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Crítica | The Expanse – 5X01 a 03: Exodus, Churn e Mother

por Ritter Fan
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  • Há spoilers da série de TV, mas não dos livros (mantenham assim nos comentários, por favor). Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Jeff Bezos resgatou The Expanse do cancelamento e a série voltou para uma 4ª temporada algo como um ano e meio depois da . A renovação para a 5ª temporada não demorou e, na proximidade do lançamento, a 6ª e última temporada foi anunciada, o que, espero, dê ampla oportunidade aos showrunners de encerrar a série, mesmo que, para isso, eles não cubram todos os livros que deram base a ela. Melhor ainda, assim como aconteceu com a 2ª temporada de The Boys, o Amazon Prime Video, muito acertadamente, mudou a forma de lançamento para semanal, com os três primeiros episódios lançados simultaneamente e cujas críticas separadas – cada uma feita antes do episódio seguinte ser conferido para isolá-las como se tivessem sido lançadas ao longo de três semanas – seguem abaixo.

Exodus (Êxodo)
5X01

Exodus é o típico episódio formulaico de começo de temporada. Os personagens principais são reapresentados, a trama macro é abordada e todas as peças do xadrez são colocadas no tabuleiro para mais um novo ano de aventuras da tripulação da Rocinante nesse futuro razoavelmente próximo, muito realista, mas que, agora, conta com uma rede de portais interestelares criados por uma civilização extraterrestre desconhecida que altera significativamente o status quo de nossos sistema solar e permite uma onda de colonização das estrelas.

Em linhas gerais, porém, o começo do quinto ano da série carrega um tema comum em quase todas as linhas narrativas e que parece será pelo menos um dos temais principais da temporada: família. O conserto e o retrofit da Rocinante no estaleiro da Estação Tycho serve de gatilho narrativo para que o elenco seja separado, cada um com buscas particulares. Naomi Nagata obtém informação firme sobre o paradeiro de seu filho Filip Inaros (Jasai Chase Owens) e parte para achá-lo sozinha, deixando James Holden para trás que, por sua vez, descobre que Fred ainda tem amostras da protomolécula; Amos Burton empreende uma viagem de volta à Terra, mais especificamente Baltimore, para enfrentar seu passado, parando em Luna e sendo indagado por Chrisjen Avasarala, agora em uma posição de bem menos poder, o que resulta em um excelente diálogo entre eles; Alex Kamal retorna à Marte para tentar reatar relações com sua esposa e filho que abandonou há anos, encontrando-se, no processo, com Bobbie Draper que trabalha secretamente para Avasarala em uma missão para desbaratar uma rede de contrabando de armas.

O roteiro de Naren Shankar estabelece todas essas situações de maneira bastante orgânica, sem recorrer a textos expositivos exagerados e abrindo espaço para que todo o elenco tenha tempo significativo de tela, algo que a direção de Breck Eisner aproveita muito bem ao alcançar um equilíbrio agradável de tramas que consegue relembrar o espectador dos eventos imediatamente anteriores, além de montar o já mencionado tabuleiro. Inegavelmente, porém, o episódio carrega o ônus de ser justamente o primeiro da temporada, com a escolha narrativa de ele ser única e exclusivamente funcional, sem grandes avanços narrativos ou mesmo sequências de ação.

Falando nela, basicamente a única ação propriamente dita que há – além do ótimo momento de Amos sendo Amos – é a invasão de um satélite de pesquisas na órbita de Vênus por uma facção Belter, com o objetivo de eliminar provas sobre os meteoros que Marco Inaros (Keon Alexander) vem arremessando em direção à Terra, mas ainda sem sucesso. A sequência é razoavelmente simples, mas muito bem executada, carregando a marca registrada de hard sci-fi que a série continua mostrando orgulhosamente para quem quiser ver. A própria estratégia de Inaros é sensacional, lembrando de certa forma a dos insetos em Tropas Estelares, só que com muito mais verossimilhança. Na verdade, chega a ser assustador quando, na tomada de encerramento, notamos, no mapa holográfico, a extensão do plano do terrorista.

Exodus é um eficiente, ainda que razoavelmente burocrático começo de temporada que se preocupa muito mais em nos lembrar de eventos passados do que efetivamente impulsionar a história. Com a tripulação da Rocinante separada, fica a sensação de que muito desse quinto ano será dedicado a trazê-los de volta à nave, o que, claro, pode ser um problema.

