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Crítica | The Crown – 4ª Temporada

por Ritter Fan
3509 views (a partir de agosto de 2020)

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Não sei como Peter Morgan consegue colocar The Crown nas telinhas com esse nível incrível de qualidade que cada temporada demonstra ter e, ainda por cima, com a coragem de trocar o elenco principal a cada dois anos, em uma estratégia sem precedentes. Há um cuidado tão grande com cada elemento formativo da série, do design de produção à trilha sonora, dos atores ao figurino, da iluminação ao roteiro, dos cenários à maquiagem que eu realmente me sinto um crítico papagaio repetindo o que escrevi de maneira propositalmente hiperbólica três vezes antes. A continuar nesse patamar pelas próximas duas derradeiras temporadas, é bastante possível que seu projeto de contar a vida da família real britânica hoje no trono década a década mereça a coroação e um lugar de destaque no panteão das melhores séries já feitas.

Evidente que os grandes atrativos da 4ª temporada são, de um lado, a chegada de Margaret Thatcher ao cargo de primeira-ministra da Inglaterra em 1979 e o relacionamento do Príncipe Charles com Diana Spencer. Josh O’Connor retorna para viver o Príncipe de Gales, enquanto as demais posições são preenchidas pela quase completamente novata Emma Corrin como Lady Di e a veterana Gillian Anderson como a Dama de Ferro, estabelecendo, talvez sem querer, uma espécie de tradição na série que só tem atores americanos vivendo os mais importantes primeiros-ministros britânicos, considerando que John Lithgow encarnou Winston Churchill nas duas primeiras temporadas. Se havia alguma dúvida sobre essa trinca – O’Connor, Corrin e Anderson – ser capaz de “renovar” os ares da série e carregá-la em seus ombros, diria que ela desaparece completamente na medida em que a história se desenvolve.

O trabalho da equipe de produção na caracterização de Gillian Anderson como Thatcher é impressionante. Cabelo, maquiagem e figurino transformaram quase que completamente a atriz que desaparece por completo em seu papel, mesmo que, de certa forma, sua atuação tenha um quê caricatural na forma como ela força a voz e no pescoço virado que vai além do que a Dama de Ferro fazia, mas que emprestam uma força gigantesca ao personagem em um conjunto dramático que reputo significativamente superior à performance de Meryl Streep em A Dama de Ferro, de 2011 (aliás, outra atriz americana no papel…).

Por seu turno, Josh O’Connor, que já havia demonstrado grande capacidade dramática na temporada anterior, tem o espaço que merecia para brilhar. Seu Charles curvado, submisso, profundamente triste e desapontado com a vida que é forçado a levar e sua relação de altos e baixos – mais baixo que altos, com certeza – com Diana é admirável. Sua capacidade de se fechar em si mesmo constrói visualmente seu personagem, algo que é maravilhosamente bem complementado pela sua inflexão de voz, alquebrada, hesitante, assim como seu olhar que parece o tempo todo mostrar seu desespero para sair daquela situação impossível ao mesmo tempo que revela sua incapacidade de vencer a submissão a que é sujeito é material para admiração e muitas premiações.

Emma Corrin é uma revelação. Não só, novamente, a caracterização física como Lady Di é perfeita, como sua recriação da amada princesa britânica é irretocável, seja na forma como transita entre uma devoção compreensivelmente quase infantil por Charles e uma profunda tristeza que se manifesta em seu olhar, linguagem corporal e, claro, em sua bulimia, seja na maneira como ela consegue encantar o espectador exatamente da mesma maneira como a verdadeira Diana encantava seus súditos e o mundo inteiro a cada viagem que fazia: reunindo beleza, com uma fragilidade humana que muitas vezes nos faz esquecer de sua realeza e, outras, nos faz imaginar que, ali dentro, há uma pessoa querendo gritar e sair dessa fantasia em que ela entrou achando que encontraria um mundo perfeito, somente para descobrir a tristeza que cerca todo mundo, sem exceção.

Sei que destaquei os três atores acima, mas é que a temporada é realmente deles. No entanto, isso de forma alguma diminui os enormes e espetaculares esforços de Olivia Colman e Tobias Menzies, respectivamente como a Rainha Elizabeth e o Duque de Edinburgo. O casal que eles formam é integralmente crível, com um companheirismo distante e uma cumplicidade fria que realmente não sei como eles conseguem. Ajuda rememorar a conexão mais “simples” que existia entre suas versões mais novas, vividas por Claire Foy (que, aliás, volta em uma simpática ponta-flashback) e Matt Smith, em que a juventude sufocada pelas obrigações pesadíssimas que eles têm é trocada por uma maturidade completa, com a compreensão do quanto eles tiveram que abrir mão para chegar ao ponto em que chegaram. Colman empresta uma resignação orgulhosa sobre o que é que torna compreensível – ainda que não aceitável – as atitudes que toma em diversos assuntos, inclusive a dolorosa e revoltante demissão do secretário de imprensa Michael Shea (Nicholas Farrell) como bode expiatório no conflito entre a Coroa e a Primeira-Ministra.

