Crítica | The Flash – 6X08: The Last Temptation of Barry Allen, Pt. 2

  • Há SPOILERS destes episódios e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Colocar as duas partes de The Last Temptation of Barry Allen lado a lado pode ser uma forma bem eficiente para entender a diferença entre uma premissa bem explorada e o show de preguiça que, infelizmente, se tornou norma para a produção. Mantendo a comparação que fizemos antes, essa “mini-saga” pode ser vista como um tie-in inspirado para o evento anual do Arrowverse, que desta vez não pretende nada menos do que realizar uma versão televisiva da Crise nas Infinitas Terras. Até aí, tudo bem: a parte anterior não só foi o melhor episódio da temporada até então, como mostrou como é possível fazer uma exploração temática de um elemento narrativo “externo” (no caso, a morte anunciada do Flash) sem cair na redundância. Mas isso não veio de graça. Embora no papel a coisa funcionasse muito bem, a boa execução em tela foi essencial para entregar um episódio que, como comentado aqui pelos leitores, nos fez sentir envolvidos com a série como não acontecia há muito tempo.

A ideia de construir Bloodwork/Hemoglobina (Sendhil Ramamurthy) como um supervilão específico para explorar o elemento narrativo da crise de fé e do confronto de Barry (Grant Gustin) com sua morte deu mais certo justamente nos momentos em que a produção deixou de lado seus dois vícios principais — o excesso de dramalhão forçado e uma fé inabalável no poder do diálogo expositivo — e resolveu simplesmente se divertir com seus personagens em uma exploração da vertente do terror B. Por incrível que pareça, não é preciso intercalar minutos de pseudociência preguiçosa com discursos motivacionais para envolver o público com a premissa trash do personagem do Dr. Ramsey Rosso.

A boa direção de Chad Lowe, que sustentou a parte anterior com a mesma solenidade com a qual a Toei filma seus tokusatsu há mais de 50 anos, não encontra paralelo nesta sequência dirigida por Michael Nankin. O fato de que o episódio abre em uma longa sequência inútil de diálogo expositivo entre Cisco (Carlos Valdes) e Iris (Candice Patton) no S.T.A.R. Labs já serve de momento “Oh-oh” para o fã mais vacinado. Neste momento, pensei em linhas gerais: “Eita, espero que seja só um comentário, e que a coisa toda não seja sobre eles correndo pra lá e pra cá com cara de choro e discutindo se é possível o amor de Iris salvar o que resta da consciência de Barry dentro do Dark Flash…” Seguiu-se o episódio, que tratou especialmente deles correndo pra lá e pra cá com cara de choro e discutindo se é possível o amor de Iris salvar o que resta da consciência de Barry dentro do Dark Flash.

Explorar a premissa de uma Central City sitiada, no escuro e repleta de zumbis capitaneados por um zumbi velocista ou fazer um corta-e-cola de discursos motivacionais requentados e pseudociência preguiçosa — qual das duas ideias parece mais interessante? Alguns poucos momentos trazem o que restou da fagulha criativa do capítulo anterior, nos dando um sabor do que poderia ter sido uma boa segunda parte para a história. Com isso, acabam também sendo os momentos que carregaram nas costas o episódio para mim.

O primeiro deles foi o núcleo de Kamilla (Victoria Park) e Cecile (Danielle Nicolet), presas em um edifício sem luz e tendo que lidar (literalmente no escuro) com o ataque de Rosso. As tímidas sequências terroríficas convencem e são envolventes, com direito a um breve plano-sequência de perseguição que exemplifica o tipo de coisa que poderíamos ter explorado melhor. Mais uma vez: zumbi velocista, quer fórmula melhor para enrolar um terrorzinho barato por uns belos minutos divertidos de televisão? Ao invés de acompanharmos o Dark Flash arrebatando almas aterrorizadas pelas ruas, a versão do personagem acaba sendo explorada apenas como um péssimo vampiro caricatural que me fez lembrar de Os Mutantes, aquela novela da Record que era para ser o Heroes brasileiro mas que no final das contas se resumia a lobisomens e vampiros rangendo os dentes por entre a maquiagem de baixo custo. Esperava algo mais interessante da versão possuída do herói do que apenas ver o Grant Gustin tentando fazer cara de malvado com os dentes pintados de preto. Por que se limitar a explicar que o Flash está tocando o terror pela cidade, se poderíamos, sei lá, ver isso acontecendo?

