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Crítica | The Expanse – 5X10: Nemesis Games

por Ritter Fan
2641 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers da série de TV, mas não dos livros (mantenham assim nos comentários, por favor). Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

As far as last stands go, that’s the one I’d pick.
– Burton, Amos

Mark Fergus e Hawk Ostby tinham uma missão ingrata para o final da 5ª temporada de The Expanse. Dois eventos não exatamente planejados aconteceram com a série em pós-produção: no meio do ano, Cas Anvar foi acusado de abuso sexual e a produção resolveu excluí-lo da série e, logo antes da estreia, sai a agridoce notícia da renovação para mais um ano que, porém, seria o último. Claro que o primeiro acontecimento foi mesmo uma surpresa inesperada – que, infelizmente, vem se tornando cada vez mais esperada – e exigiria medidas drásticas ou com nova escalação do personagem ou, claro, com sua morte. Quanto à segunda, é difícil dizer o quanto ela influenciou a temporada, mas custo acreditar que os showrunners só realmente souberam da decisão às vésperas do começo da temporada e Nenemis Games dá algumas indicações de que já havia uma conversa nessa direção.

Mas vamos primeiro abordar o núcleo do episódio, ou seja, a resolução da odisseia de Naomi Nagata isolada e perdida na Chetzemoka, nave-armadilha de Marco Inaros para a Rocinante. São algo como 35 minutos dedicados exclusivamente a essa questão, minutos esses que são muito bem utilizados, seja com a duvidosa, mas compreensível decisão passional de James Holden de sacrificar a Rocinante para dar tempo à Alex e Bobbi de salvar sua amada, seja com o conflito crescente na Tynan entre Camina Drummer e Karal. Não há grandes surpresas no que ocorre, mas surpresa do tipo que muitos almejam por aí é bobagem de quem acha que roteiro tem obrigação de tirar uma solução mágica da cartola somente para tirar onomatopeias da boca do espectador. The Expanse não tem essas bobagens e o que o roteiro de Daniel Abraham, Ty Franck e Naren Shankar entrega é exatamente o que devia entregar: ação de alta octanagem que segue uma estrutura ditada pela lógica interna da série.

Holden é capaz de qualquer coisa por Naomi, além de ser um líder exemplar. A combinação desses dois fatores resulta em sua escolha de arremessar-se em meio a cinco naves leais a Inaros. Nota-se a resistência de Bull, mas seu reconhecimento da inevitabilidade da situação, já que o alvo do suposto revolucionário Belter é a Rocinante como o símbolo de união de povos que sempre foi e que Avasarala deixa muito evidente (talvez um tantinho demais) nos minutos finais, vem muito rapidamente como deveria mesmo vir no calor dos segundos que antecipa uma batalha desse nível. Da mesma forma, Drummer nunca escondeu sua raiva consigo mesma por ter aceito fazer uma aliança – mesmo forçada – com Marco Inaros, o homem que matou Klaes Ashford, seu mentor e amigo e, mesmo considerando seu relacionamento poliamoroso com sua tripulação, tornando-a uma família realmente muito próxima a ela, não havia outra opção que não a neutralização de Karal e a oferta de socorro à Rocinante que nós todos sabíamos que jamais seria destruída.

Portanto, a convergência narrativa para o momento que leva à batalha espacial é exemplar, um tabuleiro lógico que poucas séries têm paciência e categoria para montar. Diria, porém, que em termos de “tempo de tela”, tudo aconteceu talvez rapidamente demais, levando a uma certa confusão narrativa sobre quem exatamente estava atacando quem, exigindo esclarecimentos de tempos e tempos, incluindo um que vem muito tempo depois, por Monica, sobre o míssil que “não atingiu” a Rocinante que ganha um bom destaque, mas é em seguida esquecido. Dou extremo valor à pegada realista da série, como meus efusivos comentários anteriores deixaram mais do que claro, mas, aqui, eu acho que esse realismo atrapalhou um pouco o grande momento bélico do episódio e talvez da temporada toda, com toda a ação espacial – é importante diferenciar da ação que se passa dentro das naves, estas muito boas – acabou ficando apagada, perdendo muito facilmente pelo uso dos rail guns novos da Rocinante no sensacional Oyedeng.

