Crítica | The Expanse – 4ª Temporada

  • spoilers das temporadas anteriores, mas não dos livros (mantenham assim nos comentários, por favor). Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Cancelada pelo SyFy e resgatada do cancelamento pela Amazon Prime Video graças ao fanboyismo mais do que benigno de ninguém menos do que Jeff Bezos, The Expanse, potencialmente uma das melhores séries sci-fi de todos os tempos (ainda não acabou, portanto não posso falar em absolutos), ganhou uma esperadíssima 4ª temporada pouco mais de um ano após o encerramento da 3ª, em junho de 2018. Considerando a forma como a temporada anterior acabou, com a literal expansão do horizonte narrativo possivelmente para todo o universo com a abertura de um anel alienígena que permitiria ao Homem colonizar planetas em outros sistemas solares, o risco que havia era todo o hard sci-fi que sempre marcou a série se perdesse em jornadas ou guerras nas estrelas. No entanto, felizmente, não é isso que acontece, pelo menos não ainda nessa temporada.

Novamente dividindo a narrativa em núcleos separados e bem definidos, mas retornando ao  número reduzido de episódios da 1ª temporada, os showrunners Mark Fergus e Hawk Ostby souberam manter sua “assinatura”, firmando a temporada em conceitos mais terrenos, sem, claro, perder a oportunidade de explorar mais a narrativa macro lidando com os misteriosos seres responsáveis pela protomolécula e pelo anel. Semelhante ao que fiz na análise da temporada anterior, que foi bem dividida em dois momentos e comentada de acordo, resolvi seccionar minha crítica nas quatro linhas narrativas da 4ª temporada, mas sem dar uma nota para cada uma delas e sim, apenas, uma geral, como vocês podem ver mais acima.

Vamos lá.

Avasarala e a paz na Terra

Com a migração de plataformas, The Expanse passou a poder incluir mais palavrões em seus diálogos e, apesar de isso não ser necessariamente uma vantagem, pois, em mãos menos hábeis, torna-se apenas algo para chamar atenção para si mesmo, Chrisjen Avasarala (Shohreh Aghdashloo), Secretária Geral das Nações Unidas, beneficiou-se muito disso. Em meio a uma disputa eleitoral acirrada contra Nancy Gao (Lily Gao), jovem política que, ao contrário de Avasarala, deseja levar a humanidade para além do anel, Avasarala ganha excelente destaque, com explosões expletivas divertidíssimas que colorem ainda mais seus belíssimos e arrojados figurinos étnicos. Temendo a protomolécula e outra tragédia como em Eros, a secretária geral é mais cautelosa e, considerando a paz entre a Terra, Marte e a O.P.A., estabelece um bloqueio no anel, não permitindo o êxodo para outras galáxias, artifício narrativo lógico e inteligentemente inserido que mantém a temporada “sob controle”, evitando que a história se disperse demais.

Ainda que Gao em si não possa ser considerada uma personagem propriamente dita, já que ela existe mais como conceito do que como alguém que ganha algum tipo de desenvolvimento para além da disputa eleitoral, ela funciona bem como a antítese de Avasarala e, claro, um gatilho para o cada vez mais excelente trabalho de Aghdashloo na série. Além disso, apesar de pouco interagir fisicamente com outros núcleos – nós a vemos brevemente com Jim Holden (Steven Strait) no começo e, depois, com Bobbie Draper (Frankie Adams) em Marte – sua história está bem costurada com todo o restante, primeiro como a maior defensora da manutenção da humanidade em nosso sistema solar pelo menos até que as potenciais ameaças além-anel sejam identificadas e neutralizadas e, depois, como mandante da expedição de Holden e equipe para Ilus – ou Nova Terra – como seus olhos, ouvidos e, claro, mãos, o que empresta automaticamente outro status e outro grau de amadurecimento ao protagonista da série.

Além de sua presença magnética em tela, há também um bom tempo empregado para lidar com seu relacionamento com seu marido Arjun (Michael Benyaer, substituindo muito bem Brian George), o que ajuda muito no desenvolvimento da personagem, já que ela ganha uma dimensão “doméstica” mais acentuada e que contrasta fortemente com sua personalidade irascível. Será interessante ver como sua personagem, desprovida de um cargo de autoridade, será explorada em futuras temporadas, caso, claro, a Terra ainda exista depois do asteroide que para lá caminha.

Bobbie e a corrupção em Marte

Em termos narrativos, Bobbie tem o núcleo mais separado e auto-contido de todos, tangenciando apenas duas vezes com o de Avasarala, uma vez quando a secretária-geral visita Marte e a usa como peão político e, depois, nos segundos finais, quando ela liga para a agora derrotada política para aceitar a oferta de emprego que havia sido feita. É nesse núcleo, diria, que a temporada mostra mais fortemente sua característica de ser “a primeira metade” de um temporada completa, já que, apesar de ser possível enxergar já cedo como a história da ex-marine conversa com as demais, isso só é colocado mais às claras próximo do final e mesmo assim mantendo a personagem fisicamente isolada em Marte.

