Crítica | The Flash – 5X17: Time Bomb


– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Time Bomb é o ponto de virada bombástico (com o perdão do trocadilho) que o alongado arco de Cicada vinha pedindo desde que foram lançadas as suas bases narrativas principais, lá no já distante comecinho da atual temporada. Trazendo uma sequência de eventos empolgantes que alinham alguns dos principais protagonistas dessa nossa trama principal, o episódio finalmente começa a trazer algum senso de payoff para o imbróglio Cicada/XS. O problema é que, como já aconteceu antes no seriado, esses desenvolvimentos chegam tarde demais.

A “passagem de tocha” de Orlin (Chris Klein) para nossa nova Cicada, a Grace (Sarah Carter) do futuro, consegue ser dramática e se utilizar bem das subtramas de viagem temporal que deram origem à saga para inserir um plot twist muito interessante no conceito do vilão. O assassinato dramático da Dra. Ambers no episódio anterior adquire um novo significado aqui, quando temos a confirmação de que se tratou de uma retaliação da vilã futurista contra a “traição” da médica em curar seu tio. No papel, toda a ideia de fazer de Grace uma Cicada futurista formada pela absorção quase subconsciente do ódio das confissões de seu tio insano no seu leito do hospital é realmente um conceito excelente. Trata-se de um spin interessante na clássica “passada de manto” que costumamos ver em quadrinhos de super-heróis, com a vantagem de fazer de Cicada essa figura vilanesca que surgiu de uma série de tragédias sem culpado, e uma ideia maléfica que sobrevive forte até mesmo ao seu “criador” original. Mas isso é só no papel.

Em tela, a história é outra: Carter parece ter herdado do lado do tio Klein o talento para atuação exagerada e descentrada, trazendo um show de vilania caricatural que é demais até mesmo para o tom mais colorido e descontraído do seriado. Não que o material favoreça a dupla: para uma produção sempre vidrada em explorar os pormenores emocionais de seu elenco, a reação de Dwyer frente aos eventos recentes é explorada da forma mais rasa possível. Não nos é apresentado em nenhum momento de que forma a cura alterou sua psique, e sua reação à chegada da versão futurista de sua amada sobrinha é recebida de forma quase blasé pelo cara, que em um episódio passa de big bad da temporada a um papel coadjuvante de choramingar com cara de sofrimento atrás da jovem.

Essa transformação sabota um pouco o impacto de seu assassinato pelas mãos do monstro que ajudou a criar, e sepulta Dwyer como um dos vilões recorrentes mais mequetrefes de todo o seriado até aqui. Se encontramos tempo de tela para uma subtrama patética envolvendo Cisco (Carlos Valdes) e Dibny (Hartley Sawyer) em torno do novo status de relacionamento do primeiro, certamente tínhamos tempo para explorar melhor o conflito entre os dois Cicadas e nuançar um pouquinho melhor esse Dwyer arrependido antes de eliminá-lo da trama.

A outra frente narrativa de destaque é o desfecho da trama de Nora (Jessica Parker Kennedy) e seu segredo podre envolvendo um certo velocista com preferência por tons amarelados em sua fantasia. O embate distante entre Sherloque (Tom Cavanagh) e seu doppelgänger vilanesco tinha potencial para ser um dos pontos mais interessantes da temporada, mas acabou perdendo força com a pulverização da trama ao longo da interminável enrolação sem compasso. O caso é muito semelhante ao que eu comentei sobre os Cicada: a ideia desse Eobard Thawne futurista manipulando os eventos da linha do tempo — de dentro do corredor da morte! — através de uma bizarra linguagem da Força de Aceleração é muito interessante. É o tipo de ficção científica extravagante que se espera da série, pecando talvez somente por cair na tentação em recorrer ao vilão mais memorável da produção ao invés de tentar criar algo realmente novo.

A execução, no entanto, não tem feito jus ao potencial da premissa. Longe de decepcionar no mesmo nível do desenvolvimento de nossos vilões da temporada, o fato é que o dilema de Nora é telegrafado sem nenhuma inspiração que não “segurar a revelação até os momentos finais do episódio”. O roteiro tem a cara de pau de inclusive reunir todo o elenco na sala de comando para efeito dramático barato (destaque para os shots de olhares descrentes nível Televisa!). A reação do Team Flash é exatamente a esperada, e ficamos no aguardo a respeito dos discursos motivacionais que tirarão a família West-Allen de mais essa cilada emocional. Muito mais interessante seria aproveitar-se da dinâmica diferente que foi estabelecida entre Nora e cada um dos membros do Team Flash, e explorar algum tipo de cisão interna a respeito da garota.

Até acho que temos tempo pra isso acontecer – particularmente gostaria de ver Iris (Candice Patton) tomando o partido da filha na tentativa de entender melhor o seu lado da situação. Porém a questão permanece: será que era necessário fazer essa revelação coletiva de forma tão anticlimática assim, apenas para cumprir o passo de formiga da temporada? E, novamente: tivesse o desmascaramento de Nora por Sherloque acontecido quando a revelação a respeito dela trabalhar com Thawne era ainda recente, o impacto dramático provavelmente aterrissaria melhor.

Ao menos a subtrama da busca por vingança da Cicada 2.0 dá a oportunidade de termos boas sequências de ação envolvendo os nossos velocistas tentando correr mais rápido do que a faquinha supersônica drenadora de poderes. Toda a temática da cura metahumana é até bem trabalhada na história da morte acidental dos pais de Grace, e pelo menos ressoa bem os temas principais da temporada. No entanto, continuo a achar que essa trama da cura não combina nada com a premissa e ambientação de Flash.

Com tanto potencial para explorar viagens temporais e dimensionais (e mesmo plots divertidos envolvendo nossos heróis correndo mais rápido do que facas arremessadas ou botando um tubarão pra brigar com um gorila no meio da cidade), essa história de importar nas coxas umas tramas típicas de X-Men cheira a pura enrolação da parte da equipe criativa. Não é por menos que tanto Heroes quanto a trilogia original dos mutantes chafurdaram-se em histórias malfeitas de “cura mutante” exatamente nos pontos em que a narrativa geral começou a ir mal das pernas. É um prato cheio para temáticas morais fáceis e deus ex machinas no que diz respeito aos combates super-heróicos.

Time Bomb não é um episódio ruim. Ele consegue entreter quase do início ao fim – exceto pela subtrama romântica sonífera de Cisco. Porém seus grandes trunfos narrativos teriam sido muito mais impactantes se tivessem chegado literalmente uns 10 episódios atrás. A virada da Cicada futurista sobre o atual não empolga tanto quando a imagem deste último já foi totalmente arrastada na lama pelo pega-pega sem fim. O segredo de Nora vem à tona quando já não é mais novidade, assim como o xeque-mate de Thawne perderá muito do momentum por tomar tempo demais nos ensaios. Ainda assim, fica a expectativa que a partir dessas mudanças a história retome o fôlego para sua reta final!

The Flash – 5×17: Time Bomb — EUA, 19 de março de 2019
Direção: Rob Greenlea
Roteiro: Kristen Kim, Sterling Gates
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Carlos Valdes, Danielle Panabaker, Hartley Sawyer, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Jessica Parker Kennedy, Danielle Nicolet, Chris Klein, Sarah Carter, Victoria Park
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.