Crítica | The Flash – 6X10: Marathon

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Embora eu não tenha checado mais de perto, tenho a impressão de que essas “premieres” de meio de temporada de The Flash normalmente falham em dar continuidade aos ganchos interessantes deixados pelo episódio anterior ao hiato. Foi assim no ano passado com The Flash and the Furious, que conseguiu desperdiçar, numa tacada só, os ganchos deixados pelo encarreiramento entre um episódio comemorativo e um crossover! Nesse sentido, Marathon consegue romper um pouco com a tradição, ao menos no que diz respeito ao formato e ritmo de desenvolvimento da temporada.

Não que o episódio seja em princípio muito diferente do que costuma rezar o manual: temos aqui uma típica “faxina pós-evento”, temperada por teasers ocasionais das subtramas que irão nos decepcionar divertir ao longo das próximas semanas. Porém, uma coisa que funciona melhor aqui se compararmos ao passado da série é justamente a estruturação da trama maior da temporada.

Continuando a boa pegada do novo time de showrunners, a história aqui tem mais cara de “começo de temporada” do que de “retorno do hiato” propriamente dito. E isso é muito bom, já que parece colocar em prática uma proposta de duas sub-temporadas mais curtas como alternativa à longuíssima “história sem fim” usual. Com a ameaça de Bloodwork/Hemoglobina devidamente contida (ao menos por hora) e poucas pontas soltas para adereçar, a produção consegue ter fôlego narrativo para se dar ao luxo de explorar o inconfundível terreno de filler sem soar tão prolixa e desorientada quanto costuma ser o caso.

Nossa faxina pós-Crise tem seus altos e baixos, e na verdade não faz muito mais do que nos informar a respeito das consequências da reestruturação geral do Multiverso da CW, agora concentrado em uma Terra-Primordial. Difícil escapar da impressão de que essa reintegração vai acabar se dando de forma um tanto desajeitada, em especial no que diz respeito a aproveitar a ocasião para efetivar uma renovação profunda na série — o que, no final das contas, imagino que se aproximaria mais de um reboot do que de qualquer outra coisa. Por outro lado, também não tenho como negar o charme dessa continuidade integrada entre as séries, que tem melhorado a cada ano e, especialmente nesse epílogo, lida de forma totalmente quadrinhesca com os efeitos da morte de Oliver Queen.

Temos aqui um Diggle (David Ramsey) em um momento intermediário entre o final da Crise e o finale de Arrow, trazendo para Barry (Grant Gustin) um presente especial deixado por Oliver, que coloca os dois em uma busca um tanto sem pé nem cabeça e que tem como propósito amarrar tematicamente a subtrama de nosso protagonista com a do episódio em si, ao mesmo tempo em que nos detemos um pouco mais sobre sua reação ao sacrifício do Arqueiro. Dada a relação dos dois e o papel do herói veterano em inspirar o heroísmo de Barry, a investida é mais do que justa e, exemplificando bem a temática do episódio, mostra os ganhos que uma desacelerada necessária pode conceder no momento certo.

Na prática, a simplicidade dessa linha narrativa faz do episódio um raro capítulo “Flash-lite” (ou seja, com pouca presença de nosso velocista titular), muito provavelmente devido à necessidade prática de se filmar tudo isso simultaneamente aos episódios da Crise. E tudo bem com isso! Muito mais vale ver pouco do nosso herói, em cenas mais alongadas que se servem de um drama concreto e sincero do que desgastar o personagem no típico gato e rato emocional sonífero de sempre, não? Ironicamente, quem sai melhor servida pela situação é ninguém menos que Iris West-Allen (Candice Patton), personagem praguejada por tanto tempo por subtramas preguiçosas e esculachadas e que finalmente tem tido a chance de se rehabilitar sob a batuta de Eric Wallace.

O grande feito do novo time produtivo foi realizar um bom episódio no qual o núcleo de Iris ocupa o protagonismo. Dado o estado em que a temporada passada nos entregou a personagem, é um feito e tanto. O núcleo do The Citizen continua cativante e aproveita a construção feita na primeira metade da temporada para mostrar que agora é capaz de sustentar suas próprias subtramas de forma legítima. Como bom fã das histórias focadas no Planeta Diário (e da clássica série Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman), eu acabo sempre sendo parcial a uma boa história de super-herói focada na investigação jornalística, e posso dizer que esse foi o melhor episódio para Iris desde… provavelmente sempre? A personagem consegue puxar seu núcleo narrativo sem cair nas fracas retratações usuais — o diálogo com Joe (Jesse L. Martin), em especial, mostra os personagens em uma boa forma que é rara de se ver em um bom tempo!

Paralelamente à revelação bem compassada da Black Hole e ao teaser do que parece ser uma nova iteração do Mestre dos Espelhos (num cliffhanger alongado sensacional), temos tempo ainda para um conflito tenso entre Nevasca (Danielle Panabaker) e uma nova Doutora Luz (Emmie Nagata) — com um traje ofensivamente ruim ao ponto de me lembrar dos Movellans de Doctor Who. Os armamentos alienígenas e a conspiração armadas pelo episódio são um passo na direção certa, no sentido de que eu penso que a série teria muito a ganhar em deixar de lado as tramas mais mirabolantes em favor de um super-heroismo básico, ao menos para explorar melhor nosso novo status quo.

Por falar nisso, Cisco (Carlos Valdes) confirma que Harry e Jessie aparentemente não conseguiram escapar do cataclisma da Terra-2, o que, se confirmado seria uma verdadeira lástima. Minha esperança é que o sumiço do (novamente ex-)Vibro esteja ligado a uma futura volta à forma, quem sabe encontrando o Conselho dos Wells em um algum “abrigo anti-Crise”? Eles não iam acabar com uma das melhores coisas da série, que é a tradição dos “infinitos Wells”, né? Né…?

No total, Marathon consegue explorar de forma interessante um formato que tradicionalmente não funcionou na série. Ironicamente, consegue isso ao fazer o mínimo e continuar se apoiando nos acertos dessa nova fase. O mérito pela temática de “a vida é uma maratona, não uma corrida” funcionar bem, por exemplo, aponta mais pelo fato de que é um “tema motivacional” que surge de forma orgânica, dados os eventos da primeira metade da temporada, ao invés de vir com a mão pesada de sempre para ocupar a cota de draminhas baratos, provando nossa teoria de que é tudo uma questão de jeito. Mas será possível que é preciso que o ator do Flash esteja ocupado gravando outra coisa para termos mais protagonismo por parte de Iris? Ou será que a produção finalmente pegou o jeito e fará jus à personagem? Veremos!

The Flash – 6×10: Marathon — EUA, 4 de fevereiro de 2020
Direção: Stefan Pleszczynski
Roteiro: Sam Chalsen, Lauren Barnett
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Danielle Nicolet, Jesse L. Martin, David Ramsey, Victoria Park, Kayla Compton, Eric Nenninger, Emmie Nagata
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.