Crítica | The Flash – 5X10: The Flash & The Furious

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

E lá vamos nós! O episódio dessa semana de The Flash exemplifica muito bem como se desperdiçar o momento de retorno do hiato para fisgar novamente os espectadores e oferecer fôlego novo para as tramas da alongada temporada. O início do capítulo já oferece os prenúncios da embromação: desperdiçando o gancho narrativo mais interessante deixado por What’s Past is Prologue, a sequência encaminha de forma pouco empolgante a conversa entre Thawne (Tom Cavanagh) e Nora (Jessica Parker Kennedy) no futuro, optando em deixar a trama em suspenso por tempo indeterminado. Retomar um cliffhanger de forma anticlimática não é nenhum pecado televisivo, mas em se tratando de um gancho planejado para perdurar por um mês no imaginário do público, a saída acaba sendo o começo de uma retomada preguiçosa para o seriado. Logo após, somos levados por uma sequência desajeitada de explicações mequetrefes para justificar a ausência repentina de um terço do elenco. Oh-oh, vai ser um daqueles, certo?

O que segue é um desfile de subtramas catatônicas, característico dos episódios filler da série. O roteiro tenta construir temáticas forçadas do zero, e lança ideias sem grande preocupação com seu desenvolvimento. Nunca se sabe qual subtrama será abandonada e qual se tornará a nova obsessão de algum membro do Team Flash, o que sabota a construção de tensão dramática ao longo da narrativa.

Após mais de 100 episódios sem demonstrar qualquer angústia a respeito de seus poderes (muito pelo contrário, inclusive), Cisco (Carlos Valdes) decide se tornar um defensor ávido da cura meta-humana. A premissa em si não é o problema, e inclusive se alinha bem com as motivações centrais do big bad da temporada, Cicada. O problema é a forma preguiçosa e forçada com que a subtrama tenta se erguer do nada em poucos minutos de tela. Posso estar enganado a respeito de Cisco (confesso que não me lembro de todas as viradas do personagem ao longo do tempo, que costuma ser um alvo preferencial desses dramalhões de última hora), mas o fato é que os diálogos preguiçosos não convencem em nenhum momento, resultando em um conflito sem peso entre ele e Caitlin (Danielle Panabaker) – o qual já se encaminha para uma resolução parcial ao final do capítulo.

No outro fronte, temos um dos julgamentos mais absurdos já retratados na história da televisão. Após o juiz cumprimentar a promotora de justiça e perguntá-la casualmente sobre o filho em meio à sessão, temos uma série de interrupções e irrompes dramáticos fora de lugar por parte das testemunhas e profissionais envolvidos. Cecile (Danielle Nicolet) mostra empatia em relação à  supervilã mequetrefe Maga do Tempo (Reina Hardesty). OK, e…? Minutos antes de dar seu depoimento como cientista forense, Barry (Grant Gustin) declara que precisa se ausentar para parar um simples roubo de carro, do qual nada parece indicar se relacionar com presença de qualquer “fator meta”. “É uma Lambrorghini!” – esclarece ele. OK Barry, nesse caso você está mais do que justificado! Após uma cena de perseguição mediana (que não fica à altura do trocadilho do título do episódio), Flash acaba sofrendo efeitos colaterais após atingir o carro infundido com meta-tecnologia.

Com o protagonista encarcerado e oficialmente fora de circulação, nosso foco recai sobre Nora e sua perseguição fervorosa em relação à Maga do Tempo. Cecile e Iris (Candice Patton) tentam mostrá-la que é preciso sempre se dar uma segunda chance e pegar leve com pessoas que criam tufões de relâmpagos sobre civis (“Um relâmpago é mais quente que a superfície do Sol!” é um dos contra-argumentos éticos de Nora. Meu Deus, o que eu estou assistindo?), mas Nora parece decidida a não dar trela para vagabundo, e quer ver a jovem arrependida no xilindró. Em meio a esse dramalhão preguiçoso, a coisa mais relativamente interessante é a supervilã estreante, Fantasma de Prata (Gabrielle Walsh), cujo superpoder é o uso de um meta-controlinho de alarme de carro. Quando isso é o ponto alto de seu capítulo, você está com problemas.

O intento central de todo esse martírio vai tomando forma no terceiro ato: no fim das contas, trata-se de mais um dos capítulos “lição do dia” para Nora, que decide enfim dar uma segunda chance a Thawne. Se o cliffhanger que mostrou o encontro dos dois sugeria que ela já estivesse agindo sob orientação do arqui-inimigo do Flash, tudo o que o capítulo faz é dar um enorme e desajeitado mortal carpado narrativo apenas para pousar exatamente no ponto em que tínhamos sido deixados da primeira vez: Nora age de acordo com os conselhos de Thawne. Ah, e Cisco e Caitlin vão desenvolver uma cura para os meta-humanos porque eles precisam de alguma coisa para fazer no restante da temporada… A única adição minimamente interessante é a de que Thawne se encontra não apenas preso, mas sim aparentemente aguardando sua execução. Tarde demais, The Flash!

Preguiçoso e redundante, The Flash & The Furious comete os crimes de desperdiçar o ótimo título em um episódio no qual o personagem titular mal aparece e de sub-utilizar um aparente protótipo do batmóvel que consiste em uma fusão entre uma caranga setentista, decoração em neon anos 2000 e um tablet genérico chinês. Isso sim deveria ter sido o foco de todo o episódio, ao invés da jornada de Nora em direção ao ponto de partida!

The Flash – 5×10: The Flash & The Furious — EUA, 15 de janeiro de 2019
Direção:
David McWhirter
Roteiro: Kelly Wheeler, Sterling Gates
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Danielle Nicolet, Tom Cavanagh, Jessica Parker Kennedy, Reina Hardesty, Gabrielle Walsh
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.