Crítica | The Flash – 5X08: What’s Past Is Prologue

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Difícil acreditar que quatro anos nos separam da estreia da versão “arrowversiana” de The Flash. De City of Heroes até aqui, foram 100 episódios de ação, drama e aventura transpondo com (sempre relativa) fidelidade a galhofagem e o absurdo característicos dos quadrinhos direto para as telinhas. What’s Past Is Prologue comemora o marco histórico mesclando o tradicional formato do clip show televisivo a uma trama que não soaria fora de lugar em um volume especial de aniversário ou em uma boa edição anual.

Utilizando-se de uma premissa básica, acompanhamos Barry (Grant Gustin) e Nora (Jessica Parker Kennedy) em uma viagem pelo passado da série, com visitas breves a momentos-chave de nossa cronologia servindo para proporcionar altíssimas doses do que a presente temporada tem feito de melhor: fanservice na forma de referências internas visando recompensar os espectadores de longa data.

A preparação para a aventura é, sem dúvida, seu ponto mais fraco: a missão de resgate de materiais através do tempo abusa do poder de suspensão de descrença do espectador ao sugerir que a forma mais segura de que nossos velocistas  dispõem para enfrentar o recém-desmascarado Cicada (Chris Klein) depende de micro-interferências em momentos-chave da já conturbada cronologia da série.

Tão ridícula quanto deliciosamente alinhada às premissas divertidas estabelecidas da série, a coisa funciona mal não tanto pela ideia em si quanto pela execução. Com ares de roteiro de videogame licenciado, a quest principal que envolve forjar um dispositivo anti-Cicada convenientemente se divide em várias sub-quests que revisitam alguns dos momentos decisivos da trama — um em cada ano da série, excedendo a mais recente 4ª temporada cujos efeitos estão mais diretamente ligados à origem do vilão. O plano é concebido em tempo recorde, dispensando até mesmo o Método Iris de Resolução de Problemas por Associação Livre® em favor de uma ideia instantânea sobre um dispositivo capaz de anular a adaga de Cicada. O diálogo expositivo é desinspirado e sem nuance, e serve apenas para colocar nossa dupla de protagonistas o mais rápido o possível na estrada do tempo.

Por sorte, a viagem em si deve propiciar bons momentos para todos aqueles que, como eu, se divertiram e se apegaram ao longo do trajeto dessa versão do Velocista Escarlate, independentemente de suas falhas e insuficiências óbvias. A escolha em centrar o capítulo em Barry e Nora é bem acertada, fazendo a ponte entre o núcleo narrativo da série e o futuro inexato que, desde o primeiríssimo momento, marcou a origem e os arcos principais dessa iteração.

O capítulo faz desfilar, como chefes de cada sub-quest, os principais big bads da série até aqui. Com a exceção do recente Pensador (que marca presença apenas apresentando sua origem), todos os outros grandes inimigos do Team Flash dão as caras aqui: Savitar (ugh), Zoom e Flash Reverso fazem suas aparições matando a saudade dos fãs e mostrando para Nora em primeira mão alguns dos eventos dos quais ela apenas ouviu falar (será?).

O esforço é facilitado pela conveniência de que dois deles (Flash Reverso e Savitar) são interpretados por membros do elenco regular da série, bastando que Teddy Sears retornasse para interpretar sua excelente versão de Hunter Zolomon para que tenhamos uma galeria de chefões de respeito. Mais do que qualquer outra coisa, a retrospectiva de vilões me fez pensar no quanto um bom oponente é determinante para o sucesso das tramas. O que, por sua vez, aponta para uma sensação — velha conhecida deste que vos escreve e de nossos leitores sensacionais aqui da página de que temos tido retornos decrescentes no que compete à qualidade e boa exploração de nossos antagonistas.

Savitar é um vilão terrível, uma mancha na continuidade da série. A visita ao vilão trevoso é rápida e a produção perde a chance de maquiar o Grant Gustin e tentar criar ao menos um momento memorável do caricato antagonista — mas talvez tenha sido melhor assim. Quando nos encontramos com Zoom, a diferença se faz sentir. Mesmo com as falhas de uma 2ª temporada inconstante, Zoom foi muito bem realizado em tela, tanto em sua versão humana por Sears quanto na versão monstruosa dublada por Tony Todd. Zoom marca presença como a ameaça tangível e carismática que foi, e o roteiro faz bom uso dele, embora a falta de explicitação dos efeitos da ação dos ceifadores do tempo possa confundir os menos atentos às regras de viagem temporal deste universo.

