Crítica | The Flash – 5X05: All Doll’d Up


– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

O episódio dessa semana de The Flash deixa explícitos os principais elementos que têm ajudado a dar um norte para a produção na atual temporada. A prova do acerto não poderia ser mais contundente: um episódio focado na personagem polêmica Iris West-Allen (Candice Patton), revisitando dramas familiares e trabalhando subtramas com ligação apenas indireta com o arco principal da temporada. A fórmula já deu o tom de alguns dos piores momentos da série, porém temos aqui nada menos do que o melhor episódio da temporada até então. Como isso foi possível?

O segredo desse sucesso me parece ter a ver com uma busca bem efetivada da produção em identificar o que já funcionou no passado. De forma muito semelhante ao que por vezes ocorre nas HQs, a temporada tem se apropriado do passado da série de forma ativa. O mais legal é que os produtores têm conseguido fazer isso sem cair na armadilha mais comum da abordagem, que é a de se transformar num show de auto-referências que apela para a nostalgia para suprir a seca criativa do presente.

Se é verdade que em All Doll’d Up temos altas doses explícitas de auto-nostalgia por parte do seriado, com referências gratuitas a eventos de toda a sua história sendo mencionados a torto e a direito — a cena com Cisco (Carlos Valdes) e Caitlin (Danielle Panabaker) na enfermaria é um dos maiores desfiles de fanservice da série até onde eu consigo me lembrar —, também é certo que a trama faz um bom uso de elementos deixados em aberto no passado, deixando que o arco atual se sirva deles de forma orgânica e sem perder o pique.

O melhor exemplo disso é o paralelo interessante entre a situação atual de Iris e sua relação com a própria mãe ausente. Eu jamais esperaria que isso fosse ser abordado — especialmente porque eu tinha esquecido que Francine West existia, dado o quão a série sumariamente ignorou-a desde sua última aparição —, que dirá que fizesse sentido e adicionasse credibilidade ao seu arco de personagem atual. A entrega é feita de forma orgânica e bem encaixada no roteiro, e prepara o terreno para o desfecho de ação, que traz o primeiro momento badass para a personagem desde que ela se envolveu em um duelo samurai de esposas emputecidas em Lose Yourself.

Nesse sentido, o episódio consegue ter sucesso na missão em que Run, Iris, Run falhou miseravelmente: adereçar diretamente a “não-gostabilidade” da personagem injustamente mal-trabalhada de Iris, despertando no espectador pelo menos a boa vontade em ver a Sra. West-Allen sob uma nova perspectiva. Se os roteiros continuarem a trabalhar a questão com sutileza e cuidado, o desenrolar da relação entre ela e Nora (Jessica Parker Kennedy) pode vir a ser o momento mais interessante da personagem desde a longínqua 1ª temporada. Torço para que, caso vejamos a Iris do futuro, a versão seja bem construída e evite a caricatura do Flash-trevoso do futuro de Savitar.

Mas nem só de dramas pessoais pode viver um serial super-heróico. Com seu ótimo vilão da semana, o capítulo consegue se gabaritar no sentido de ser mais uma das entradas memoráveis do cânone da série. O furtivo e destronchado Boneco de Pano/Ragdoll (Troy James) prova novamente o quanto o uso de efeitos práticos inventivos é capaz de atingir resultados muito mais empolgantes do que muita computação gráfica com o quíntuplo do orçamento. A maquiagem e interpretação corporal de James são coisa fina (uma pena o episódio não ter sido exibido no Halloween — seria esse o plano inicial?), colocando para muito bom uso seus talentos arrepiantes de contorcionismo, com um apoio sonoro preciso e utilizando o CG apenas como apoio para as façanhas mais esdrúxulas do personagem.

Sim, as motivações do vilão são delineadas descaradamente para armar um paralelo forçoso com a subtrama de Iris. Por sorte, isso não é prejuízo nenhum para o estabelecimento do figurão, já que se trata justamente de um supervilão do tipo “capanga”, cuja presença visa mais sustentar os elementos de ação do que qualquer outra coisa. Que ele tenha sido usado para criar a deixa para boas sequências com Iris mostra o quanto tal consistência é importante — compare a trama dessa semana com o vilão absolutamente esquecível da investida super-heroica de Iris em Run, Iris, Run. Não é porque o antagonista é essencialmente um saco de pancadas com super-poderes visualmente interessantes que o roteiro pode se dispensar de amarrar a pancadaria com temas e motivos pessoais.

Frente ao desfecho bem construído do episódio, a subtrama envolvendo a busca pelo pai de Caitlin acaba sendo o ponto fraco do capítulo. Embora Sherloque Wells (Tom Cavanagh) continue a entreter muito mais do que tem direito, o mistério soa mais forçoso com a caça um tanto boba de pistas, que claramente comunica o tempo todo: “Atenção: não resolveremos nada disso neste episódio!”. A perda de poderes de Cisco é uma subtrama bacana e explorada com o misto certo de leveza e dramaticidade, mas acaba não empolgando porque a impressão é que esse tipo de premissa já foi explorado à exaustão. Não sei o que esperar do Sr. Snow e da trama envolvendo as origens de Nevasca/Killer Frost, mas espero que se faça um bom proveito de Caitlin (que bem poderia se servir de roteiros que se utilizassem bem de seu histórico de perdas ao longo da série).

Tendo sucesso em conceder os holofotes aos dramas pessoais de Iris e milagrosamente saindo vitorioso do outro lado, All Doll’d Up é um ótimo episódio de The Flash, e indica uma abordagem promissora para ser seguida no futuro pela produção. Drama, poderes absurdos, super-heroísmo clássico e uma penca de auto-referências a uma cronologia conturbada: todos os ingredientes de um bom quadrinho do subgênero estão presentes aqui.

The Flash – 5×05: All Doll’d Up — EUA, 13 de novembro de 2018
Direção:
Phil Chipera
Roteiro: Thomas Pound, Sterling Gates
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Hartley Sawyer, Danielle Nicolet, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Jessica Parker Kennedy, Kyle Secor, Troy James
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.