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Crítica | The Deuce – 2ª Temporada

por Ritter Fan
207 views (a partir de agosto de 2020)

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Apesar da inegável qualidade de The Deuce, a nova série da dupla David Simon e George Pelecanos passou despercebida tanto pelo público quanto pela época de premiações. Foi como se a série não existisse. Entre a 1ª temporada e a 2ª temporadas, para piorar tudo, James Franco, que vive dois papeis, um deles o protagonista masculino, foi acusado de comportamento sexualmente inadequado por cinco mulheres, o que chegou até mesmo a colocar em dúvida o futuro da série, até porque a misoginia e a exploração sexual estão no centro das temáticas abordadas por Simon e Pelecanos.

Mas cancelar uma série em plena produção é extremamente complicado e teria o potencial de prejudicar não só Franco, mas também todos os demais envolvidos, do elenco ao marceneiro que constrói os cenários, pelo que a HBO anunciou que a série continuaria e, depois que ela foi para o ar, afirmou que ela fora renovada para uma 3ª e última temporada. Não pretendo entrar aqui no mérito das acusações, mas creio que a decisão da produtora, apesar de questionável, foi o menor dos males. Talvez seja mais importante vermos e ouvirmos as potentes mensagens de Simon e Pelecanos do que não darmos essa oportunidade a eles, embora eu entenda perfeitamente que, para muitos, a presença de Franco tenha se tornado inaceitável.

A 2ª temporada começa com um salto temporal de cinco anos. Estamos em 1977 agora, com Vincent (Franco) dono da discoteca Club 366, do bar Hi-Hat, gerenciado por Abby (Margarita Levieva) e de diversos outros empreendimentos relacionados com prostituição e sexo comandados por seu cunhado e “laranja” Bobby (Chris Bauer), tudo com a benção e, claro, participação, da máfia italiana do grupo de Rudy Pipilo (Michael Rispoli). Os negócios vão a todo vapor e os dois grandes caminhos narrativos nesse lado da história se dão, de um lado, com as dúvidas e reticências de Vince sobre o mercado da exploração sexual, algo que escala e que exige cada vez mais sua interferência e, do outro, com o crescente ativismo de Abby em relação aos direitos das mulheres (principalmente das prostitutas), representado pela volta de Dorothy Spina (ex-Ashley, vivida por Jamie Neumann) e de sua associação com Dave (Sebastian Arcelus), ativista introduzido nesta temporada, cuja atuação de certa forma substitui a repórter da temporada anterior. A exploração do sexo por Vince e a assistência social de Abby às prostitutas, claro, entram em conflito e o casal começa, vagarosamente, a separar-se.

O pulo no tempo também ajuda a solidificar o status quo de Eileen Merrell, vulgo Candy (Maggie Gyllenhaal), como peça fundamental do negócio de filmes pornográficos de Harvey Wasserman (David Krumholtz), agora magro e vivendo sob uma estrita dieta. Candy deseja mais do que tudo produzir um filme pornô “de arte” e mergulha de cabeça no seu projeto de adaptação de Chapeuzinho Vermelho para o gênero. É essa produção que serve de fio condutor mais relevante para toda a temporada, já que envolve direta e indiretamente praticamente todo o elenco, colocando a personagem de Gyllenhaal merecidamente nos holofotes, com a atriz literalmente roubando todas as cenas em que aparece. Gravitando ao seu redor é que Simon e Pelecanos estuda a evolução das prostitutas Lori Madison (Emily Meade) e Darlene (Dominique Fishback), a primeira “propriedade” do cafetão C.C. (Gary Carr) e, a segunda, de Larry Brown (Gbenga Akinnagbe), que caminham cada vez mais na direção dos filmes, deixando a vida nas ruas de lado e, com isso, ganhando, pouco a pouco, sua independência.

