Crítica | The Deuce – 3ª Temporada

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

The Deuce acabou. E o fim de uma das melhores séries da década, algo que não tenho a menor hesitação de afirmar mesmo considerando a concorrência feroz de um sem-número de outras, sem dúvida deixará saudades. The Deuce é o recorte de um submundo que vai muito além de seus personagens ou, talvez melhor dizendo, que transforma seus personagens em arquétipos de pessoas do dia-a-dia, de pessoas comuns como todos nós que escorrem pelas rachaduras da vida verdadeira e não as vidas fantasiosas, idealizadas ou românticas que são tão mais fáceis de encontrar por aí em obras de ficção. Entre donos de bar, boates, saunas gays e prostíbulos, boêmios, políticos, policiais, mafiosos, prostitutas, cafetões e pornógrafos na Nova York dos anos 70 e 80, a mais nova criação de David Simon e George Pelecanos soube como poucas trabalhar o homem urbano em meio à transformações, mas sem perder de vista uma abordagem extremamente relevante sobre a posição da mulher na sociedade e sobre o devastador efeito da AIDS, algo em que a terceira temporada é particularmente pródiga.

Mas The Deuce, justamente por suas qualidades raras, por não ter papas na língua em jogar os problemas para o espectador contemplar e racionalizar, e por não se preocupar com a estrutura clássica de séries de TV, cada vez mais dependentes de cliffhangers, surpresas, reviravoltas e artifícios narrativos desse naipe, não é a uma série trivial ou fácil de se assistir, algo que a condenou a ter apenas três temporadas, afetando especialmente sua derradeira, com o uso de alguns atalhos incômodos mas que mesmo assim não detraíram do todo. Além disso, também em razão da aceleração narrativa, talvez mais do que nos anos anteriores a cidade de Nova York, famosa por sua violência, sujeira e “imoralidade” nos anos 70 e 80, especialmente na região de Midtown, a mesma que hoje é famosa por letreiros iluminados e hordas de turistas, é um dos grandes personagens que são estudados aqui. Ela é o pano de fundo, sem dúvida, mas também um elemento tão próximo dos personagens que populam a série que chega a ganhar vida e concorrer por atenção. A transformação de Nova York sempre foi usado como o gatilho narrativo da série e, aqui, ela bate de frente com seu próprio submundo, como um rolo compressor mudando o estilo de vida das pessoas para sempre e varrendo os indesejáveis para longe na famosa – e necessária – “gentrificação” da região.

No começo da temporada, a história avança para a virada de 1984 para 1985 e o submundo que vimos nas temporadas anteriores mudou. Cafetões no sentido tradicional não mais existem e os prostíbulos são a regra. A indústria pornográfica largou o filme e adotou efusivamente o vídeo, com grande parte dela mudando-se para o San Fernando Valley, na California. A epidemia da AIDS está descontrolada e a todo vapor, ceifando vidas e colocando o sexo desregrado em xeque. E, claro, a cidade começa a receber altos investimentos que viriam a mudar a paisagem de sua região central. Mudança é o foco e os efeitos de todos esses fatos históricos são imediatamente sentidos em relação aos personagens-chave da série. Vince (James Franco) prosperou como dono de bar e boates, mas não em seu relacionamento com Abby (Margarita Levieva), com os dois cada vez mais distantes um do outro. Frankie (também Franco) enfronhou-se no tráfico de drogas, afastando Rudy Pipilo (Michael Rispoli) e atraindo Tommy Longo (Daniel Sauli), os mafiosos com quem os irmãos Martino trabalham, mas que estão em processo de estranhamento. Eileen Merrell (Maggie Gyllenhaal) começa um relacionamento seri com um Hank Jaffe (Corey Stoll), homem de negócios rico de quem ela não aceita um tostão sequer, mesmo idealisticamente querendo continuar a trabalhar com filmes pornográficos “de arte”, algo que enlouquece seu parceiro de profissão Harvey Wasserman (David Krumholtz). Paul Hendrickson (Chris Coy), representado mais fortemente a comunidade LGBTQ, tem o fantasma da AIDS afetando-o duplamente: nós negócios e, mais terrivelmente, na lenta morte de seu marido Todd Lang (Aaron Dean Eisenberg). Lori Madison (Emily Meade), que encontrou fama como estrela pornô em Los Angeles, jamais se encontrou de verdade e sofre uma vida de vícios e de exploração que a faz pular de costa-a-costa dos EUA. E, finalmente, incorporando as manobras políticas que levam a cidade às mudanças, temos os esforços de Gene Goldman (Luke Kirby) e do policial Chris Alston (Lawrence Gilliard Jr.) que são capazes de tudo para entregar os quarteirões aos donos do dinheiro.

Fiz questão de pelo menos situar o leitor em relação aos polos principais da temporada não só para fazer a devida reverência ao magnífico elenco que dá vida a seus personagens, como também para deixar evidente a riqueza da abordagem de Simon e Pelecanos. Apesar de poucos personagens terem efetivos arcos completos, com desenvolvimento protraído no tempo, isso tem uma razão e ela é um espelho do que mencionei logo na abertura da presente crítica: os criadores da série passaram uma faca no meio da cidade de Nova York nos anos 80 para entregar um recorte pulsante de um momento de virada na cidade, momento esse que necessariamente passa por uma faxina que revira e transfere (eliminando até certo ponto, somente) esse submundo específico para outras áreas, até para outros estados, alterando milhares de vidas no processo.

