Crítica | The Flash – 5X20: Gone Rogue

– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

De todas as formas com que se poderia dar sequência narrativa à morte do pai de Caitlin (Danielle Panabaker) e à aparente virada de Nora (Jessica Parker Kennedy) para o lado negativo da Força, o episódio desta semana de The Flash opta por iniciar com uma cena padrão de “busca por fulano” no S.T.A.R. Labs, que começa apática e sonífera e termina com uma piada envolvendo a não-compreensão de Sherloque (Tom Cavanagh) sobre emojis eróticos. “O pai da Caitlin acabou de ser assassinado” → “emojis eróticos”. Não sou só eu que noto que a série não sabe muito bem escolher entre a hora de explorar o humor e a hora de mergulhar no drama, certo?

Essa inconsistência aparece por todo o desenvolvimento subsequente do capítulo. Para uma produção que gosta de jogar os holofotes sobre os dramas pessoais de personagens que passam batom roxo e vestem couro para denotar que ficaram maus, The Flash é absurdamente míope para reconhecer oportunidades realmente interessantes para fazê-lo. A primeira metade de Gone Rogue consiste nos vinte minutos mais longos de televisão que eu devo ter assistido nos últimos anos — e a culpa é justamente da surdez tonal com a qual a série explora o conflito familiar de Barry (Grant Gustin) e Iris (Candice Patton) com sua filha fugitiva.

Eu penso que Nora foi um personagem que funcionou razoavelmente bem ao longo da primeira metade da temporada. Quando seus motivos eram ainda misteriosos e sua relação com os pais trabalhada de forma (relativamente) mais sutil, a personagem despertava no mínimo curiosidade e no máximo alguma ressonância emocional interessante. Quem é capaz de dizer que, ao menos em teoria, a história da garota fã do Flash que cresceu sem saber que o Velocista Escarlate na verdade era seu desaparecido pai não valeria a pena ser explorada? O problema é que, com o avanço soluçante da trama de Cicada, a personagem foi carecendo de qualquer exploração mais interessante e gradativamente retraindo-se em uma caricatura total do conceito: virou apenas “a filha pirralhenta do Flash”.

Assim como a série conseguiu anteriormente a façanha de transformar Wally West em um porre de um “Barry Allen-wannabe“, a XS atual não traz nem sombra do potencial inicial da personagem, reduzindo-se a uma adulta que se comporta como adolescente e age segundo os interesses de garantir subtramas B genéricas (por exemplo, tornando-se “vilã por um dia”) ou arrastando um conflito de temporada que já deu o que tinha que dar há pelo menos dez episódios (como responsável indireta pela mudança na história de Cicada). Todo o conflito dela com Barry é tragicomicamente ruim: atuações péssimas de ambos os lados não escondem a total fraqueza do roteiro, uma troca burocrática de birras digna de causar vergonha alheia até ao espectador mais vacinado para esse defeito recorrente da produção.

A “maldade” de Nora retratada aqui não é “cartunesca” no bom sentido, de recriar um pouco o charme exagerado e galhofeiro dos quadrinhos clássicos, por exemplo. A série está cheia de bons exemplos dessa abordagem, porém não apenas ela não consegue ser feita aqui como a própria premissa não cabia muito para o momento atual do arco de temporada. Nora como parte de uma “Galeria Jovem” poderia ter funcionado lá na primeira reta de episódios, como break narrativo divertido e interessante. Ou então, caso a ideia fosse se estender na premissa, não apenas caprichando melhor na caracterização dessa virada de Nora para o “lado negativo”, como também trabalhando por mais tempo e com mais nuances sua relação de confiança com as supervilãs retornantes. Não é a toa que a quebra do laço de confiança estabelecido com a Maga do Tempo (Reina Hardesty) não tem impacto nenhum — foi tudo tão breve, superficial e previsível, por que haveriamos de nos importar?

Por sorte, algumas das figuras mais periféricas conseguem segurar as pontas e carregar nas costas uma segunda metade do episódio mais assistível, heroicamente elevando-o do fundo do poço ao plano da completa mediocridade. A fuga de Sherloque e Cisco (Carlos Valdes) é bem divertida, mesmo com o comportamento um tanto irritante do segundo, que também parece passar por um processo de auto-caricaturização do personagem,metralhando piadas e gracejos forçados e fora de lugar. Sherloque se passando por Barry é um ponto interessante do episódio, e o único minuto em que Gustin desenterra alguma emoção soterrada sob sua constante expressão de sofrimento moderado.

O conflito de três vias com a Maga do Tempo e a “Moça das Abelhas” (Emily Kinney) também empolga, e a reunião de Flash e XS em flashtime consegue a façanha de empolgar após tamanhos maltratos aos personagens em questão. Por fim, mesmo que venha a manchar levemente a reputação inimpugnável do vilão mais genial da temporada, o conflito entre os West e o Boneco de Pano (Troy James) também é um momento bacana, que faz entrever o potencial que subtramas com os vilões B poderiam ter caso o planejamento de temporada fosse feito com o mínimo de cuidado. No entanto, enquanto falamos do elenco de apoio, não me façam pensar na subtrama de Caitlin — por mais que ela se inicie de forma bacana com Dibny (Hartley Sawyer) sendo absolutamente adorável e tudo mais, a coisa não apenas não dá em nada como desanda para um lance patético de auto-paródico. “Meu pai morreu, mas e aí você não tá pensando em desencalhar não?”. Vamos lá, né gente!

Como tem sido tradicional na temporada, o que salva Gone Rogue da total excrescência são algumas das cenas de ação e a virada empolgante do Team Flash sobre o assalto mal sucedido da Galeria Jovem. Com os personagens centrais sendo arrastados na lama por um dramalhão desinspirado, resta apenas curtir os elementos mais bacanas da ação em tela e torcer pelo menos por um embate satisfatório contra o Flash Reverso no final de temporada. A coisa desandou feio, e a cena final do episódio encerra de forma tão absurda quanto a abertura esse capítulo de mais um momento de baixa para The Flash: quando achávamos que estávamos livres da mastigação de cenário de Chris Klein, o cara volta como ilusão para nos dar a graça de mais uma entrega terrível de linhas. É chorar pra não rir!

PS:

Cenas com o Boneco de Pano: 

The Flash – 5×20: Gone Rogue — EUA, 30 de abril de 2019
Direção:Kristin Windell
Roteiro: Sam Chalsen, Joshua V. Gilbert
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Carlos Valdes, Danielle Panabaker, Hartley Sawyer, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Jessica Parker Kennedy, Danielle Nicolet, Sarah Carter, Emily Kinney, Reina Hardesty, Troy James, Chris Klein
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.