Circundando esses dois “mundos narrativos” principais e que caminham de mãos dadas, mas com uma interpenetração limitada, existe o tema da gentrificação (sei que é anglicismo, mas não encontrei termo melhor) de Manhattan, mais especificamente da região que batiza a série e arredores. Esse é o elemento histórico que funciona como a cola temática de toda a série, desde seu começo, mas que ganha mais destaque aqui com a chegada de Gene Goldman (Luke Kirby), da administração do prefeito Ed Koch que, em seus três mandatos, efetivamente fez a cidade mudar para a metrópole segura que hoje conhecemos (é curioso como duas séries quase simultâneas, esta e The Get Down, infelizmente cancelada, abordam essa exata questão, cada uma de seu jeito), mostrando que grandes metrópoles podem sim mudar no espaço de poucos anos. Gene, que tem seus segredos, arregimenta a ajuda de Chris Alton (Lawrence Gilliard, Jr.), o policial apresentado na 1ª temporada como sendo o único incorruptível e que, agora, está mais adaptado às demandas da região de sua jurisdição, ainda que mantenha sua bússola moral quase intacta. O projeto de reforma da cidade, claro, é incompatível com a presença de prostitutas nas ruas e também nos prostíbulos e peep shows da máfia e, obviamente, eles são o principal alvo de Gene, mas com uma estratégia mais inteligente, holística, voltada aos interesses de empreendedores locais.

Sei que falei muito dos diversos elementos que compõem a temporada e nem mesmo cheguei a abordar a cena underground LGBTQ capitaneada por Paul Hendrickson (Chris Coy), ex-bartender de Vince que segue seu próprio caminho com uma boate sofisticada no Village ou a forma como Simon e Pelecanos lidam com os cafetões, cada vez mais “naturalmente” ultrapassados, mas que tentam, a todo custo, manter seus territórios e propriedades. Mas a grande verdade é que há muito para falar em The Deuce, já que os showrunners fazem uso de uma estrutura fragmentária para contar as histórias. Isso já estava presente na 1ª temporada, mas torna-se bem mais evidente aqui, o que pode afastar os espectadores que procurarem uma história una. A grande verdade é que ela não existe e não é nem mesmo a proposta da série. Ela segue um fio condutor temático e aborda uma pletora de personagens representativos desse submundo de bares, boates, prostíbulos e interesses econômicos legítimos ou não para lidar com o retrato de uma época de mudanças radicais em uma das mais importantes cidades do mundo, marcando o momento em que ela deixa de ser a vergonha de um país para voltar a ser seu orgulho. Mas essa é a visão macro, pois a visão micro que popula essa história lida com a ascensão e mudança da indústria pornográfica, o reconhecimento da existência de uma importante população não heterossexual que começa a sair para as ruas,  a corrupção policial, a relação cafetão-prostituta e como cada uma dessas peças se encaixa nesse cenário fascinante. E tudo isso, claro, com a abordagem mais explícita da que talvez seja o centro das preocupações de Simon e Pelecanos: o desenvolvimento da questão da igualdade de gêneros. Vemos a questão mais didaticamente trabalhada com Abby, Dorothy e Dave, depois na relação abusiva entre C.C. e Lori (principalmente), mas também no relacionamento de Abby com Vince, de Bobby com sua família e, claro,  na constante luta de Candy para desvencilhar-se primeiro de seu passado como prostituta – não por negá-lo, mas sim pelo preconceito que ele traz embutido – e também pelo que seu gênero significa no mercado de trabalho que tenta se dedicar.

Mais uma vez, a série é um deslumbre no design de produção e na direção de arte, aí incluídos figurinos, maquiagem, cenários e toda a reconstrução de época. O cuidado com os detalhes da ambientação emprestam um sufocante grau de imersão ao espectador que literalmente consegue sentir-se dentro daquele ambiente decadente, mas fascinante. As tomadas externas noturnas, pontilhadas de luzes e de figuras bizarras nessa Nova York perigosa é de se tirar o chapéu, conseguindo superar até mesmo a Baltimore de The Wire ou a mesma Nova York de Baz Luhrmann em The Get Down, chegando no mesmo nível, mas como seu oposto, ao magnífico trabalho em Mad Men.

