Crítica | The Flash – 5X06: The Icicle Cometh

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Pobre Caitlin. Em um ponto em que até mesmo a semi-universalmente desgostada Iris (Candice Patton) teve sua chance com um ótimo episódio focado em si, a personagem de Danielle Panabaker continua, após cinco longas temporadas, a ser mal-servida pelo roteiro, repetindo as exatas mesmas batidas de personagem e recaindo nos mesmíssimos defeitos de sempre. Se o episódio da semana passada mostrou que o formato episódico temático, quando bem executado, é capaz de dar fôlego a uma premissa já exaustivamente percorrida pelo serial, o capítulo desta semana mostra o diametral oposto: como um episódio decisivo para um arco que vem sido sugestionado desde a temporada passada — e absolutamente determinante para uma personagem importante que predata a própria série — pode colocar tudo a perder ao recair em um modelo batido e, arbitrariamente, decidir correr demais com as coisas (sem trocadilhos, OK?).

A bem da verdade, nunca coloquei muita fé nos teasers envolvendo a revelação sobre o pai de Caitlin e sua ligação com Nevasca/Killer Frost. A subtrama da busca pelo sujeito desaparecido desde então se reduziu em um pretexto para ocupar a personagem em seus momentos de “peça sobressalente”, com uma caçada de pistas preguiçosa e tão simplista e forçada que em momentos não convenceria nem em um episódio ruim de DuckTales (por sorte dos patos, há bem poucos — ao contrário de nossa querida série em tela). Em todo caso, jamais podia imaginar o quanto a produção poderia errar a mão em termos tanto de premissa, quanto de execução.

O desnecessário conto “retconesco” da origem de Nevasca não apenas não adiciona o suficiente à construção da (interessante) personagem para justificar sua inclusão na cronologia da série, mas de quebra é executado de forma tão conturbada que acaba sabotando seu potencial num futuro próximo. Afinal de contas, ninguém deve ter a menor dúvida de que o arco de Caitlin girará por um tempo em torno do vilão Geada/Icicle (Kyle Secor), do dilema sentimental e da inevitável perda que tudo isso acarretará. A medir pela forma como a trama é trabalhada aqui, trata-se atualmente da frente mais desinteressante da temporada — que conta com as fantásticas subtramas “Cisco levou um pé na bunda e cortou a mão” e “Cecile tem poderes/Cecile perdeu os poderes — DE NOVO!” no páreo!

O problema é simples: após uma temporada de teasing e visando realizar um retcon desnecessário sobre a origem de uma personagem do elenco principal, você simplesmente não faz isso através de um festival de diálogo expositivo maçante + o repeteco de uma das cartas marcadas mais batidas de todo o seriado. Infelizmente, é assim que a trama de Thomas Snow é esgotada ao longo dos 40 minutos de episódio. A premissa traz lá seu valor, e é pontuada por ares quadrinhescos que não estariam de fora em uma tentativa de emulação contemporânea do estilo marcado nas parcerias sessentistas do já saudoso Stan Lee. O cientista que, na tentativa cheia de húbris de “congelar” o avanço de sua esclerose, acaba despertando um avatar da morte representada pelo frio extremo é uma típica ideia que teria tudo para funcionar num cenário de ficção especulativa bonachão, como nos quadrinhos ou nessa versão televisiva de The Flash.

Porém, tudo isso é revelado em um esquema ponto-a-ponto, da forma mais desinteressante possível. O fato de que Caitlin e Barry por um segundo sequer compram a ideia de que a versão oferecida por “Thomas” por si só já é impeditivo da imersão do espectador. É o tipo de coisa que não tem regra fácil: há tramas absurdas e “forçadas” que funcionam pois “ornam” com uma lógica interna da história, a qual vai se montando e desenvolvendo com o tempo. Outras, por sua vez, claramente são a maneira mais aceitável que um roteiro conturbado teve de encontrar seu caminho até o set de filmagem. Temos aqui um exemplar perfeito do segundo caso. Nada no encontro entre Caitlin, Cisco e Barry com Geada sugere em nenhum momento que o desfecho da história vai ser outro senão o que acaba acontecendo.

Quer dizer que precisávamos de uma surpresa? Não necessariamente. Tem histórias que conseguem entreter mesmo quando sabemos exatamente onde tudo vai dar — o entretenimento trash normalmente diverte mais pelos “comos” do que pelos “o quês”. O problema aqui não é a ausência de surpresa, mas desinspiração geral da trama: a reação de todo o Team Flash é morna e mecânica. Mesmo quando Caitlin vai descobrindo a verdade sobre seu pai, sua resposta emocional dificilmente aparece em meio à enxurrada de explicações mastigadas, que parecem partir do pressuposto que o espectador não será capaz de ligar os pontos sob qualquer tipo de linguagem que não a exposição ponto-a-ponto. A coisa assume ares teatrais e forçados, em especial a rusga entre Barry e Cisco, que consegue exumar novamente a enfadonha premissa do “o cara que está certo está sendo hostilizado pois os outros membros do Team Flash estão cegados pela emoção”.

Nada empolga, e as cenas da subtrama paralela de busca por um pedaço do satélite não fazem mais do que espaçar um pouco mais um enredo corrido e sem lastro emocional. Não nos habituamos com a versão farsante de Thomas, não é feito nenhum esforço no sentido de ao menos brincar com a possibilidade de que o espectador pense que ele não será, no fim das contas, revelado como um grande sacana. O retorno triunfal de Nevasca é telegrafado de longe e tem ares anticlimáticos no contexto em que ocorre. No final, Caitlin acaba usando o amplificador mental desenvolvido por Harry para tirar um pouco mais de proveito da prop, que estava encostada se comunicar com Nevasca off-screen. 

Se All Doll’d Up me lembrou uma boa edição de um quadrinho da Era de Prata, The Icicle Cometh tem ares dos piores arcos dos quadrinhos contemporâneos: aqueles em que mexe daqui, mexe dali, muda-se status por mudar status e tudo continua na mesma. Em uma das cenas finais, Barry lista algumas das vezes em que Caitlin fora enganada, as quais resultaram em perdas emocionais significativas para ela. O que poderia ser visto ao menos como uma tentativa de fazer alusão à continuidade frequentemente mal trabalhada da personagem acaba apenas explicitando os ares forçados do roteiro em “amarrar” uma subtrama que, após muitos e muitos capítulos como assunto secundário, recebe aqui um desenvolvimento corrido. Se Geada se tornar um big bad de respeito (e, ao menos na atuação de Secor, não vi muitos problemas no contexto do programa), terá que ser através de uma exploração mais dramática e menos expositiva do que essa.

The Flash – 5×06: The Icicle Cometh — EUA, 20 de novembro de 2018
Direção: 
Chris Peppe
Roteiro: Kristen Kim, Joshua V. Gilbert
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Hartley Sawyer, Danielle Nicolet, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Jessica Parker Kennedy, Kyle Secor, Lossen Chambers, Alex Rose
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.