O segundo deles, como se poderia esperar, foram as breves sequências de Nash Wells (Tom Cavanagh), que tem sua DR com o Monitor interrompida pelo apagão zumbi, e lida com a invasão ao melhor estilo badass. O show à parte de Cavanagh novamente salva o episódio — vamos entregar a série de uma vez para esse cara, que tal?

De resto, muito pouca coisa a se aproveitar. As sequências expositivas tentam tapar os buracos de um enredo em partes inexistente, a preguiça sendo tamanha que chega a se tornar um distrativo. São tantos dispositivos tecnológicos mirabolantes e trabucos futuristas genéricos tirados do nada que eu por vezes me sinto lendo a um quadrinho do Rob Liefeld!

No início do episódio, desperdiçamos o momentum do capítulo anterior para Cisco explicar que colocou para operar o tal “Protocolo Babel”, que isola totalmente o S.T.A.R. Labs de toda e qualquer forma de comunicação com o exterior. Segundo ele, uma invenção para o caso de o Flash algum dia (tornar a) se converter para o lado sombrio da Força de Aceleração. Uma blindagem capaz de manter fora o próprio Velocista Escarlate, certo? Exceto que, nos minutos seguintes, descobrimos que a bolha de isolamento não vale para: 1. sinais analógicos (!?); 2. o breacher dimensional portátil (odeio esse dispositivo e tudo que ele representa) e 3. os sinais digitais de som do breacher dimensional (com o portal já devidamente fechado). Ou seja, a comunicação em si não deveria ser problema, e todo esse paranauê foi construído apenas para criar suspense no momento em que Iris e Cisco devem decidir abaixar ou não as barreiras para Rosso entrar. Não faria mais sentido termos uma barreira de ondas UV erguida pela Allegra (Kayla Compton), já antecipando que ela era capaz de fazer frente à infecção de Rosso com seus poderes?

Já o artifício caído de “inventar um canhão milagroso de última hora que deve anular os poderes do vilão” me faz pensar: por que raios, afinal de contas, tiraram os poderes de Vibro? O atalho narrativo de literalmente teleportar personagens de uma cena para a outra continua a ser utilizado, tão toscamente quanto sempre foi, com o uso do bendito aparelhinho. E Cisco continua a tentar resolver as coisas com soluções absolutamente improváveis, como é o caso da “radioterapia a la Liefeld” com a qual ele nos presenteia desta vez. Não faria mais sentido unir esses elementos em torno do personagem utilizando seus poderes, cortando a “necessidade” desses trechos expositivos terríveis?

O combate final contra Rosso chega tarde demais em uma narrativa já cansada, e sua transformação em forma monstruosa pontua a opção da produção em dispensar o horror B em favor da vibe Power Rangers de sempre. Não entenda mal: sou totalmente a favor de termos um monstro sanguinolento gigante sendo espancado pelo nosso herói no climax do episódio. Eu assisto tokusatsu e defendo a qualidade e mérito do gênero para quem quiser ouvir! Mas essas coisas tem um timing, um ritmo e uma tonalidade certa para envolver e divertir, e infelizmente não é o que acontece aqui. Temos tempo ainda para um “momento Martha” mal construído entre Barry e Rosso, e de repente a coisa toda vai murchando até dar lugar a um preludiozinho dramalhesco para a Crise.

No final das contas, The Last Temptation of Barry Allen, Pt. 2 acaba sendo uma sequência totalmente mediana a um episódio excepcional, recaindo nas falhas de sempre e carecendo por inteiro do cuidado visto no capítulo anterior. Mais sorte para a Crise — vamos precisar!

The Flash – 6×08: The Last Temptation of Barry Allen, Pt. 2 — EUA, 3 de dezembro de 2019
Direção: Michael Nankin
Roteiro: Kristen Kim, Joshua V. Gilbert
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Carlos Valdes, Danielle Panabaker, Hartley Sawyer, Jesse L. Martin, Danielle Nicolet, Tom Cavanagh, Victoria Park, Sendhil Ramamurthy, Kayla Compton, Meera Simhan
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.