No entanto, se, na 1ª temporada, eu apontei para o papel duplo de James Franco como um problema que, mesmo sendo visível, não me incomodou, não posso dizer o mesmo agora. O irmão gêmeo de Vince, Frankie, jogador viciado e um completo irresponsável, ganha mais proeminência aqui, mas paradoxalmente, é por isso mesmo que ele se torna algo que não posso ignorar. Por mais que ele tenha sua função narrativa, nada que ele faz não poderia ser feito por outros personagens na temporada e sua existência como irmão gêmeo de Vince simplesmente não se justifica para além do artifício técnico de ter os dois em cena (finalmente com cortes de cabelo bem diferentes!). É simpático ver Franco em dois papéis, mas é também completamente inútil para além da brincadeira temática do título, que também significa “duplo”. Além disso, Simon e Pelecanos, por vezes, “curam” a super-população de personagens com elipses temporais que os fazem desaparecer ou, melhor, que fazem as menções a eles desaparecerem. É o que acontece com Dorothy, C.C. e Danny Flanagan (Don Harvey). Além disso, há a introdução de novos personagens ao final como o pai de Candy e o pai de Vince, além da volta da esposa de Vince para uma ponta de segundos e a escalação inexplicável de Ralph Macchio como um policial corrupto, que tumultuam ainda mais a história que poderia muito bem viver sem eles. A natureza fragmentária de The Deuce funciona bem até certo ponto somente e a concentração de eventos e a abordagem de novos ou quase novos personagens na medida em que a temporada se aproxima do final quebra a eficiência narrativa apresentada.

The Deuce continua deslumbrante e relevante em sua 2ª temporada, ainda que o “duplo” de Vince não mostre a que veio. Maggie Gyllenhaal destaca-se de vez no elenco e o desenvolvimento de praticamente todos os personagens ganha paralelo com o desenvolvimento da própria cidade em que a ação se situa. Por mais que a série não tenha ganhado os holofotes que merecia e mesmo considerando a situação de James Franco, David Simon e George Pelecanos mostram mais uma vez que têm o absoluto comando sobre sua arte.

The Deuce – 2ª Temporada (EUA – 09 de setembro a 04 de novembro de 2018)
Criadores e showrunners: David Simon, George Pelecanos
Direção: Alex Hall, Steph Green, Uta Briesewitz, Zetna Fuentes, Susanna White, Tricia Brock, Tanya Hamilton, Minkie Spiro
Roteiro: George Pelecanos, David Simon, Richard Price, Chris Yakaitis, Anya Epstein, Richard Price, Carl Capotorto, Megan Abbott, Stephani DeLuca, Will Ralston
Elenco: James Franco, Maggie Gyllenhaal, Gbenga Akinnagbe, Chris Bauer, Gary Carr, Chris Coy, Dominique Fishback, Lawrence Gilliard Jr., Margarita Levieva, Emily Meade, Michael Rispoli, Luke Kirby, Jamie Neumann, David Krumholtz, Method Man, Daniel Sauli, Don Harvey, Mustafa Shakir, Thaddeus Street, Genevieve Hudson-Price, Anwan Glover, Ralph Macchio, Zoe Kazan, Mikey Moughan, Gino Vento, Kim Director, Alysia Reiner, Roberta Colindrez, Michael Stahl-David, Sebastian Arcelus
Duração: 540 min. aprox.

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21 comentários

Pedro 24 de fevereiro de 2020 - 18:10

Fala, Ritter! Firme?
Meio atrasado aqui, Terminei a 1 temporada tem mais de 1 ano, vou me confundir voltando à segunda?
Louco pra ver
Abraço

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planocritico 24 de fevereiro de 2020 - 18:41

Acho que não, meu caro! Tem um salto temporal entre temporadas que ajuda no “recomeço”, por assim dizer.

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 11 de dezembro de 2018 - 15:20

@cleison_miguel:disqus , eu adoro o ritmo da história das duas séries, mas é justamente do ritmo que vejo um MONTE de gente reclamar de Mad Men, na linha do “ah, é muito lento” ou “nada acontece” e assim por diante. Tenho vontade de pular no pescoço dessas pessoas, mas eu me contento em amaldiçoá-las silenciosamente para todo o sempre… HAHAHHAHAAHAHAHHAAH

Abs,
Ritter.

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Cleison Miguel 11 de dezembro de 2018 - 15:52

hahahahahahahahahahaa, ri alto aqui no meio de uma reunião….

É bem isso mesmo… pior, tenho que ouvir isso quando indico (além dessas duas) Better Call Saul, pessoa fala que é lento e parou de ver… quero matar, mas passarei a agir como você, amaldiçoar em silêncio, talvez até levar uma foto com fios de cabelo na macumba…. hahahahahahaahaha

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planocritico 11 de dezembro de 2018 - 15:55

Ainda bem que eu não ando com um taco de beisebol a tira-colo, pois se falassem mal de BCS nessa linha (ou em qualquer linha, para dizer a verdade), eu ia dar uma de Al Capone em Os Intocáveis…

Abs,
Ritter.

