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Crítica | The Crown – 5ª Temporada

Falha sistêmica.

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

O simples fato – que não tem nada, NADA de simples – de Peter Morgan ter eleito trocar completamente o elenco de The Crown a cada duas temporadas e acertar no alvo em ambos os momentos em relação a todas as atrizes e atores já torna sua série absolutamente memorável. A ousadia é de se tirar o chapéu, assim como o cuidado na escalação, agora com Imelda Staunton como a Rainha Elizabeth II, Jonathan Pryce como o Príncipe Philip, Lesley Manville como a Princesa Margaret, Dominic West como o Príncipe Charles e, finalmente, Elizabeth Debicki como a Princesa Diana.

Muito sinceramente, essas trocas são motivos de apreensão para mim. Por exemplo, eu duvidava que conseguiria adaptar-me à saída de Claire Foy para a entrada de Olivia Colman e, mais ainda, à troca de Vanessa Kirby por Helena Bonham-Carter, atriz cujo trabalho, na maioria das vezes, não aprecio, mas a transição foi quase inacreditável de tão fluida. Na quarta temporada, o grande achado foi a iniciante Emma Corrin como a icônica Lady Di, papel que ela assumiu e tomou para si completamente, como se tivesse nascido para ele. Quando a produção anunciou que Corrin não voltaria para as temporadas finais, sendo substituída por Debicki, minha preocupação foi grande, algo que foi amplificado pelo anúncio de que o perfeito Charles de Josh O’Connor passaria a ser vivido por West, ator de muitos altos e baixos. Mais uma vez, porém, a troca mostrou-se mais do que acertada, como Debicki e West sendo assustadores em seus respectivos papeis, algo que pode ser encapsulado pela absolutamente arrebatadora conversa entre Charles e Diana na mesa da cozinha dela ao final de Casal 31, o penúltimo episódio da temporada.

Na verdade, assim como na temporada anterior, Charles e Diana são o foco permanente e errar na escalação poderia ter sido fatal para o crucial quinto ano, mas a dupla escolhida não só se mostra como exata para os papeis, como consegue torná-los ainda mais relevantes. Não que a rainha de Staunton não seja igualmente impressionante, especialmente porque a temporada lida com uma monarca que parece mais dura, mais enfática e mais fria ainda que nas versões anteriores, algo que a atriz acerta em cheio na forma como a encarna e que, de certa forma, é espelhado e ao mesmo tempo colocado em oposição pelo Philip de um Jonathan Pryce que transita muito bem entre a ternura e a rispidez. Mas, como a série, depois de construir e fixar a rainha ao longo das duas primeiras temporadas, partiu para trabalhar com maior capilaridade, abrindo muito espaço (e bem-vindo, vale afirmar) para os demais personagens reais, o coração da temporada é mesmo Charles e Diana, como, tenho para mim, não poderia deixar de ser justamente pelo incendiário período abordado, que vai de 1991 a 1997.

Dito isso, porém, essa foi a temporada em que a estrutura episódica do showrunner mais pesou. Sempre fui defensor dessa outra escolha de Morgan para contar sua épica história, já que, com cada temporada lidando com algo como 10 anos do reinado da Rainha Elizabeth, reputava e ainda reputo como impossível uma abordagem tradicional que não fosse cheia de “frases voadoras” artificialmente indicando passagem temporal, mais conhecido como o suprassumo da preguiça, ainda que às vezes inevitável. Nas quatro temporadas anteriores, essa característica é plenamente sensível, mas, pelo menos para mim, de forma alguma detratora da qualidade delas. Agora, porém, Morgan talvez tenha dependido demais de eventos importantes dos anos retratados para fazer o que tinha que fazer.

Começando pela polêmica renovação do iate real, passando pelos escândalos públicos de Charles e Diana e chegando à “origem” de Mohamed Al-Fayed (Salim Daw) e de seu filho Dodi Al-Fayed (Khalid Abdalla), às conexões genéticas de Phillip com a família Romanov e ao retorno de Peter Townsend, o amor da vida de Margaret, agora vivido por Timothy Dalton, a fórmula mágica de Peter Morgan revela algumas falhas, com o showrunner insistindo com elas até algo como o sexto episódio da temporada, já que os três seguintes formam o que podemos chamar de “Trilogia do Divórcio” e o último trazendo o encerramento lógico e circular que retorna ao HMY Britannia. Que fique bem claro que, vistos de maneira independente, cada episódio é magnífico, com a qualidade da direção de arte, da fotografia, do elenco e dos roteiros mantendo-se intactos, valendo especial destaque para Mou Mou que introduz os Fayeds usando como tecido narrativo a história do fiel mordomo Sydney Johnson (Jude Akuwudike). No entanto, em uma série não-antológica, cada capítulo é parte de um todo coeso e esse todo, aqui, tem menos coesão do que nos anteriores, o que não é nem de longe o fim do mundo, mas que incomoda como a introdução da família egípcia em um episódio seguido de silêncio profundo até o final, quando ela retorna (juntamente com o iate, aliás) ou personagens como o de Dalton que são literalmente de uso único, ainda que por razões compreensíveis.

