Crítica | The Flash – 5X12: Memorabilia


– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Talvez de forma mais clara do que em qualquer outro episódio recente, Memorabilia mostra o quanto The Flash é uma produção que acaba por se limitar mesmo quando desfruta de boas ideias para explorar. A premissa do capítulo é um prato cheio para o seriado: uma aventura que visita paisagens mentais investigando elementos diversos da trama super-heroica da temporada, além de trazer consigo uma bela dose de bagagem emocional de seus personagens centrais. O capítulo diverte e traz sua cota de revelações interessantes – porém, para cada uma delas, se fazem presentes de forma inegável alguns dos escorregões tradicionais da produção.

A cena inicial de patinação no gelo, por si só, já nos dá uma boa amostra do que esperar do restante do capítulo. Embora a premissa seja um enquadre interessante para nos mostrar nossos personagens em um momento de descontração (inclusive com Caitlin (Danielle Panabaker) ostentando um visual reminiscente ao da Nevasca dos quadrinhos), as interações acabam soterradas em um mar de diálogo expositivo nada orgânico. Após uma recapitulação redundante sobre o status atual do arco de Cicada, ficamos sabendo do desejo de Iris (Candice Patton) em realizar um upgrade em seu blog e transformá-lo em um jornal impresso tradicional (de fato é um universo fictício), comprando imóveis, maquinário e tudo mais no processo.

Se a culpa recai mais sobre os diálogos mal escritos ou sobre a interpretação morna da atriz é difícil dizer, mas o fato é que a coisa não convence muito, e o motivo de sua inserção aqui fica clara no desenrolar do episódio. Tal qual a busca pela cura metahumana de Cisco (Carlos Valdes), trata-se de um dispositivo de roteiro que descaradamente ocupa um personagem sem muito o que fazer com uma subtrama que o enlaça na trama central, mas não faz muito esforço para que tal desenvolvimento pareça minimamente espontâneo.

O grande “filé narrativo” do episódio é a tentativa de resgate psíquico de Grace (Islie Hirvonen), cuja logística fica a cargo do detetive mais viajado das infinitas Terras, Sherloque Wells (Tom Cavanagh). O figura descola um conveniente aparato que permite (via wireless!) o acesso à mente da garota em coma, e com isso temos a perspectiva de uma jornada ao estilo de A Origem. Com o acesso às memórias de Grace devendo ser feito em duplas, e com Sherloque tendo confessado que um dos efeitos colaterais do dispositivo é a visualização de memórias indesejadas do parceiro de resgate, a coisa parece ficar complicada para Nora (Jessica Parker Kennedy), que tem um certo segredo amarelo e veloz o qual pretendia deixar escondido no armário por mais tempo.

A premissa em si não traria nada de muito empolgante — além de ser um modelo explorado à exaustão, não é nem mesmo a primeira vez que o próprio The Flash se inclina à exploração de espaços oníricos, já que as visitas de Barry (Grant Gustin) à Força de Aceleração usualmente se utilizam desse mesmo dispositivo narrativo. O que há de interessante aqui, no entanto, é justamente a forma como a situação é montada para construir tensão em torno do segredo de Nora, e de quebra nos mostrando pela primeira vez um vislumbre de sua época de origem, ainda que indireto.

Ver finalmente o tão falado Museu do Flash montado em toda sua glória escarlate foi um dos pontos altos do episódio: que ele tenha sido montado no S.T.A.R. Labs e visitado por uma Nora fugitiva de casa são detalhes que ajudam a dar mais vivacidade para o passado da personagem, muito falado mas muito pouco mostrado. Para uma temporada que abraçou as auto-referências como parte integrante da narrativa, o cenário do museu é bastante promissor — com sorte, não terá sido a última vez que ele deu as caras.

No entanto, não contribuem para essas cenas os escorregões da produção em termos de polimento: a atuação fraca de Avionne Dean como a infante Nora, o cenário relativamente simplificado do museu (não há blurring de câmera nenhum que disfarce isso) e o fato de que a Iris do futuro é absolutamente idêntica à atual dão ares apressados para o que deveria ser um dos grandes momentos da temporada. Mas a culpa também recai sobre o roteiro: o impacto dramático da interessante revelação sobre a “memória falsa” de Nora acaba sabotado por mais diálogos ruins de nosso casal protagonista. Ao invés de explorar o sentimento da situação em si, Barry rapidamente já tira conclusões forçadas sobre o que aquilo significa a respeito do futuro e da vontade irresistível de Iris em fundar um jornal com um nome bastante específico. Brincar com prelúdios de eventos futuros pode ser interessante, mas não às custas da narrativa atual.

Do lado de Nora, revisitamos um pouco da já conhecida história de Grace, sem muitas revelações a respeito de seu passado. Explorando de forma explícita um paralelo já mais do que percorrido anteriormente entre as motivações paternais de Cicada e a saga atual da família West-Allen, a subtrama consegue surpreender com a revelação de uma Grace-Cicada futurista — nos indicando provavelmente uma batalha em duplas de pai e filha como parte da resolução do arco. O desenvolvimento é inesperado o suficiente para fazer valer a pena a revisitação da origem do vilão, e semeia premissas interessantes para o desenrolar futuro do arco. As sequências de ação desse setor também são notavelmente superiores ao combate mediano contra o espectro do Flash Reverso da outra seção, indicando de que maneira a priorização interna da produção afeta nossos resultados.

Mas nada melhor para provar esse ponto do que a nossa subtrama C envolvendo Cisco e Dibny (Hartley Sawyer) indo para um bar em busca de… alguma coisa. Feito o devido reconhecimento à coragem da produção em investir tanto na realização da piada envolvendo a banda “Sickada”, o restante da subtrama se arrasta de forma intragável, com uma solução via associação livre para um problema ligado à cura metahumana  como forma de coroar a obra.

Memorabilia tem lá seus momentos, e consegue até mesmo avançar a trama de Cicada de maneira surpreendente. Porém, ao executar ideias promissoras de forma desinspirada, o episódio acaba ficando aquém do próprio potencial, mostrando novamente que os problemas de The Flash se encontram muito além da sala de roteiristas.

The Flash – 5×12: Memorabilia — EUA, 29 de janeiro de 2019
Direção:
Rebecca Johnson
Roteiro: Sam Chalsen, Kristen Kim
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Carlos Valdes, Danielle Panabaker, Tom Cavanagh, Jessica Parker Kennedy, Chris Klein, Hartley Sawyer, Patrick Sabongui, Lossen Chambers, Victoria Park, Islie Hirvonen, Avionne Dean
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.