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Daniel Barros 18 de novembro de 2019 - 14:23

Onde eu coloco as 5 estrelas para esse post?
Mad Men é uma obra de arte.
Toda e qualquer indicação de séries/filmes de pessoas que reclamam sobre o ritmo desta série são absolutamente ignoradas.

Ah, e sobre a The Deuce: “FODA!”

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planocritico 18 de novembro de 2019 - 14:50

Mad Men é isso mesmo: uma obra de arte.

Já viu a última temporada de The Deuce?

Abs,
Ritter.

Responder
Daniel Barros 18 de novembro de 2019 - 15:00

Iniciei hoje.
Vim dar uma lida na crítica da segunda temporada (não leio, nem vejo trailer antes de assistir para não criar expectativa) e acabei tendo que logar para comentar sobres esse post…
No máximo semana que vem eu comento na crítica da terceira temporada.

abraço

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planocritico 18 de novembro de 2019 - 16:16

Também evito ler ou ver crítica ou prévia de qualquer coisa que quero assistir ou ler! Acho bem sadio.

Sobre semana que vem, vá com calma. Saboreie a temporada. Não tem pressa!

E divirta-se!

Abs,
Ritter.

planocritico 18 de novembro de 2018 - 19:02

Concordo com tudo! E também considero que parte do charme de Mad Men é a reconstrução de época. O fator imersão sempre foi incrível por lá e é incrível aqui em The Deuce!

Abs,
Ritter.

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Cleison Miguel 11 de dezembro de 2018 - 10:31

Acabei de ver, excelente crítica e ótimo comentário do André.

Acredito que não só a incrível caracterização de época de The Deuce a aproxima de Mad Men, mas também o ritmo da história.

Quanto a premiações, infelizmente o principal não é a qualidade da série :/

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planocritico 18 de novembro de 2018 - 18:39

HAHAHAHAHAHHAHAAHHAH

Exagerado, mas não errado…

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 14 de novembro de 2018 - 20:48

É sensacional!

Abs,
Ritter.

Responder
facebook-100000054193217 14 de novembro de 2018 - 10:19

Essa série parece bem legal.

Responder
andre99249 . 13 de novembro de 2018 - 19:48

O mesmo aconteceu com “The Wire”. Não dá pra levar muito a sério estas premiações. E como você disse por não ter aquela história única do herói como estamos acostumados a série acaba sendo “complicada” para quem quer algo mais fácil de digerir. A série toca em muitos assuntos ao mesmo tempo e muitas vezes não o faz de forma didática. Acredito que assim como em “The Wire”, Simon nos apresenta o que está acontecendo e nos deixa julgar por nós mesmos. Enfim, mais uma magnífica temporada e apesar de não conhecer nos detalhes todo os aspectos técnicos não há como não reparar na reconstituição de época com todo o capricho que a série dá seja no cenário ou com os figurinos. É o tipo de coisa que pode ser até secundário em alguns casos mas que aqui faz a diferença e te imerge ainda mais na trama. Não sei você mas muito do meu encantamento por “Mad Men” é justamente com todo o cuidado que eles dão para a recriação, um trabalho hercúleo com toda certeza e que multiplica o prazer ao ser assistido.

Responder
Jose Olyntho Ze 13 de novembro de 2018 - 13:08

The Deuce e The Terror: duas séries sensacionais simplesmente ignoradas pelo Emmy, que assim como o Oscar, é um prêmio de viés político e comercial, deixando o artístico por último.

Responder
planocritico 13 de novembro de 2018 - 14:05

Exatamente o que eu acho. Hype é o que conta hoje em dia. E só.

Abs,
Ritter.

Responder
SpartaCartman 14 de novembro de 2018 - 01:21

Emmy e Oscar é a versão americana do Troféu do Faustão.

Responder
Jose Olyntho Ze 23 de novembro de 2018 - 16:02

KKK boa

Responder
Cleison Miguel 12 de novembro de 2018 - 17:57

ótima crítica para uma excelente série… ainda no meio da segunda temporada, mas até aqui, tão boa quanto a primeira.

Responder
planocritico 12 de novembro de 2018 - 18:07

Obrigado, @cleison_miguel:disqus !

Quando acabar, volte aqui para dar seu veredito!

Abs,
Ritter.

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