Os roteiros de Peter Morgan mantêm a estrutura de “problemas da semana” que marca a série desde o começo, mas que se tornou mais saliente na temporada anterior. Mas, aqui, como realmente o foco permanece em Charles, Diana e Thatcher, a maioria dos episódios gira em torno de situações criadas ou lidadas por ele, pelo que o senso de continuidade fluida, mesmo com as passagens temporais que fazem a temporada começar em 1979 e acabar em 1990, é maior. Se há um enorme cuidado em equilibrar as visões antitéticas da Rainha e da Dama de Ferro, com uma boa abordagem das questões socioeconômicas por que a Inglaterra passou em razão da medidas de austeridade da Primeira-Ministra em contraste com a vida pessoal dela em que Thatcher mostra-se como um foguete que mira em seus objetivos e não desvia o caminho de jeito algum, por outro lado o grande destaque dos textos fica mesmo na forma como o relacionamento de Charles e Diana é abordado.

Tomarei a liberdade de ser mais uma vez hiperbólico: poucas vezes na vida vi um relacionamento – seja fictício ou real – na televisão ou no cinema com as camadas de complexidade que Morgan criou para o casal-estrela da temporada. No lugar de fazer o que o imaginário popular “exige”, ou seja, canonizar Diana e colocar todo o peso da culpa em Charles, Morgan cria um fascinante estudo sobre a tragédia da fusão da paixão com amor, casamento e obrigação sob a égide da Coroa Britânica. Se Diana foi levada a autoflagelar-se com sua terrível bulimia, abordada da maneira mais elegante possível, vale destacar, por não ver seu amor por Charles ser correspondido por mais do que por alguns minutos ao longo de anos e por não sentir sequer uma fagulha de apoio da Família Real, o foco na tristeza de Charles, sua completa impossibilidade de escolher, e sua paixão – talvez obsessão – por Camilla Parker-Bowles (Emerald Fennell) é um triunfo de roteiro.

E isso não quer dizer que Diana é esquecida, pois ela não é. Muito ao contrário, já que a temporada a destaca quase tão detalhadamente quanto Charles que, claro, tem a “vantagem” de já ser um personagem conhecido da temporada anterior. Mas a evolução da jovem Spencer, de uma admiradora fantasiada de árvore que morre de curiosidade por conhecer Charles para noiva exultante, esposa já percebendo no que se meteu e, depois, esposa consolidada, mas profundamente destruída por dentro, mãe amorosa que dá aos filhos todo o amor que não recebe dos demais ao seu frio e solitário redor. É a tragédia anunciada que conhecemos e que a temporada cria todo o opressivo ambiente para fazer a série chegar até lá, inclusive alimentando a fogueira das teorias da conspiração com uma frase forte que Philip solta em conversa com Di já próximo do final.

Falando nisso, é interessante notar como a temporada parece ser a mais fortemente condenatória da Família Real. Morgan tira a luva de pelica e não só trata o relacionamento de Charles com Diana como fruto da frieza e pouco caso da realeza sobre os sentimentos de qualquer um de seus integrantes, como dá fortes estocadas em outros assuntos, como no sétimo episódio – The Hereditary Principle -, o único aliás que dá destaque a Helena Bonham Carter, sobre membros próximos da família real com problemas mentais que são escondidos do mundo e inclusive anotados como mortos nos livros oficiais. Os eventos ao redor da descoberta até podem ter sido ficcionalizados, mas o fato em si é verdadeiro e perturbador e revoltante.

The Crown novamente triunfa e triunfa de tal maneira que, impressionantemente, consegue até mesmo eclipsar o que veio antes. Chegamos a um ponto em que apenas dar nota máxima para a série não faz jus à sua qualidade imbatível. Teremos ainda um caminho longo para a 5ª temporada em razão da pandemia, mas mal posso esperar para mais esse capítulo na saga da Família Real, especialmente porque, novamente, o elenco principal será trocado.

The Crown – 4ª Temporada (EUA/Reino Unido – 15 de novembro de 2020)
Criação: Peter Morgan
Direção: Benjamin Caron, Paul Whittington, Julian Jarrold, Jessica Hobbs
Roteiro: Peter Morgan, Jonathan D. Wilson
Elenco: Olivia Colman, Tobias Menzies, Helena Bonham Carter, Gillian Anderson, Josh O’Connor, Emma Corrin, Marion Bailey, Erin Doherty, Stephen Boxer, Emerald Fennell, Charles Dance, Tom Brooke, Richard Roxburgh, Tom Burke, Nicholas Farrell, Claire Foy, Angus Imrie, Tom Byrne, Freddie Fox, Rebecca Humphries
Duração: 539 min. (10 episódios no total)

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