Por outro lado, considerei o resgate de Naomi surpreendentemente emocionante. Não tinha dúvidas de que ela viveria, pois não faria o menor sentido fazê-la passar pelo périplo que passou somente para matá-la no último capítulo. Mas a execução de seu sacrifício final, sinalizando para a Razorback (também conhecida pelo hilariamente histérico nome The Screaming Firehawk) sobre o perigo de se aproximar com a clara intenção única de salvar seus amigos sem se preocupar consigo mesma (ecos de James Holden, claro) mostrou toda a categoria da direção de Breck Eisner mais uma vez. O uso de extremo close-up no rosto de Naomi, mas sem deixar que o giro em que ela se encontra apareça nas tomadas para amplificar o desespero e a situação sem saída em que ela se encontra, foi uma estratégia perfeita para fazer com que a aparição de Bobbi off camera primeiro criasse aquele momento em que até seria possível soltar aquela lágrima de emoção se eu fosse uma pessoa frágil assim claro, o que não sou de jeito algum… Uma solução elegante para uma sequência que conhecemos o desfecho em linhas gerais – Naomi não morrerá – mas que mesmo assim consegue trazer exatamente o tipo de surpresa boa em uma situação batida, quase clichê.

É claro que isso então me leva obrigatoriamente à Alex e seu destino… digamos… abrupto.

Os showrunners não tinham muita saída em relação ao personagem, sou o primeiro a admitir. Todas as filmagens já deviam ter acabado ou estar por acabar quando as denúncias contra Cas Anvar surgiram e substituir o ator era impossível, ainda que tenha havido tempo para destacar Bull na medida do possível como seu substituto.  Da mesma forma, a eliminação de Alex de maneira grandiosa exigiria refilmagens, pelo que a solução mundana, do tipo “e o herói tropeçou, bateu com a cabeça e morreu” era quase que literalmente a única possível. Dito isso, é difícil de engolir que um piloto que foi por diversas vezes chamado de o melhor de Marte morreria de embolia/derrame depois de acelerar como um louco para salvar Naomi. Retornando ao tema das surpresas, que abordei acima, essa é uma que, em termos narrativos, é o típico coelho retirado da cartola que, não fossem as circunstâncias práticas ao redor da situação, seria absolutamente terrível. Mas, claro, mesmo absolvendo a produção pelo que foi feito, já que era inevitável, o episódio sofre com isso pela forma repentina como acontece, o que é amplificado pelo corte que leva Holden diretamente a Naomi no momento seguinte já falando do funeral com honras.

Mas se essa questão era inevitável e, dentro das circunstâncias, eu até que consegui gostar, os 20 minutos de epílogo para armar a derradeira temporada foram realmente problemáticos. Para começar, releiam: 20 fracking minutos de epílogo! Sério que não dava para cada um dos aspectos abordados ali terem sido salpicados ao longo deste episódio e dos anteriores? Claro que a esperada reunião de Amos, James e Naomi, com direito a Amos cara-de-pau forçando a aceitação de Peaches por Holden (excelente momento, aliás), foi exatamente como deveria ter sido: rápida e bonita. E o episódio deveria ter acabado aí, talvez acrescentando apenas a sequência final em que Marco Inaros revela seu plano bélico de tomar conta do anel, com o que parece serem os alienígenas que aniquilaram seus construtores acordando finalmente. No entanto, não é isso que acontece e o roteiro passa a descrever em detalhes todo o novo status quo, tratando o espectador como alguém que começou a ver a série por esse episódio apenas.

Se os showrunners já sabiam ou não da renovação casada com cancelamento da série, isso não importa. O que realmente importa é que esse tipo de abordagem episódica em uma epílogo alongado destoa demais da temporada que manteve a narrativa muito próxima e pessoal, apenas com lampejos mais amplos, lampejos esses que, se eram mesmo essenciais para o que vem adiante, deveriam ter sido usados com mais frequência de maneira a evitar esse despejo “de tudo o que esqueceram de falar” em 20 minutos de assuntos aleatórios explicados de maneira didática.

A 5ª temporada de The Expanse não acaba como prometia que ia acabar, mas, mesmo assim, há muito o que se apreciar em Nemesis Games que, em grande parte, é uma aula de como reunir linhas narrativas e de como surpreender mesmo trabalhando situações clichê que o espectador sabe exatamente como vão acabar. Tomara que essa turbulência no final não seja uma indicação de que os showrunners perderam o controle da série, pois seria um crime The Expanse chegar ao seu fim em viés de baixa.

