Crítica | The Flash – 5X07: O Come, All Ye Thankful

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

O episódio desta semana de The Flash torna a investir nos dois pilares que têm pautado essa inconstante 5ª temporada: construir a narrativa a partir de referências múltiplas ao passado da série e o foco pesado na temática eleita da vez. Na verdade o capítulo simboliza muito bem o estado atual da série, com conceitos interessantes e momentos divertidos e bem construídos dividindo a tela com sequências bem menos lisonjeiras, onde todos os departamentos parecem falhar simultaneamente. Roteiro, direção e atuação — ninguém se salva de ao menos um momento que tira o espectador de sua imersão e o leva até o questionamento clássico: “Sério, isso?”.

O arco de uma das figuras centrais da temporada, Nora (Jessica Parker Kennedy), é totalmente representativo disso. Tendo sido relativamente bem explorada desde sua introdução, a personagem alterna entre momentos de desenvolvimento interessantes e convicentes e uma caracterização dramalhona que sabota toda a credibilidade adquirida naqueles em favor de estabelecer os conflitos centrais da trama da forma mais explícita o possível.

Por exemplo, a conversa entre mãe e filha no início do episódio traz um diálogo bastante interessante, na qual a visão idílica de Nora a respeito dos grandes feitos do pai é confrontada pelo relato de terror de Iris (Candice Patton). O momento é rapidamente bem aproveitado em uma cena posterior, na qual o Team Flash pensa ter perdido Barry (Grant Gustin). A sequência é muito bem realizada: o ar corriqueiro e desimportante da missão dá credibilidade ao evento, e em termos de direção e interpretação, dificilmente a série consegue fazer melhor do que isso. A cena por si só já fala muito e passa, com total precisão, o momento emocional enfrentado por Nora.

Entretanto, a coisa acaba sendo sabotada com uma reação infantilizada e simplista por parte da jovem West-Allen. Com diálogos que a fazem soar mais como uma criança birrenta do que como alguém que realmente está se inteirando dos dilemas e angústias reais de sua família super-heroica (que eu entendo ser a temática que o roteiro quis explorar), é compreensível que o espectador encontre rapidinho os limites de sua empatia pela personagem. Se o lado infantil de Nora que idealiza a carreira do pai e só agora percebe que também o culpa por ter desaparecido é bastante interessante dramaticamente, a outra infantilidade — a da birra e do beicinho sem limites —  definitivamente não funciona tão bem.

No campo supervilanesco, a série busca literalmente no fundo de seu baú a ameaça semanal da vez. Trazendo de volta o Mago do Tempo/Weather Wizard (Liam McIntre), o capítulo investe novamente no esquema do Supervilão Jr., que se já dava as caras antes, agora com o foco na temática da paternidade não deve ter previsão para ir embora. Será que ao menos teremos o retorno tão aguardado (por uma só pessoa em todo o universo) do Trapaceiro Jr.? Com caracterização preguiçosa e motivações baratas (e uma origem que me fez lembrar aqueles vilões de terceiro escalão do Homem-Aranha, tipo “o cara que herdou o traje do terceiro Abutre do qual você nunca ouviu falar”), a Maga do Tempo (Reina Hardesty) é mais uma supervilã esquecível, anos-luz abaixo do já saudoso Boneco de Pano (e do Trapaceiro Jr. também, é claro).

Sua inclusão, além do cameo de Mark Mardon (aposto que esse aí nem uma só pessoa sequer aguardava retornar…), rende principalmente pela surpresa na cena em que ela aparentemente assassina o Mago do Tempo original de surpresa, apenas para trazer a revelação igualmente inesperada de que se tratava de Iris em um holograma. Porém, a pergunta que não quer calar é: por que diabos não era o Homem Elástico “moldado” para se parecer com o cara? Não faria muito mais sentido? Aliás, por que ninguém chamou o Dibny pro jantar do Dia de Ação de Graças? Como vocês fazem isso com o menino Dibny?? Ele confiou em vocês, chamou vocês de família…

Fora isso, a trama dos magos do clima serve também para um momento absolutamente hilário, em que o Flash em um segundo retira o cara de Iron Heights para prendê-lo no pipeline do S.T.A.R. Labs, apenas pra não conseguir deter a Maga do Tempo, que tem um poder que: 1. depende de uma joça pouco prática para funcionar e 2. é especialmente lento para causar qualquer destruição. No tempo de fazer a transferência-relâmpago de presídio, dava para ter prendido ela na cela de Iron Heights e levado a meta-antena metereológica para a China… Enfim, pelo menos o clímax galhofa de ação do episódio diverte bastante, fazendo o uso do efeito patenteado do furacão 3D que a série tanto aprecia.

A frente narrativa mais interessante do episódio são as sequências que narram a origem de Cicada (Chris Klein). Embora a escolha por inserir a subtrama neste episódio faça sentido tematicamente, na prática a escolha funciona menos no que deveria, já que temos essencialmente um conteúdo central para a trama da temporada intercalado com um semi-filler. Apesar de defender o formato episódico do “vilão da semana”, quando a entrada é tão esquecível e mal trabalhada assim a coisa realmente acaba por fazer o conjunto perder o momentum, e é este o caso aqui.

As cenas contando mais sobre a história pessoal de Orlin Dwyer são no geral bastante convicentes, captando o interesse do espectador e criando um supervilão quadrinhesco com precisão. A atuação de Klein tende em alguns momentos ao risível, o que não é favorecido pela forma preguiçosa com que o roteiro tenta pintá-lo como um cara “perdido no vida”. Porém, no geral, a subtrama funciona e mostra o quão importante é a montagem de um vilão convincente. A perspectiva do “cidadão comum” sobre os eventos grandiosos das tramas super-heroicas é uma premissa que continua a dar pano pra manga no subgênero, e tem tudo para, ao menos em potencial, alçar Cicada a um adversário memorável dessa versão do Velocista Escarlate. Merece destaque a relativa sutileza com que o ódio de Dwyer pelos meta-humanos é trabalhada — é o tipo de cuidado que falta tanto aos vilões da vez, que sofrem de subexposição e pouco tempo de tela, quanto aos nossos protagonistas, que por vezes sofrem do mal contrário.

O Come, All Ye Thankful é majoritariamente um episódio totalmente na média para The Flash, que ganha pontos pelos momentos em que acerta seus alvos de maneira mais contundente. Se não falhasse nos pontos de sempre, poderia-se dizer que era um exemplo de como “enrolar” a trama da temporada sem recair no marasmo. No geral, a temporada tem conseguido se manter no nível da anterior — mas ainda há bastante espaço para melhorar. Veremos se o crossover vindouro não injeta novos ânimos na produção!

The Flash – 5×07: O Come, All Ye Thankful — EUA, 27 de novembro de 2018
Direção: 
Sarah Boyd
Roteiro: Jonathan Butler, Gabriel Garza
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Tom Cavanagh, Jessica Parker Kennedy, Chris Klein, Reina Hardesty, Liam McIntre, Lossen Chambers, Islie Hirvonen
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.