Crítica | The Flash – 5X13: Goldfaced, 5X14: Cause and XS

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Precedendo um hiato com ares de final de temporada (mas com quase metade dos episódios ainda pela frente), Goldfaced Cause and XS trazem ares familiares para o espectador que acompanha The Flash semanalmente. Chegamos à famosa “barriga” narrativa da temporada, onde o arco da vez começa a mostrar que não dá conta de se estender por tantas e tantas horas assim, e as coisas começam a progredir de forma lenta e com bastante repetição. A dupla bastante desigual de episódios exemplifica bem isso. Goldfaced é um filler que utiliza muito mal ideias interessantes e bons efeitos visuais, enquanto Cause and XS possuía potencial para ser um novo Enter Flashtime, mas acaba pecando com uma execução insuficiente.

5X13: Goldfaced

Barry Allen (Grant Gustin) e Ralph Dibny (Hartley Sawyer) se entreolham e prosseguem para invadir o galpão onde o grupo de assaltantes de Goldface/Áureo (Damion Pointier) está prestes a roubar uma impressora 3D que imprimirá orgãos necessários para salvar a vida de bebezinhos indefesos. Rob Zombie — Dragula arrebenta na trilha sonora como se estivessemos jogando Twisted Metal 4 há 20 anos atrás, e a dupla prossegue com uma sequência superproduzida do que mais parece uma partida de paintball ou laser tag. Nesse momento eu me pergunto: “Como foi que chegamos até aqui?”.

Mesmo sem levar em conta a ridiculeza da cena climática de ação, Goldfaced provavelmente consegue a façanha de trazer um dos textos mais fracos de toda a série até o presente momento. Não há praticamente nenhuma corrente dramática do episódio que convença minimamente como deveria: um show de atuações forçadas e diálogo mal escrito que mostra a série em sua pior forma, tanto na trama principal quanto nas secundárias.

A primeira delas parte de uma justificativa forçada para levar Barry e Ralph a uma missão de infiltração em um bando de contrabandeadores de tecnologia em busca de um aparelho necessário para o projeto da cura metahumana. Essa digressão — ao menos no papel — poderia até funcionar: o submundo do crime dessa versão de Central City tem carecido de ameaças recorrentes e a introdução de Goldface poderia complementar bem o que foi visto na temporada anterior a respeito da rede criminosa de Amunet Black. No entanto, o roteiro mal amarrado acaba por desperdiçar a atuação energética de Damion Pointier como o chefão do crime, pesando a mão na exposição catatônica das motivações e moralidade de nossos heróis e reciclando preguiçosamente a subtrama já bem explorada entre Flash e Homem Elástico e a questão de “os fins justificam ou não ou meios?”.

A introdução de Goldface como líder de uma operação de contrabando tecnológico subterrâneo na escala em que é mostrada aqui não faz nenhum sentido dentro do que foi mostrado em Central City até hoje. Mesmo que queiramos abrir espaço para isso, o fato de um oficial que frequentemente faz trabalho de campo pelo CCPD consiga ter se infiltrado na cara dura em uma estrutura como essa é ainda mais absurdo. Para coroar, o comportamento de Barry é estúpido do início ao fim: da tentativa de comprar todas as “armas anti-CCPD” (hã?) até sua virada estratégica se apresentando como um supervilão, temos um desfile de ideias boas muito mal executadas.

Na subtrama de Iris (Candice Patton), por sua vez, temos o prosseguimento igualmente desinspirado de seu projeto em fundar o próprio jornal. Após se chatear com um hilário review completo de seu conteúdo jornalístico (isso existe?), ela decide investigar Cicada (Chris Klein) para garantir aqueles cliques marotos e botar seu veículo de mídia para funcionar a tempo de noticiar o desaparecimento do Flash na vindoura Crise. A infiltração malfadada no apartamento do vilão acaba totalmente sabotada por dois fatores: a atuação de ambas as partes envolvidas e o parcelamento da cena ao longo do episódio. Tanto Patton quanto Klein entregam atuações robóticas e forçadas, enfatizando um roteiro que não traz qualquer nuance a respeito da situação da repórter. A virada de Iris sobre o vilão acaba sendo um dos poucos momentos memoráveis de todo o capítulo, mas tem ares anticlimáticos após ser pulverizada por entre as cenas da trama principal.

O outro elemento que por vezes acaba sendo interessante é a introdução de uma Srta. Adler para o Sherloque de Tom Cavanagh, subtrama que acaba atuando como um show à parte do sempre inspirado ator. A ideia é divertida e tem potencial ao menos para servir como um alívio cômico interessante, mas acaba igualmente mal executada ao pesar a mão nos roteirismos e por fim se degenerar em “Nora West-Allen (Jessica Kennedy Parker) oferece conselhos românticos a Sherloque Wells”. Quando nem Cavanagh salva, é porque a coisa está feia, mesmo!

5X14: Cause and XS

Cause and XS tem uma premissa geral redondinha, e tinha potencial para talvez ser o grande destaque da temporada até aqui. Tirando o Flash de cena, a trama coloca no colo de XS a resolução de um impasse envolvendo a morte de um membro da equipe e a capacidade limitada de alteração da linha do tempo por parte dos velocistas. O fato de que Cicada possui a habilidade de anular os poderes e ferir mortalmente os metahumanos é bem aproveitado, e a situação poderia ser convicente mesmo que necessitasse de uma boa dose de suspensão de descrença para se desculpar as limitações inevitáveis de se trabalhar com uma narrativa do tipo.

