Crítica | The Flash – 6X13: Grodd Friended Me

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Difícil começar qualquer comentário sobre o episódio desta semana de The Flash sem aludir ao cliffhanger duplo que o encerra. Qualquer um dos ganchos deixados poderia tranquilamente servir como encerramento de respeito ao capítulo: tanto a revelação a respeito da ligação entre Eva McCulloch (Efrat Dor) e a versão refletida de Iris (Candice Patton) quanto aquela entre o arquivilão Flash Reverso e os fantasmas dos múltiplos Wells que assombram Nash (Tom Cavanagh) são momentos dramáticos marcantes pelos quais as temporadas anteriores teriam que sacrificar horas de chororô inútil para conquistar às duras penas. No entanto, estão empilhados aqui, um sobre o outro. Será que tem coisa demais acontecendo ao mesmo tempo?

Em outros carnavais, poderia dizer que sim. No entanto, para uma série que sofreu tanto com a insistência em um ritmo monotônico de desenvolvimento de tramas, acho que o estilo mais descentrado da narrativa atual tem servido como um remédio bem-vindo contra o marasmo de sempre. Ao invés de ficarmos nos arrastando por horas no jogo chatíssimo de construção do vilão de temporada da vez, as ameaças tem sido construídas de forma orgânica a partir de narrativas bem dosadas focadas em personagem. E isso é muito bom!

Nessa semana essa nova abordagem passou por uma prova de fogo significativa: fazê-la funcionar com nosso protagonista (que, ironicamente, tem mais dificuldade em protagonizar bons arcos de personagem do que o elenco de apoio) em nada menos que um episódio de Gorila Grodd, que historicamente não entregou as tramas mais shakespearianas de The Flash. E não é que funcionou!?

Gostei particularmente do ponto de partida da subtrama, com Barry (Grant Gustin) procurando uma maneira de se informar sobre todas as mudanças efetuadas pela Crise. Afinal de contas, além de um velocista heroico que peleja para dar conta tanto dos supervilões quanto de seus contratempos emocionais, Barry é um cientista! Esse aspecto é raramente explorado pelos roteiros, dada a concentração recorde de QI por metro quadrado do S.T.A.R. Labs, mas temos aqui um exemplo de como esses traços facilitam embasar histórias de forma mais orgânica do que o velho “A grande ameaça profetizada está chegando, e as emoções da equipe se encontram à flor da pele!”. É a mesma coisa que ocorreu com Iris: bastou centralizar a personagem em sua veia jornalística investigativa que voilá, premissas interessantes começaram a aparecer!

Tenho a impressão de que trazer o Gorila Grodd é sempre uma desculpinha para esbanjar um CG maroto em sequências de porradaria nonsense (objetivo sempre respeitável, na minha opinião). Assim sendo, situar o retorno do gorilão em um espaço mental foi uma excelente saída para realizar uma premissa absolutamente tosca — o Gorila Velocista — de forma convicente e divertida. Não apenas a luta final é uma galhofa divertidíssima e quadrinhesca, como todo o caminho até lá é repleto de coisas legais — os diálogos bem escritos com Grodd assumindo as formas familiares de outros personagens, por exemplo, foram outro twist bacana para a ideia, fazendo o tipo de coisa que sempre cai bem em televisão, que é explorar outras facetas do elenco recorrente sem muito compromisso com o enredo em si.

Já a subtrama da insegurança do recém-chegado Chester (Brandon McKnight) já representa um pouco mais do “arroz com feijão” dos arcos de personagem da série. Mesmo assim, funciona melhor que o habitual, com um tempo de tela bem comedido e diálogos bem escritos pontuando o posicionamento do personagem. Na verdade, a única bola fora nessa frente para mim foi a própria atuação do Gustin, que soou um tanto blasé demais em relação ao cara, mesmo após o sucesso na operação telepática…

Por sua vez, as outras histórias paralelas envolvendo as desventuras de Allegra (Kayla Compton) com seu stalker interdimensional Nash e as aventuras espelhadas de Iris com a tresloucada McCulloch continuaram a garantir um bom compasso para a trama geral da temporada, apostando em elementos interessantes e sem cair no vício de reduzir tudo a um grande teaser do que está por vir.

Durante a Crise, temi que o papel de Nash na história fosse ser encerrado por ali mesmo, e felizmente não parece ser esse o caso. Cavanagh é um dos corações da série e, felizmente, ao que tudo indica teremos não apenas seu retorno como Thawne como também uma exploração interessante sobre os efeitos da Crise sobre o Conselho dos Wells. Tenho curtido bastante a construção desse mistério, e espero que possamos ter um bom protagonismo para o cara mesmo mediante um possível retorno de Harry Wells (você também torce por isso, vai, pode assumir!).

E quanto à McCulloch, minha esperança é a de que a vilã continue a ser bem construída como o que vimos até agora. Poderes diferentes e imprevisíveis e motivações que não envolvem viagens no tempo ou a obtenção de MacGuffins de matéria negra a serem coletados até o finale são tudo o que eu espero de um vilão de temporada da série no presente momento, e se formos seguir o modelo do que foi feito com Ramsey na primeira metade da temporada, acho que dá pra permanecer otimista.

Entrei temendo outro show de horrores e saí empolgado com duas subtramas muito boas e, de quebra, enriquecido com a memória de um supergorila velocista usando o poder da amizade para se fundir com Barry Allen e derrotar seus maiores medos em busca da liberdade. Ou seja, Grodd Friended Me foi outra boa surpresa de uma temporada divertida em bem dosada em quase todos os aspectos. Difícil não ficar empolgado assim!

Peraí, semana que vem é o retorno de quem? Ah, não…

The Flash – 6×13: Grodd Friended Me — EUA, 25 de fevereiro de 2020
Direção: Stefan Pleszczynski
Roteiro: Kristen Kim, Joshua V. Gilbert
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Jesse L. Martin, Tom Cavanagh, Efrat Dor, Andy Mientus, Victoria Park, Kayla Compton, Brandon McKnight, David Sobolov, Keith David
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.