The Expanse – 5X10: Nemesis Games (EUA – 03 de fevereiro de 2021)
Showrunners:
 Mark Fergus, Hawk Ostby (baseado em romances de James S. A. Corey, nom de plume de Daniel Abraham e Ty Franck)
Direção: Breck Eisner
Roteiro: Daniel Abraham, Ty Franck, Naren Shankar
Elenco: Steven Strait, Cas Anvar, Dominique Tipper, Wes Chatham, Shohreh Aghdashloo, Frankie Adams, Jasai Chase Owens, Keon Alexander, Frankie Faison, Michael Irby, Anna Hopkins, Brent Sexton, Sandrine Holt, Olunike Adeliyi, Sugith Varughese, Nadine Nicole, Jacob Mundell, José Zúñiga
Duração: 57 min.

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22 comentários

Lara 6 de fevereiro de 2021 - 02:02

Ritter ou alguém poderia explicar melhor o final daquela nave marciana atravessando pra outro território, eu não entendi o que e porque aconteceu com ela, ela não ia encontrar os outros marcianos que falaram com eles pelo vídeo? O que eram aquelas estruturas no céu daquele planeta? Depois dos créditos mostra as mesmas estruturas?
Obrigada! 🙏

Responder
planocritico 6 de fevereiro de 2021 - 02:04

Vamos lá, com base no que eu entendi:

1. Os marcianos fizeram um acordo com Inaros aparentemente para transformar a tecnologia alienígena que vimos na 4ª temporada em armas e naves, tanto que vemos um grupo de marcianos em um planeta apontando para uma daquelas estruturas enterradas da temporada anterior só que agora voando;

2. A Barkeith, nave marciana que vemos no final atravessando o anel, estava indo se encontrar com esse outro grupo no tal planeta, mas, na hora da travessia, os alienígenas que destruíram os construtores do anel “acordaram” como o próprio Holden havia previsto com o aumento de travessias. Com isso, a Barkeith foi aparentemente vaporizada e, nos créditos, vemos a nave (ou outras naves) alienígenas realmente acordando.

Espero ter ajudado!

Abs,
Ritter.

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Edson Aguiar 5 de fevereiro de 2021 - 00:17

The Expanse vai se tornar tão “cult” quanto Battlestar Galactica. Não tão conhecida e muito bem recomendada.

Responder
planocritico 5 de fevereiro de 2021 - 11:20

Tem esse potencial mesmo de ser “descoberta” ao longo dos anos, depois de seu encerramento…

Abs,
Ritter.

Responder
Pedro Brito 5 de fevereiro de 2021 - 00:16

Estou mto surpreso com esse epílogo. Não achava q a questão da protomolecula seria o plot da última temporada, jurava q seria uma caça contra Marcos Inarus e pronto. E assim, gosto mto do retorno ao plot dos aliens, porém tenho um grande receio: como balancear Marcos Inarus, Aliens e lidar com o encerramento da série em uma mesma temporada? Os responsáveis terão trabalho pra encerrar a série do jeito que merecemos. O q vcs acham?

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planocritico 5 de fevereiro de 2021 - 11:20

Eu desconfiava fortemente que a protomolécula voltaria, pois seria uma ponta solta grande demais não voltar a abordar os alienígenas. No entanto, concordo totalmente com você que isso pode “atrapalhar” a caçada a Marco Inaros, até porque os ETs muito provavelmente vão sair matando geral, sem distinção entre terráqueos, marcianos ou belters, o que forçará uma união entre eles. Vai ser realmente uma temporada delicada…

Abs,
Ritter.

Responder
Lara 6 de fevereiro de 2021 - 02:02

Se isso for explicar melhor o que é a protomolécula pra mim já tá valendo kkkk. Até agora o lance da proto foi que eu menos entendi na série rsrs.

Responder
planocritico 6 de fevereiro de 2021 - 02:04

A grande verdade é que a protomolécula é um “macguffin” na série, ou seja, um objeto de pouca interferência na narrativa, mas que é cobiçado ou temido por todos. Agora é que é capaz realmente de ganharmos algum tipo de explicação mais completa.

Abs,
Ritter.