A reflexão sobre o preço que se paga para se fazer algo assim é um dos principais pontos de reflexão. Reduzir a criminalidade, a prostituição e a sujeira é o sonho de qualquer cidade grande, mas, como sabemos, é algo difícil de ser alcançado sem medidas drásticas. Nova York é considerada até hoje um exemplo de sucesso, mas esse sucesso significou varrer para debaixo do tapete todo um estilo de vida. Menos crime significa – talvez necessariamente – a eliminação dos criminosos de várias estirpes e é possível arguir, com o subtexto da temporada muito claramente deixando isso para nossa conclusão, que a região apenas “trocou” de tipo de criminoso. Mesmo que eu não concorde com o raciocínio, ele é sem dúvida um aspecto que faz pensar.

E, para isso funcionar de verdade, para que a cidade-personagem ganhe a vida que precisa ganhar, temos, novamente, uma reconstrução de época inigualável aqui. Já falei sobre a direção de arte de The Deuce nas críticas anteriores e o que tenho a dizer agora é chover no molhado: as tomadas externas e internas, os figurinos, a maquiagem, os props da temporada nos fazem mergulhar nessa Nova York oitentista com um realismo invejável, quase nos fazendo ficar apaixonados por todo aquele lixo, toda aquela aparência adoentada que os quarteirões têm. Há um charme histórico ali que, pelo menos para mim, que chegou a conhecer a cidade mais ou menos nessa época (e que contraste se compararmos com a NY atual!), exala algo que pode até ser nostalgia, não sei muito bem.

Mas os outros dois aspectos da temporada – a AIDS e o estudo sobre a posição das mulheres na sociedade – são as grandes estrelas aqui. O mais fascinante dos roteiros é manter essas questões sempre discretas, parte do dia-a-dia mesmo, com raros momentos de pregação e, quando eles existem, eles estão ali para relativizar a questão. Um desses exemplos mais pujantes é quando Abby leva Eileen para conversar com as mulheres do grupo ativista anti-pornografia. O que esperamos é a vitória de Eileen, o que acontece é que os olhos de Eileen se abrem para o potencial de violência contra a mulher que sua profissão abre. Um exemplo de sucesso não quer dizer sucesso de todas as outras circunstâncias parecidas. E é importante notar que, mesmo que Eileen tenha mudado a partir desse ponto, Simon e Pelecanos nunca dão a entender que o grupo ativista está certo, pois não está. Eliminar a pornografia completamente é exatamente o que Abby diz que é: censura. E isso fica evidente pela posição tomada logo em seguida por Loretta (Sepideh Moafi) que vê a luz e desiste do ativismo.

O fantasma muito presente da AIDS flutua constantemente na temporada, com não só Todd sucumbindo vagarosamente, como também o enorme, mas simpático Big Mike (Mustafa Shakir). Aqui, o maior problema da temporada, a que aludi bem no começo da crítica, fica evidente. A montagem, por ter que condensar um grande espaço de tempo em poucos episódios, por vezes perde a coesão e entrega impressões de velocidades diferentes para linhas narrativas que deveriam ser paralelas. O agravamento da doença de Todd, por exemplo, anda a passos largos enquanto que o restante da história continua com a velocidade “normal”, o que cria elipses estranhas que por momentos retira o espectador do mergulho na narrativa, fazendo-o duvidar da linha temporal. Esse é, substancialmente, o problema que me impede de dar nota máxima à temporada, ainda que minha vontade, lá no fundo, seja ignorar a questão exatamente porque a série foi forçada a um fim mais rápido do que deveria ter tido.

No entanto, os roteiristas são cuidados e entregam fins para todos. Claro que, como toda série no estilo “vida como ela é”, os fins são continuações das vidas desses personagens, mesmo que vários morram ao longo da temporada (confesso que fiquei especialmente triste com o assassinato de Rudy, o mafioso “gente boa”). Há fechamentos dignos para cada linha narrativa, para cada grande arco e o salto temporal para 2019 com Vince velho (e maquiagem não muito boa, mas que eu perdoo) serve para dar aquele toque melancólico que tinha mesmo que ser a nota que ressonaria quando os créditos começassem a rolar.

Apesar da gigantesca oferta de séries, obras verdadeiramente ricas como The Deuce ainda são relativamente raras. Nos dias agitados da modernidade, parar para contemplar a vida por meio de arquétipos de um passado não muito distante e enxergar-se em muitos deles mesmo que as realidades sejam muito diferentes é quase que uma arte. E David Simon e George Pelecanos entregaram uma obra-prima novamente.

The Deuce – 3ª Temporada (EUA – 09 de setembro a 28 de outubro de 2019)
Criadores e showrunners: David Simon, George Pelecanos
Direção: Alex Hall, Susanna White, Tanya Hamilton, James Franco, Roxann Dawson
Roteiro: George Pelecanos, David Simon, Carl Capotorto, Iturri Sosa, Will Ralston, Chris Yakaitis, Stephani DeLuca
Elenco: James Franco, Maggie Gyllenhaal, Margarita Levieva, Chris Bauer, Chris Coy, Lawrence Gilliard Jr., Emily Meade, Michael Rispoli, Luke Kirby, David Krumholtz, Olivia Luccardi, Daniel Sauli, Dominique Fishback, Mustafa Shakir, Thaddeus Street, Ralph Macchio, Zoe Kazan, Aaron Dean Eisenberg, Roberta Colindrez, Alysia Reiner, Ryan Farrell, Michael Gandolfini, Domenick Lombardozzi, Kelcy Griffin, Corey Stoll, Calvin Leon Smith, David Morse, Paloma Guzman
Duração: 480 min. aprox.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.