Por outro lado, a impressão de “desconexão”, por assim dizer, começa a ser desfeita, como mencionei, a partir de Nem Uma Coisa, Nem Outra, o sétimo episódio, com a narrativa macro ganhando fortes amarras até seu fim. Em outras palavras, meu incômodo foi minimizado, ainda que ela permaneça presente até os créditos do derradeiro capítulo. Considerando o tour de force que é a série, diria que sua natureza episódica mais saliente aqui é mesmo apenas isso mesmo, um leve incômodo e não mais do que isso.

É particularmente inebriante a maneira como os roteiros navegam as armadilhas naturais que o esfacelamento do casamento de Charles e Diana trazem para uma série de ficção assim que, diferente do que muita gente que deveria compreender isso mais do que ninguém, não tem necessidade de se ater à realidade dos fatos de maneira canina e subserviente. Na temporada anterior, houve um surpreendente equilíbrio na abordagem das agruras do casal, com Diana sendo a face mais facilmente relacionável, claro, mas com Charles também ganhando seu espaço para mostrar muito claramente que ele não é o vilão da história como muitos gostam de afirmar. E esse cuidado permanece na quinta temporada, mesmo que, por vezes, haja ensaios que criem ambiguidade sobre o destino de Diana, como os cliques em seu telefone e o incidente com os freios de seu carro. O importante é que a série é madura o suficiente para fazer com que os dois personagens convirjam como vítimas não do que um fez ao outro, mas sim de um sistema complexo e inamovível que se recusa a evoluir ou a mostrar compaixão.

Talvez neste ano mais do que nos demais, em razão justamente do processo de separação e divórcio de Charles e Diana, a Rainha Elizabeth, mesmo com um viés mais duro em sua personalidade que é estabelecido logo no primeiro episódio com sua exigência de que o governo britânico, representado pelo Primeiro Ministro John Major (Jonny Lee Miller), banque a milionária reforma do Britannia, ela realize com mais clareza que ela passou sua vida toda de Rainha impondo aos outros membros de sua família as perdas que lhe foram impostas quando ela colocou a coroa em sua cabeça, em uma espécie de lógica perversa. As paredes que se fecham ao redor de cada um deles é palpável novamente e a angústia amplificada pela separação de Charles e Diana é avassaladora e não tem sensação alguma da natureza episódica da temporada que seja capaz de mudar esse cenário.

Mais uma vez, portanto, The Crown acerta em cheio na abordagem de uma trágica e épica história moderna com raízes em tradições hoje vistas por muitos como anacrônicas e sem sentido, mas que carregam uma simbologia que, gostando ou não, merece reconhecimento pelos sacrifícios que elas exigiram e exigem dos membros desse sistema. Com o terceiro e último elenco mais do que sensacional, roteiros muito bem pesquisados e trabalhados e um lado técnico imaculado, Peter Morgan entrega mais um ano memorável de sua obra máxima. Agora é aguardar pelos derradeiros 10 episódios em futuro próximo (espero).

The Crown – 5ª Temporada (EUA/Reino Unido – 09 de novembro de 2022)
Criação: Peter Morgan
Direção: Jessica Hobbs, Alex Gabassi, May el-Toukhy, Christian Schwochow, Erik Richter Strand
Roteiro: Peter Morgan
Elenco: Imelda Staunton, Jonathan Pryce, Lesley Manville, Dominic West, Elizabeth Debicki, Jonny Lee Miller, Olivia Williams, Claudia Harrison, Natascha McElhone, Marcia Warren, Salim Daw, Amir El-Masry, Khalid Abdalla, Alex Jennings, Adam Buchanan, Lia Williams, Timothy Dalton, Ben Miles, Prasanna Puwanarajah, Bertie Carvel, Flora Montgomery, Andrew Havill, James Murray, Sam Woolf, Senan West, Timothée Sambor, Humayun Saeed, Lydia Leonard, Jude Akuwudike, Joshua Kekana, Oliver Chris, Jamie Glover, Alastair Mackenzie, Anatoliy Kotenyov, Phil Cumbus, Richard Rycroft, Hanna Alström, Michael Jibson, Nicholas Gleaves, Richard Cordery, Claire Foy, Vanessa Kirby
Duração: 572 min. (10 episódios no total)

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