Crítica | The Flash – 5X16: Failure is an Orphan


– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Quem poderia imaginar que o combate nada aguardado de King Shark vs. Gorila Grodd poderia ter dado origem a um episódio mais redondinho do que o momento-chave em que a trama principal desta 5ª temporada finalmente daria um passo à frente? Pois é, ao menos não podemos dizer que andamos sem surpresas em The Flash — essa aí certamente foi mais inesperada do que a revelação final a respeito da identidade da segunda Cicada, que já havia sido revelada de forma praticamente explícita alguns episódios atrás. Ou eu perdi alguma coisa?

Partindo de uma premissa assumida de “vamos chacoalhar essa trama do Cicada que ninguém aguenta mais essa enrolação!”, o cold opening do episódio vai na linha do preview da semana passada e nos provoca com a chegada iminente de uma ameaça muito mais aterrorizante do que o já banalizado serial killer de meta-humanos. Vindo da boca de ninguém menos que nosso arqui-inimigo principal da série, o aceno a respeito de “algo grande por vir” evoca propositalmente a chegada de uma ameaça velocista. A perspectiva empolga somente na medida em que promete algo de novo na frente principal da temporada, que já partiu para a arrastação total após as inúmeras fugas de Orlin Dwyer (Chris Klein) das garras ineptas do Team Flash.

Com a real natureza da missão de Nora Allen (Jessica Parker Kennedy) e sua ligação com o Flash Reverso cada vez mais próxima de vir à superfície, abordar o momento decisivo do combate contra Cicada é uma boa ideia para manter o que resta de pique para a temporada nesse momento, garantindo inclusive uma boa cota de subtrama dramática ligada à partida iminente de Nora de volta para seu tempo de origem.

Com isso, causa ainda mais estranhamento a opção do roteiro em redobrar a carga dramalhona do capítulo em mais duas linhas narrativas do tipo: a cooperação entre Joe (Jesse L. Martin) e Cecille (Danielle Nicolet) (história até bacana como subplot, mas que parece entrar tarde demais na jogada) e a “guerra dos discursos motivacionais” que Barry Allen decide declarar contra o serial killer.

Enquanto a primeira consegue ao menos se desdobrar de forma convincente na aproximação à Dra. Ambers (Lossen Chambers), avançando a linha principal, a subtrama de Barry é tragicômica. Fica claro aqui um dos motivos da produção ter materializado do nada a questão sobre liberdade de escolha a respeito da cura no episódio anterior: mais do que simplesmente reciclar um ponto de personagem de duas temporadas atrás, a ideia era forçosamente atar as mãos do Team Flash no que tange a parar Cicada com o uso da violência, nos colocando na situação simbólica em que o Flash deve salvar o mundo com seus discursos motivacionais.

Não há piadas auto-referentes a respeito do tema que possam salvar o roteiro de uma virada tão preguiçosamente desinspirada quanto colocar nossos heróis pesquisando o catálogo de discursos motivacionais do Flash em busca de algo que possa funcionar com Cicada. Chegamos nesse ponto, literalmente! É uma pena que, em termos de interações entre os personagens, o capítulo traga ótimas cenas, já que elas acabam um tanto desperdiçadas em um contexto de tentativa falha de construção de tensão. Tanto as interações entre Barry e Joe quanto (até mesmo!) entre Iris e Nora trazem momentos convincentes de personagem, mas as peças simplesmente não se encaixam muito bem em torno da tentativa desajeitada de convencer Cicada.

Em primeiro lugar isso se deve em grande parte à atuação terrível de Klein. Sua vilania cartunesca funciona ainda menos sob as luzes fortes do S.T.A.R. Labs do que quando ele ao menos tem uma máscara e baixa iluminação para se atenuar os exageros teatrais. A revelação de identidade de Barry é mais uma tentativa de mensagem otimista pouco sustentada pelo roteiro em si, assim como toda a sequência que se segue em que o vilão é conduzido e apresentado aos aposentos de nossos heróis, como se a situação entre eles fosse tão fácil de ser resolvida assim. Literalmente a trama de Orlin é “resolvida” sob um pretexto a la “Minha mãe também se chama Martha!”, com Barry tirando a máscara para declarar que ele também tem uma filha e sabe como é difícil protegê-la nesse mundo de meta-humanos (“Aliás, sua filha adotiva também é uma, viu?”).

Essa mistureba de dramas mal delineados embalados por uma trilha sonora exagerada felizmente desemboca em um resultado interessante aos 45″ do segundo tempo com a chegada da “Cicada 2.0” (Sarah Carter). OK, pode não ser o  velocista que nos foi prometido nas entrelinhas — mas potencialmente se trata de uma enviada dele, certo? A chegada da vilã propicia uma excelente sequência de ação (a segunda do episódio, que já trouxe um conflito bacana contra o patético Acid Master), que evolui na destruição dramática do laboratório e no inesperado assassinato da Dra. Ambers. A partir daí, a trama de Cicada finalmente avança para uma território mais imprevisível e interessante — mas custo de que floreios indevidos de roteiro?

Failure is an Orphan tinha a oportunidade de encaminhar o conflito com o primeiro Cicada de forma bombástica e envolvente, mas alinhou suas peças por tempo demais em torno de uma “guerrilha dos pep talks“. A ameaça da nova Cicada empolga por ser um desenvolvimento bom da narrativa, ou simplesmente porque, em contraste com o fraco encaminhamento da história recentemente, finalmente temos algo que melhor se assemelha a um senso de urgência envolvendo nosso big bad da temporada?

P.S.: Mas então, eles realmente acham que a revelação de que a Cicada 2.0 é na verdade Grace deveria ser uma surpresa para alguém?

The Flash – 5×16: Failure is an Orphan — EUA, 12 de março de 2019
Direção: Viet Nguyen
Roteiro: Zack Stentz
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Carlos Valdes, Danielle Panabaker, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Jessica Parker Kennedy, Danielle Nicolet, Lossen Chambers, Chris Klein, Sarah Carter
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.