)
Data original de publicação: fevereiro a outubro de 2010
Editora no Brasil: Devir
Data de publicação no Brasil: agosto de 2018 (encadernado)
Páginas: 224

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