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Giovani 6 de fevereiro de 2021 - 02:02

Tem razão. Vai ser pouco episódio para resolver tudo. Espero que consigam balancear do melhor jeito esse final. Ainda queria que a Amazon desse uma chance para mais duas temporadas…

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Giovani 5 de fevereiro de 2021 - 00:16

Que pena quando um personagem sofre pelos erros do ator que representa ele. A substituição do Cas Anvar ia ser difícil, pois ele deu vida ao Alex, mas seria uma saída mais segura. Mas entendo a decisão.
A Rocinante sempre foi uma representação dessa união dos povos desse universo: terráqueo, marciano e o pessoal do cinturão em uma nave Marciana. Acho que a Bobbie seja a marciana da nave e o Bull mais um terráqueo…
Gostei do epílogo, mesmo achando que poderiam ter tratado dessa parte de forma mais orgânica na sequencia dos episódios. Também senti falta da participação do Amos nesse final. E a Naomi gostou de dar uma volta no vácuo mesmo….ehehehehe.
1 – Eu tinha me esquecido completamente do Paolo Cortázar!
2 – Bem legal o pós-crédito com a nave “revivendo”…
Temporada excelente! Feliz, mas com aquela ponta de tristeza sabendo que vamos para última parte da viagem nesse universo!

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planocritico 5 de fevereiro de 2021 - 11:20

A melhor solução teria sido mesmo a substituição. Poderiam usar o Cas Anvar até o final e, na temporada que vem, simplesmente trocar o ator sem dar maiores explicações.

Sobre Amos, não vejo como ele poderia ter participado mais. Estava longe pacas lá na lua!

Abs,
Ritter.

Responder
Pedro Brito 5 de fevereiro de 2021 - 11:21

Não sei como vcs acham isso kkkkkkk
Acho horrível quando trocam de ator, prefiro a morte do personagem. Se com o marido da Avassarala eu já achei a mudança horrível (aliás, junto com a troca do ator houve uma mudança da personalidade do personagem junto), imagina se ocorresse com um dos principais…

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planocritico 5 de fevereiro de 2021 - 11:21

Tenho zero de problema com isso. Especial se for de uma temporada para a outra. James Bond está aí para provar que dá certo mesmo quando é o protagonista.

Abs,
Ritter.

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Giovani 6 de fevereiro de 2021 - 02:02

Lembro quando trocaram o Capheus do Sense8: achei estranho no início, mas depois nem lembrava mais do outro ator. No caso The Expanse, a série segue mais ou menos os livros, onde o Alex tem um história importante. Acho que a troca do ator seria o ideal para tocar a trama dele e a história em Marte.

Responder
planocritico 6 de fevereiro de 2021 - 02:04

Exato. Tinha até me esquecido desse exemplo!

Abs,
Ritter.

Junior Souza 4 de fevereiro de 2021 - 12:52

Merecia mais umas tres temporadas, uma pena.

Responder
planocritico 5 de fevereiro de 2021 - 00:16

Merecia mesmo!

Abs,
Ritter.

Responder
Vinícius Andrade Lucca 4 de fevereiro de 2021 - 12:52

A única coisa que me incomodou nesse episódio foi realmente o corte da morte do Alex, porém entendendo a situação por trás das câmeras passo pano e aceito.

Eu chorei mto na cena do resgaste da Naomi, foi perfeito e emocionante, palmas pra direção.

E… Olha, eu curti o epílogo, não me incomodei em nada na maneira que fizeram, tô mto ansioso para a temporada final. A quinta na minha opinião serviu para focar na narrativa individual de cada um deles… Dito isso, acredito em uma chacina na temporada final, sei lá pq hahaha.

The Expanse me lembra mto as histórias do universo Gundam, principalmente Gundam 00. Eu amo isso haha

Agora é aguardar a última temporada

Responder
Junior Souza 4 de fevereiro de 2021 - 12:52

Voce ja leu os livros seguintes? Acha que da pra condensar o que falta em uma unica temporada?

Responder
Vinícius Andrade Lucca 6 de fevereiro de 2021 - 02:02

Eu estou lendo o primeiro atualmente hehe então não sei o que está por vir. Torço que seja bom e encerre de forma digna.

Responder
planocritico 6 de fevereiro de 2021 - 02:04

Está gostando? O primeiro livro está aqui na minha frente olhando para mim e eu olhando para ele, com medo de encarar o calhamaço gigante que ele é…

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 5 de fevereiro de 2021 - 00:16

A cena do resgate da Naomi foi incrível mesmo. Se só tivesse isso, já valeria o episódio!

Sobre os epílogos, cara, eu achei tempo demais que foi muito obviamente criado para armar a próxima temporada. Tinha que ter sido trabalhado antes.

Mas, tudo bem. Continua sendo uma BAITA temporada!

Abs,
Ritter.

Responder

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