Churn (Dois Lados)
5X02

Churn trabalha muito bem o que há de mais especial em The Expanse, ou seja,  a capacidade que a série tem de construir excelentes dramas humanos em meio a um ambiente sci-fi que é tratado simplesmente como pano de fundo, como lugar-comum, nada especial, apenas parte de cotidiano. Os segundos finais do episódio, com Amos (ou Timothy) no porto antigo e todo arrebentado de Baltimore deixando um recado para “Chrissie” (ele chamar Avasarala pelo apelido é sensacional) enquanto vemos, ao fundo, a decolagem de um foguete, é o exemplo máximo disso e que ajuda a opor as duas eternas e distantes pontas do espectro socioeconômico da Terra que, nesse futuro, muito diferente de uma utopia de Star Trek, é ainda mais grave e inconciliáveis.

Ver todo o processo de Amos voltando para casa atrás de sua mãe Lydia e encontrando-a já falecida, mas com seu marido ou companheiro Charles (Frankie Faison) preparado para se mudar do apartamento, já que fora expulso pelo mafioso que controla a região. O roteiro de Daniel Abraham e Ty Franck,  que escrevem a série de livros sob o pseudônimo único James S.A. Corey, é de uma elegância impressionante. Tudo permanece com os olhares, com ações e reações, com discretos flashbacks brilhantemente fundidos à narrativa presente e, assim, aprendemos sobre o sofrido passado do pequeno Tim e entendemos um pouco mais o porquê de ele ser assim como é hoje, um homem capaz de extrema violência para defender quem ou o que ele considera correto, o que nos faz voltar à 1ª temporada da série e sua conexão quase canina à Naomi.

Wes Chatham mais uma vez destrói minhas preconcepções sobre ele, entregando uma performance contida, mas que indica tudo o que precisamos saber sobre ele e que é só enriquecida pelos poucos minutos em que ele divide a tela com Faison. Além disso, ver a Terra nesse futuro, algo que até agora foi comparativamente pouco mostrado, é sempre um choque exatamente pelo abismo que mencionei mais acima. Afinal, quando vemos ficção científica, mesmo outras na linha de hard sci-fi como Battlestar Galactica, é normal esperarmos tecnologia de ponta em todos os lugares, mas The Expanse mostra que não é bem assim.

Uma boa conexão é também estabelecida muito longe da Terra, mais precisamente em Marte, com Alex e Bobbie aparentemente passando a formar uma dupla dedicada à investigação do tráfico de armas marciano para os Belters, projeto “por debaixo dos panos” de Avasarala que, por seu turno, já começa a reunir as peças necessárias para entender o plano de Marco Inaros. Aliás, o diálogo dela com o Almirante Delgado (Michael Irby) no bar de Luna é espetacular na forma como, mais uma vez, nada é explicitamente dito, mas tudo é absolutamente indicado. No espectro oposto, é muito bem-vindo o retorno de Camina Drummer agora assumindo de vez sua persona de pirata espacial, mas não uma qualquer e sim alguém marcando território e estabelecendo o que pode ser, no futuro, uma grande oposição a Marco Inaros.

Ironicamente, a linha narrativa menos interessante é o processo investigativo de Holden em Tycho para localizar a jornalista abelhuda Monica Stuart. Não que a ação não seja bem feita, mas é que ela é tipo “já vi isso milhares de vezes antes” e nada particularmente especial a não ser a confirmação de que a conspiração já invadiu a estação espacial e ameaça a protomolécula. Claro que são essas sequências que impressionam pelo realismo, com o detalhamento desse espaçoporto como um entreposto de cargas demonstrando a qualidade do design de produção da série que sabe muito bem pegar o que existe hoje em dia e extrapolar para esse futuro próximo de maneira que o espectador se sinta absolutamente familiarizado com toda a ambientação sem muito esforço.

Churn mais do que compensa o começo razoavelmente lento e burocrático que vimos em Exodus, entregando uma fascinante visão humana de um dos mais interessantes personagens da série que eu, particularmente, jamais esperei que ganhasse esse tipo de desenvolvimento invejável. É, sem dúvida alguma, a promessa de uma temporada excelente, mais uma vez.

Mother (Mãe)
5X03

Mother continua a narrativa macro que gira em torno da noção de família não só finalmente reunindo Naomi com Filip, ainda que não da maneira que ela esperava, como também investindo um bom tempo em Camina Drummer e sua relação de profundo respeito e amizade com o finado Klaes Ashford, morto por Marco Inaros. Diria que é esse o ponto alto do episódio que, assim como foi o caso de Amos no anterior, lida com os sentimentos mais profundos de Drummer.

Fica muito evidente que sua vida de pirata é uma fuga, o único caminho que ela tinha para firmar-se independentemente, algo que pode ser visto no estilo que ela assume, evitando mortes e, bem lá no fundo, procurando o paradeiro de seu mestre. Ao encontrar a nave abandonada e recuperar as informações escondidas por Ashford, ela encontra mais uma peça no quebra-cabeças do plano de Inaros, ainda que o apoteótico encerramento do episódio já o revele completamente, confirmando as suspeitas de Avasarala e de Drummer, que passa as informações adiante para Fred que, claro, circula de volta para a ex-líder das Nações Unidas.