No entanto, o conceito de uma Marte decadente a partir da ativação do anel alienígena é fascinante. Afinal, temos que considerar que esse é um planeta inteiramente terraformado por imigrantes vindos da Terra a tal ponto de ter havido uma completa separação de “espécies”, como se os marcianos fossem realmente alienígenas. Mas o trabalho de transformação de Marte em um planeta com atmosfera respirável e solo arável, algo que demora séculos, perde muito do sentido com a descoberta de planetas inteiros com “ar de graça” e que são facilmente atingíveis com a tecnologia existente. O freio tecnológico e espiritual que isso representa aos marcianos é interessantíssimos e, confesso, me pegou de surpresa em mais uma excelente inserção narrativa dos showrunners que não se furtam de tornar complexa toda a delicada expansão humana pela galáxia.

Mais interessante ainda é Bobbie inicialmente não perceber – ou não acreditar nisso – precisando que seu relacionamento profissional com o simpático policial corrupto Esai Martin (Paul Schulze) seja construído para que ela note o que está acontecendo ao seu redor. Particularmente, eu teria preferido que essa noção tivesse sido mais organicamente estabelecida na temporada, sem a necessidade de repetidos textos expositivos por parte de Esai para Bobbie. Faltou, diria, uma representação visual crível para a decadência marciana, já que ela fica basicamente restrita a diálogos e ao desemprego do namorado de Bobbie. Por outro lado, a ação funciona muito bem aqui, com as missões do grupo montado por Esai ganhando em complexidade e tensão e abrindo caminho, no final das contas, para o diagnóstico de uma endemia grave entre os militares marcianos e a relação deles com facções mais radicais dos Belters, aqui representada pelo pirata especial Marco Inaros (Keon Alexander).

Drummer e Ashford e a sociedade do anel

Diria que a linha narrativa mais complexa e cheia de nuances está no bloqueio espacial do anel representado com mais proeminência por Camina Drummer (Cara Gee) e Klaes Ashford (David Strathairn) no comando da ex-nave migratória Mórmon e agora estação espacial Medina, situada próxima ao portal estelar para evitar a passagem de qualquer nave desautorizada, tarefa complicada diante do surto migratório que se abate não só perante aos esperançosos Belters, como também a humanos da Terra, em uma espécie de Destino Manifesto espacial que lembra muito o que é visto em estágio mais avançado em Firefly. Considerando que tanto Ashford quanto Drummer são Belters, a aliança com a Terra e com Marte ficam muito saliente aqui e é revelada como algo frágil, uma abordagem mais do que esperada diante dos séculos de animosidade tripartite que marcou a história da colonização de nossos sistema solar na série.

O que há de didatismo no núcleo de Bobbie, inexiste aqui, com o roteiro trabalhando muito bem a coalizão de facções de Belters e a relação deles com o pirata Marco Inaros que, por sua vez, é pai de Filip, filho que teve com Naomi Nagata (Dominique Tipper) e que foi só muito brevemente mencionado antes, ganhando bom desenvolvimento aqui e prometendo muito para temporadas vindouras. Além disso, assim como no caso de Avasarala, ver o veterano David Strathairn atuando é um enorme prazer, especialmente em oposição amiga à personagem de Cara Gee, atriz extremamente carismática que sabe muito bem trabalhar o material que tem em mãos.

É esse núcleo que separa tanto prática quanto metaforicamente os dois lados do anel, estabelecendo e expandindo os problemas potenciais de uma descoberta da magnitude de um portal estelar mesmo em um futuro em que viajar pelo espaço é algo corriqueiro. A inclusão do radicalismo de Inaros nessa equação, mesmo com o personagem só ganhando uma caracterização arquetípica de Keon Alexander, insere The Expanse em um contexto atual de terrorismo, inconformismo e de desesperança, além de colocar os Belters à frente da narrativa.

Rocinante e a Terra Prometida

A tripulação da Rocinante, agora formalmente sancionada pelas Nações Unidas, ganha um novo status, jogando completamente fora sua casca de fora-da- lei ou de apenas um grupo certo no lugar errado. Holden e companhia têm uma missão: estudar eventual ameça que seja representada pelo planeta Ilus, conforme batizado pelos Belters que lá ilegalmente chegaram primeiro ou Nova Terra, conforme os terráqueos da expedição da RCE nomeiam o local riquíssimo em lítio. Esse núcleo que começa reunido, mas é quase que imediatamente separado em dois, com Holden e Amos Burton (Wes Chatham) permanecendo na superfície do planeta e Naomi e Alex Kamal (Cas Anvar) tendo que permanecer em órbita em razão da incapacidade da primeira em se adaptar à gravidade do local, considerando que ela nunca pisara na superfície de um planeta em toda sua vida.