Porém, é voltando a revisitar os elementos da saudosa 1ª temporada que a viagem ao passado realmente consegue dar seu recado nostálgico com precisão. Tanto a visita redobrada a Harrison “Thawne” Wells em Flash Back quanto o retorno ao episódio piloto nos fazem lembrar de épocas em que o seriado trazia ameaças mais orgânicas e bem construídas, com o benefício da novidade e da originalidade do conjunto.

O mérito aqui recai em grande parte, obviamente, ao patrimônio tombado da série, Tom Cavanagh. Sua encarnação do Flash Reverso consegue não apenas eclipsar todos os outros supervilões que coestrelam o capítulo, como garante também que a ausência de Matt Letscher como a forma original de Thawne mal seja sentida. Porém, para sermos precisos, não é apenas Cavanagh o segredo do sucesso do vilão: o Flash Reverso da primeira temporada foi um antagonista muito bem construído também pelos roteiros, que se aproveitaram de diversos arquétipos frequentes nos quadrinhos — o vilão disfarçado de mentor, o paradoxo temporal, a troca de corpos, a ligação secreta do arqui-inimigo com a história de origem do herói.

Atuação nenhuma seria capaz de, sozinha, garantir a eficácia desta ameaça. As temporadas seguintes tiveram dificuldades em delinear tramas na mesma altura e vilões com o mesmo nível de nuance, redundando em tentativas de sucesso variável em recriar elementos que funcionaram para esse big bad inicial. Com isso, os encontros com o Wells original são, previsivelmente, os pontos altos do episódio — embora a revelação final, telegrafada a anos-luz de distância, não traga grande impacto e confunda em termos de cronologia, é difícil não se empolgar com a perspectiva de Cavanagh de volta como Flash Reverso, e com uma trama legitimamente inesperada para Nora. Como sempre, investir em mistérios faz a trama depender do quão interessante serão as revelações ao final — ficamos no aguardo e na torcida.

Mais do que o próprio Gustin, a grande estrela do episódio comemorativo é Cavanagh. Seus momentos contracenando com Gustin e Kennedy, bem como a interação com Cisco (Carlos Valdes) são as sequências mais memoráveis da aventura que, embora não traga muito de novo, revisita de maneira inspirada o passado da série. Dirigindo o capítulo e interpretando três personagens totalmente diferentes e cativantes a seu próprio modo, Cavanagh novamente se prova um fator criativo importantíssimo para o seriado, e seus esforços claramente concentram uma dedicação e empolgação autênticos que não raro se encontram ausentes nas produções da CW. Por mais que frequentemente fique abaixo do próprio potencial, The Flash merece ser festejada e o cativante show de nostalgia apresentado nesse centésimo episódio é a prova disso.

Como homenagem pouco pretensiosa e um tantinho desajeitada, What’s Past is Prologue consegue fazer justiça ao cargo comemorativo de centésimo capítulo das aventuras televisivas do homem mais rápido vivo. Com o combate contra Cicada servindo apenas de desculpa para a viagem nostálgica, a resolução acaba redundando em uma anticlimática descoberta de que a linha do tempo foi posta em xeque por nada (de novo!), seguida de um empolgante ataque de Nevasca (Danielle Panabaker) dando pistas dos encaminhamentos seguintes do arco de Cicada. Mas, antes disso, o crossover Elseworlds vem adicionar mais uma camada de loucura às vidas de nossos herois. E que venham os próximos 100 episódios de The Flash!

The Flash – 5×08: What’s Past Is Prologue — EUA, 4 de dezembro de 2018
Direção:
Tom Cavanagh
Roteiro: Todd Helbing, Lauren Certo
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Tom Cavanagh, Jessica Parker Kennedy, Hartley Sawyer, Chris Klein, John Wesley Shipp, Teddy Sears, Tony Todd, Lossen Chambers, Michelle Harrison
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.