Mas, voltando a Drummer, sua decisão de caçar Marco Inaros por pura vingança, depois abafada – mas não completamente – por pedido de sua amante, é exatamente o que podemos esperar da personagem. Quando ela se prepara para finalmente abrir a garrafa de uísque que tentara presentear a Ashford e volta atrás, sabemos que ela ainda guarda seu desejo de acabar com o assassino de seu amigo e isso, com certeza, terá função nos capítulos seguintes, especialmente considerando que, agora, Naomi, que ela respeita e admira, foi sequestrada pela facção inimiga.

Do lado marciano da narrativa, o plano de Alex e Bobby para desmascarar o almirante que trafica armas foi muito bem executado, com um plot twist razoavelmente telegrafado, mas que cumpre sua função de estabelecer os dois como uma dupla a ser observada. O mesmo pode ser dito da trama capitaneada por Holden para descobrir o traidor na Tycho que ganha mais impulso e se torna bem mais interessante que no episódio anterior. Há, inegavelmente, uma belíssima convergência narrativa logo nesse terço inicial de temporada, o que prepara o terreno para potencialmente excelentes desenvolvimentos futuros.

No entanto, seja como for, o que realmente importa é que o status quo da série mudou completamente. Com o primeiro ataque à Terra sendo bem-sucedido, começa uma efetiva guerra contra Inaros e os Belters, com cada um dos tripulantes da ainda em conserto Rocinante muito provavelmente trabalhando peças separadas desse quebra-cabeças no que parece ser uma temporada diametralmente oposta à anterior, em que o trabalho de equipe foi o mote.

Dirigindo um episódio da série pela primeira vez, Thomas Jane, cujo carismático personagem ainda não deu as caras, faz um excelente trabalho com o roteiro de Dan Nowak, reunindo as pontas narrativas sem efetivamente reunir os personagens e entregando aquela perfeita sensação de unicidade que a série sempre teve. Com a Terra gravemente ameaçada, o jogo mudou completamente e olha que sequer chegamos ao ponto em que a protomolécula efetivamente entrou na história.

The Expanse – 5X01 a 5X03: Exodus, Churn e Mother (EUA – 16 de dezembro de 2020)
Showrunners:
 Mark Fergus, Hawk Ostby (baseado em romances de James S. A. Corey, nom de plume de Daniel Abraham e Ty Franck)
Direção: Breck Eisner (5X01 e 5X02), Thomas Jane (5X03)
Roteiro: Naren Shankar (5X01), Daniel Abraham e Ty Franck (5X02), Dan Nowak (5X03)
Elenco: Steven Strait, Cas Anvar, Dominique Tipper, Wes Chatham, Shohreh Aghdashloo, Frankie Adams, Jasai Chase Owens, Keon Alexander, Frankie Faison, Michael Irby, Anna Hopkins
Duração: 52 min. (5X01 e 5X03), 53 min. (5X02)

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6 comentários

pabloREM 30 de dezembro de 2020 - 20:17

Para mim a série só melhora, a maneira como ela se desenvolve é ótima. Tudo é colocado de uma maneira que demonstra com a história da humanidade tende a se repetir. Temos a fase “Guerra Fria” representada pela Terra e Marte, com o resto sendo o Terceiro Mundo (Belters) que só servem para fornecer matéria-prima. Depois com a situação mudando, a “Cortina de Ferro” (Marte) entrando em colapso pelas mudanças, virando um distribuidor de sucata bélica, o surgimento de terroristas que igual hoje em dia, pensam que representam um grupo de pessoas, sejam religiosos, ideológicos, mudando o conceito de como fazer guerra. É muito bom.

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planocritico 30 de dezembro de 2020 - 20:18

Gosto muito da transposição dos problemas de nosso mundo moderno para esse futuro próximo, passando a mensagem um tanto pessimista de que, lá no fundo, nada mudará…

Abs,
Ritter.

Responder
Dialógico 23 de dezembro de 2020 - 18:13

Thomas Jane mandou super bem na direção do ep 3. Estou sentindo a série com uma atmosfera diferente, não pior ou melhor, mas diferente. Espero que a terra não lide com inaros como lidou com Marte em temporadas passadas, seria repetitivo. E espero realmente que não deixem os portais de lado, ignorando a ultima temporada.

Responder
planocritico 23 de dezembro de 2020 - 18:13

Sobre os portais, como eu não gosto muito desse desenvolvimento mais “sci-fi puro”, não me importarei se eles ficarem como pano de fundo apenas.

Abs,
Ritter.

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Dialógico 22 de dezembro de 2020 - 11:44

Correndo pra terminar os três episódios e poder ler a crítica completa

Responder
planocritico 22 de dezembro de 2020 - 11:46

Manda ver!

Abs,
Ritter.

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