Crítica | The Eye: A Herança

Um dos últimos filmes da onda de refilmagens de produções orientais a ser realizado no sistema hollywoodiano foi O Olho do Mal, história sobre uma jovem cega que começa a ser perturbada por visões persistentes, posteriores ao transplante de córnea que lhe permitiu enxergar. Com todo esse processo de reprodução, os filmes de terror orientais estavam em alta e aqui no Brasil, tivemos o lançamento de algumas produções que serviram de ponto de partida para as novas versões ocidentais. Lançado em 2002, The Eye – A Herança ganhou projeção comercial em nosso território e nos permitiu conhecer um pouco mais do jeito asiático de se construir narrativas erguidas com base em nossos medos cotidianos, alegorizados por meio de imagens assombrosas, fantasmáticas e aterrorizantes.

Sob a direção dos Pang Brothers, dupla formada por Danny Pang e Oxide Chun Pang, responsáveis pelo comando do filme escrito em parceria com Jojo Hui, acompanhamos, ao longo de seus 110 minutos, uma trama bem instigante sobre Wong Kar Mun (Angelica Lee), garota que perdeu a visão aos cinco anos de idade e que aos dezoito, consegue a aprovação do seu transplante de córneas, algo que lhe permitirá viver novas emoções e aprendizados em sua vida. O sonho, no entanto, torna-se um dos maiores pesadelos de sua vida, pois o que era para fazer novo sentido e lhe permitir engrandecer fisicamente e espiritualmente se torna uma trajetória macabra de visões assombrosas de entidades que sempre estão presentes na hora da morte de determinadas pessoas, personagens geralmente próximos da protagonista, “maldita” testemunha ocular de tudo.

Tal como as heroínas que buscaram respostas para a fita amaldiçoada que ao ser assistida, ceifa a vida do espectador em sete dias, ou então, lutaram contra entidades numa casa assombrada pelo ódio que permeou o momento da morte de alguém, a protagonista em The Eye – A Herança parte para uma profunda investigação acerca de respostas para os vultos e vozes que começam a permear o seu cotidiano e tornam a sua existência diária insuportável. Tendo como base dramática a trajetória de alguém que volta a enxergar depois de praticamente viver toda a sua vida sem esse sentido, o filme é eficiente em sua construção dramática, igualmente certeiro ao colocar o horror por meio de camadas que se sobrepõe e anunciam o trágico iminente.

No começo, tudo parece muito poético. Ela narra para os espectadores sobre o que as pessoas dizem sobre o mundo ser um lugar meio, mas que ao mesmo tempo, é belo. Depois de sua cirurgia, finalmente ela estará pronta para refletir tais afirmações e fornecer o seu parecer. O problema é que diferente do esperado, voltar a enxergar não lhe trouxe apenas desafios na interpretação das cores, objetos e outros elementos conhecidos apenas por meio de outros sentidos. A presença sobrenatural parece também ser fruto o transplante, algo que descobriremos logo em seguida, quando em sua investigação, Wong Kar Mun descobre que as córneas eram de uma jovem vidente vista como maldita pelas pessoas que a cercavam.

Ela, inclusive, fez a previsão de um acidente que ceifou a vida de 300 pessoas numa fábrica. Agora, as pessoas que morrem perto dela lhe transmitem um espetáculo arrepiante, pois além de prever o acontecimento, a jovem testemunha os enviados do além, aqui chamados de Homens-Sombra, responsáveis por encaminhar tais pessoas da vida para a morte, algo que para os ocidentais, salvas as devidas proporções, pode ser comparado aos anjos. Assim, em tentativas frustradas de reerguer a sua vida, a moça é golpeada psicologicamente pelas entidades o tempo todo. O seu terapeuta, o Dr. Wah (Lawrence Chou) a ajuda em alguns momentos, tornando-se importante na evolução da narrativa ao partir para Bangok em busca das tais respostas sobre a doadora e a possível questão da memória celular que é mais discutida em sua refilmagem.

Com alguns personagens cativantes, como por exemplo, Ying-Ying (Yut Lai So), amizade encontrada enquanto esteve internada no hospital, a protagonista tem motivações para os seus momentos de catarse diante das perdas, o que torna a história envolvente e não apenas um emaranhado de sustos galopantes. A primeira aparição da figura trajada de preto a levar uma senhora internada no mesmo hospital onde se recuperava da cirurgia é uma passagem eficiente, excelente primeiro momento para tais guardiões encarregados de levar os mortos para os seus respectivos destinos. As cenas com o menino a solicitar o seu boletim também são arrepiantes, fruto de uma equipe técnica engajada na construção de um filme com bom desempenho narrativo, mesmo que esteticamente seja uma produção um tanto rudimentar.

Ainda assim, a direção de fotografia de Decha Srimantra funciona bem, num bom emprego de imagens desfocadas do ponto de vista da protagonista, além de alguns trechos com boa profundidade de campo, responsável por aumentar a sensação de ameaça. Com efeitos sonoros de Sooksun Klinkhajohn, funcionais e importantes para a demarcação das presenças construídas pelos efeitos visuais de Frankie Chung, a trilha sonora de The Eye – A Herança é um dos poucos elementos dispensáveis de sua narrativa, pouco interessante, composta pela Orange Music. No quesito visual, o design de produção de Simon So e James David é bastante comum, sem grandes pontos altos, algo que na versão estadunidense, por conta do orçamento, ganha dimensões estéticas sofisticadas, mas com menor potencial dramático que seu ponto de partida.

The Eye – A Herança (Dark Water) — Estados Unidos, 2002
Direção: Oxide Pang Chun, Danny Pang
Roteiro: Yuet-Jan Hui, Danny Pang, Oxide Pang Chun
Elenco: Angelica Lee, Chutcha Rujinanon, Lawrence Chou, Jinda Duangtoy, Yut Lai So, Candy Lo, Edmund Chen, Yin Ping Ko, Florence Wu, Wisarup Annuar
Duração: 110 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.