Apesar de a RCE ser uma expedição ostensivamente científica, sua equipe de “segurança” é que assume o comando de tudo depois que o pouso da nave é sabotado pelos locais, matando 23 pessoas e estabelecendo toda a tensão no estilo “fronteira” da expansão americana para o oeste. A grande figura vilanesca é  Adolphus Murtry (Burn Gorman), mercenário que, assim como o pirata Inaros, é consideravelmente unidimensional, ainda que ele cumpra bem sua função narrativa especialmente no que se refere à Amos, como dois lados de uma mesma moeda. Mas o roteiro não torna as coisas “preto no branco” e relativiza as ações dos dois lados, não estabelecendo ninguém automaticamente como inocente.

Essa relação tensionada que divide o acampamento em dois já seria o suficiente para contar uma excelente história no contexto de ficção científica realista que é marca da série, mas não havia como escapar da abordagem dos aspectos alienígenas da história, já que eles, agora mais do que nunca, são parte da mitologia estabelecida. Marcando visualmente toda ação “além do anel” com uma razão de aspecto diferente, mais ampla também para facilitar belíssimos visuais das misteriosas estruturas megalíticas que existem no planeta, essa linha narrativa em Ilus é marcada por Holden servindo de estopim para basicamente todas as tragédias não-humanas que acontecem por ali. Sua chegada, carregando a tira-colo o “fantasma” de Joe Miller (Thomas Jane voltando para breves pontas), ativa as “máquinas” alienígenas espalhadas na superfície planetária, levando a uma sucessão de eventos cataclísmicos que ele, sua equipe, os colonos e o pessoal da RCE precisam lidar.

Confesso que não sei se gosto da premissa de Holden ser o catalisador de tudo o que acontece de monta, assim como não sei se gosto de Miller ser usado quase que exclusivamente como deus ex machina, aparecendo quando providencialmente necessário para fazer a trama andar. Também tenho problemas com o estilo “gincana de problemas” que eles precisam enfrentar no planeta, o que inclui terremotos, ondas de choque, inundações, vírus que cegam, falta de comida e sei-lá-mais-o-que, já que tudo acaba sendo razoavelmente banalizado pelas soluções mágicas de último minuto que são utilizadas sem muito pudor. Por outro lado, as relações humanas são muito boas, com Holden firmando-se como líder e quase que como uma figura messiânica e Amos combinando ação com uma visão trágica e melancólica da vida que conseguem erguê-lo ao patamar de personagem complexo e fascinante que não esperava que aconteceria um dia. As novas personagens – além de Murtry -, a cientista quase inocente Elvi Okoye (Lyndie Greenwood), a mercenária e interesse amoroso de Amos Chandra Wei (Jess Salgueiro) e a Belter Lucia Mazur (Rosa Gilmore) emprestam humanidade à narrativa, ganhando ótimos e destacados momentos ao longo de todo esse arco alienígena.

Além disso, em órbita, as ações de Naomi e Alex para salvar a nave Barbapiccola, dos Belters, depois que os eventos desencadeados por Holden impedem as turbinas de fusão de funcionarem, são feitos técnicos espetaculares, com especial destaque para o detalhado reboque de uma nave pela outra e o ataque da Edward Israel a mando de Murtry. É aqui, mais do que em qualquer outra linha narrativa da temporada, que sentimos mais fortemente aquela pegada de hard sci-fi que faz tanto bem à série, com manobras em órbita trabalhadas de maneira crível e que, de quebra, elevam e muito a tensão. É como um bem-vindo contraste à ação mais “viajante” que envolve Holden e o destravamento dos segredos das mega-estruturas no planeta e que, espero, sejam mais exploradas na temporada seguinte, já que, assim como a história de Bobbie, tudo relacionado ao lado alienígena pareceu “incompleto”, como a primeira metade de uma temporada mais longa.

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Mesmo com os problemas inerentes de uma série que parece apontar para um futuro muito mais ambicioso que suas três primeiras temporadas prometeram, a 4ª temporada de The Expanse, agora em uma nova casa, mantém sua tradicional qualidade, ao mesmo tempo que aprofunda relações e personagens, além de trabalhar situações muito interessantes de caráter geopolítico. O problema mesmo é aguardar pelo menos mais um ano para ver como essa história continua, especialmente considerando todo o “jeitão” de meia-temporada que esse ano teve.

The Expanse – 4ª Temporada (Idem, EUA – 12 de dezembro de 2019)
Showrunners:
 Mark Fergus, Hawk Ostby (baseado em romances de James S. A. Corey, nom de plume de Daniel Abraham e Ty Franck)
Direção: Breck Eisner, David Petrarca, Jeff Woolnough, Sarah Harding, Breck Eisner
Roteiro: Mark Fergus, Hawk Ostby, Laura Marks, Dan Nowak, Matthew Rasmussen, Daniel Abraham, Ty Franck, Hallie Lambert, Naren Shankar
Elenco: Steven Strait, Cas Anvar, Dominique Tipper, Wes Chatham, Shohreh Aghdashloo, Thomas Jane, Frankie Adams, Cara Gee, David Strathairn, Burn Gorman, Lyndie Greenwood, Jess Salgueiro, Rosa Gilmore, Paul Schulze, Keon Alexander, Michael Benyaer, Lily Gao
Duração: 467 min. (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.