Até mesmo Cisco (Carlos Valdes), que tem sido mal servido com o que ainda me parece uma virada forçada e descaracterizada no personagem, ganha a chance de vivenciar o ciclo de repetições através de seu poder único e, ao mesmo tempo, explorar a situação de forma comédica. Para completar, o capítulo contou ainda com os talentos diretoriais de Rachel Talalay, que ao menos conseguem ser melhor empregados aqui do que no fraquíssimo Fury Rogue.

Mesmo com tudo isso atuando a seu favor, o episódio acaba pecando justamente por não conseguir se centrar nos seus aspectos mais interessantes. Para começo de conversa: a justificativa para que Barry tenha que se isolar na Força de Aceleração por uma hora é armada de forma preguiçosa. Sendo que em questão de minutos teremos uma velocista voltando no tempo por dezenas de vezes, por que não é sequer citada a possibilidade mais simples de um dos velocistas se deslocar um mês no futuro para buscar o composto já devidamente sintetizado? Claro que é possível se “explicar” isso com n roteirismos — mas é importante que isso seja feito, ao menos no sentido de criar uma consistência interna no próprio episódio. Entrar na Força de Aceleração é algo muito mais arriscado e imprevisível do que outras inúmeras tentativas possíveis, as quais sequer são consideradas para que as coisas se alinhem conforme a necessidade da trama.

O “pega-pega” de Cicada com o Team Flash e aliados também é montado de forma um tanto solta. Claro que o que interessa aqui é passar a ideia da imprevisibilidade das pequenas transformações que as alterações na linha do tempo são capazes de causar (algo que poderia ser estabelecido, por exemplo, rejeitando a ideia de se ir até o futuro para buscar o composto pronto), mas no final das contas a montagem das viagens de Nora acaba apresentando -a de forma desnecessariamente despreparada. Nas primeiras viagens, a construção de tensão é orgânica e podemos compreender que se trata dela tentando conseguir cumprir a promessa de se virar na ausência rápida do pai — mas cinquenta e duas tentativas sem mencionar nadinha para nenhum dos heróis mais experientes do Team Flash?

Quero dizer: a ideia é boa e a realização não deixa a desejar nos primeiros ciclos, mas a repetição de tentativas simplesmente não convence tanto, o que se explica pelo fato de que o desfecho do episódio simplesmente…ocorre! Confiando em si mesma e em seus amigos, Nora consegue deixar Cicada (novamente) ao chão antes de (novamente) sair convenientemente de cena até a próxima batalha inconsequente, tal qual um chefe recorrente de videogame. Temos um roteiro que se pensa até um ponto, mas com o qual não se teve o trabalho de refinar minimamente uma solução que fizesse sentido.

A sequência final de ação é bastante empolgante visualmente (embora um tanto confusa), mas não amarra suficientemente bem a diferença que o estudo dos ciclos mal sucedidos por parte da equipe teve no planejamento da batalha. Apenas com a ajuda de Cisco, Nora teria sido capaz de ter o mesmo efeito, não? Para uma velocista que vai até 2049 como se fosse a padaria da esquina, a forma como ela apanhou do lançamento de adaga de Cicada simplesmente não convence o suficiente — algo que poderia ser facilmente remediado com um roteiro que se preocupasse em estabelecer concretamente alguma limitação para as viagens temporais da velocista (caso ela fosse conseguindo se distanciar cada vez menos do ataque de Cicada, por exemplo). Sem contar que os visuais para a reversão temporal de XS foram tão bacanas — a produção tinha a faca e o queijo na mão e acabou faltando na frente do roteiro.

Enquanto Enter Flashtime tomou seu tempo para estabelecer regras e explorar a ficção científica por trás das capacidades de manipulação temporal dos velocistas, Cause and XS acaba ocupando-se demais com a subtrama romântica de Cisco e com a perspectiva motivacional de XS em detrimento de se desenvolver nesse sentido. O atalho cobra seu preço: embora seja certamente uma das entradas mais divertidas e memoráveis da temporada, é um roteiro que tem dificuldade para sobreviver a alguns questionamentos básicos, vendendo a morte repetida dos membros do Team Flash de forma um tanto superficial e telegrafando desde o início a possível resolução da situação. Infelizmente, acaba sendo a mesma de sempre: Cicada vai embora à la “Desculpe Mario, mas a princesa está em outro castelo!”. Um pouquinho de consequência não iria mal — mas afinal de contas ainda é “cedo”, já que são 23 episódios para se preencher…

The Flash – 5×13: Goldfaced e 5×14: Cause and XS — EUA, 5 de fevereiro de 2019 (5×13) e 12 de fevereiro de 2019 (5×14)
Direção: 
Alexandra La Roche (5×13), Rachel Talalay (5×14)
Roteiro: Jonathan Butler & Gabriel Garza (5×13), Todd Helbing & Jeff Hersh (5×14)
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Carlos Valdes, Danielle Panabaker, Tom Cavanagh, Jessica Parker Kennedy, Chris Klein, Hartley Sawyer, Victoria Park, Kimberly Williams-Paisley, Damion Poitier
Duração: 43 min. (cada)

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.