Home QuadrinhosArco Crítica | The Boys – Vol. 8: O Rapaz Escocês

Crítica | The Boys – Vol. 8: O Rapaz Escocês

por Ritter Fan
128 views (a partir de agosto de 2020)

  • spoilers.

Depois de destruir Hughie psicologicamente em Os Inocentes, The Boys continua com sua segunda minissérie apartada da numeração principal, com a primeira tendo sido Herogasm. O Rapaz Escocês, como o nome indica e como o volume anterior simplesmente exigia, é um arco de seis edições dedicado exclusivamente a Hughie que retorna para sua cidade-natal fictícia de Auchterladle para organizar seus pensamentos e refletir sobre sua vida.

É, portanto, uma jornada de auto-conhecimento, artifício narrativo muito comum que serve de olhar mais íntimo para o personagem, dando contexto ao seu passado e fazendo seu dilema que, claro, gira em torno de sua descoberta sobre como exatamente Annie January entrou n’Os Sete. Somos apresentados, portanto, a seus dedicados pais adotivos e a seus dois melhores amigos que, conhecendo Garth Ennis, simplesmente não poderiam ser personagens corriqueiros. Portanto, de um lado temos o grandalhão Bobby, que, em algum momento durante o tempo em que Hughie passou longe da cidade, descobriu-se como mulher trans e anda vestido de roupas de mulher e maquiagem e, de outro, Horace, um homem que sofre de alguma doença que o faz naturalmente feder fortemente e que, por isso, anda sempre com uma máscara de gás no rosto.

Usando Bobby e Horace como trampolins, Ennis nos faz passear pela vida pregressa de Hughie, sobre como ele sofria bullying desses seus dois amigos, como os três, juntos, solucionaram um mistério à la Scooby-Doo (referenciado quase que expressamente) e como isso influenciou a vida do protagonista da série. Além disso, de forma a paralelizar o passado, outro mistério passa a acontecer na cidade em uma subtrama que mantém-se paralela quase até o final, e Hughie, convenientemente, conhece um homem mais velho que pinta paisagens, faz as vezes de psicólogo para o jovem e, claro, não está ali à toa e conecta-se com a vida atual do personagem, sendo a primeira vez que vemos o misterioso Mallory. E, como se isso não bastasse, a própria Annie aparece por ali para confrontar Hughie e tentar entender o que ele realmente sente.

Confesso que, apesar de adorar a maneira ousada como Ennis costuma lidar com suas criações, normalmente exagerando para poder extrair críticas sociais relevantes, não consegui gostar do que ele fez aqui com Hughie. Desde a revelação de que ele é adotado, passando pelos seus surreais amigos, sua fama de “solucionador de mistérios”, as presenças de Mallory e de Annie me pareceram um dilúvio de coincidências e conveniências que não funcionam bem em seu conjunto. Talvez este tivesse que ter sido um momento realmente introspectivo para Hughie, sem as invencionices do autor, sem tentar transformar Hughie em outro cara bizarro que, com sua insegurança, quase que compete com seus surreais colegas de trabalho em Nova York.

Talvez tivesse sido importante pelo menos manter a história apenas verborrágica, sem necessidade de qualquer tipo de ação ao final. Não que Ennis se dê bem com esse tipo de abordagem, como tive a oportunidade de escrever na crítica anterior, mas se existia um momento para ele fazer uso desse expediente, era aqui. A convergências de pessoas e coincidências cansa um pouco e acaba não acrescentando muito ao desenvolvimento de Hughie dentro da história como um todo. Sim, ele acaba com um suposto canal direto com Mallory, o que pode significar uma mudança completa de status quo, mas isso poderia ter sido alcançado da mesma maneira em um outro arco qualquer, sem precisar das idas e vindas que O Rapaz Escocês acaba fazendo para chegar a esse ponto. Acaba que o arco ficou extenso demais e sem pagar dividendos correspondentes.

A arte ficou integralmente ao encargo de John McCrea e Keith Burns nos lápis e nas tintas, com as cores permanecendo com Tony Aviña, ou seja, diferentemente de O Inocentes, há absoluta uniformidade de edição a edição, com um bom trabalho da trinca criando diversos novos personagens e trabalhando com ambientação de interior, bem diferente do padrão mais urbano da série. Bobby e Horace são visualmente muito interessantes e muito bem trabalhados e a casa dos pais de Hughie convence como o lugar onde Hughie cresceu. É, potencialmente, uma das mais harmônicas artes de The Boys depois do primeiro arco, que ficou unicamente sob responsabilidade de Darick Robertson.

O Rapaz Escocês deveria ter sido uma abordagem psicológica mais complexa de Hughie. Infelizmente, Ennis preferiu colorir demais o passado do personagem, enxertando conveniências e bizarrices demais ao longo das edições que acabam fazendo o principal perder o foco quase que completamente. Uma pena.

The Boys – Vol. 8: O Rapaz Escocês (The Boys – Vol. 8: Highland Ladie, EUA – 2010/11)
Contendo: The Boys: Highland Ladie #1 a 6
Roteiro: Garth Ennis
Arte: John McCrea, Keith Burns
Arte-final: Keith Burns, John McCrea
Cores: Tony Aviña
Letreiramento: Simon Bowland
Capa: Darick Robertson
Editora original: Dynamite Comics (Dynamite Entertainment)
Data original de publicação: agosto de 2010 a janeiro de 2011
Editora no Brasil: Devir
Data de publicação no Brasil: março de 2019 (encadernado)
Páginas: 144

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais