Crítica | “The Game” – Queen

estrelas 4

… E um novo capítulo começou.

Depois de News of the World e Jazz, dois álbuns-ponte entre a fase operística e a fase pop/disco do Queen, a banda finalmente abraçou o novo estágio com um disco que já começa diferente na capa (o quarteto parece ter saído de um ensaio new wave) e segue com diferenças no caráter geral das canções, no uso de sintetizador — pela primeira vez na história banda, agora em seu 8º disco — e na linha musical mais próxima das “faixas de rádio” do início dos anos 1980. Uma avalanche de mudanças que também tinha correspondente no relacionamento entre os músicos, como veremos adiante.

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Brigas e Exílio Fiscal
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Como se sabe, Jazz foi o primeiro álbum do Queen a ser gravado fora do Reino Unido, em estúdios na França e Suíça. A escolha não partiu do grupo e nem foi por uma questão técnica ou estética, mas sim financeira. Devido a altíssima arrecadação, os impostos que eles pagavam no RU eram enormes. Uma forma de driblar isso era gravar fora do país e emendar o período de gravação com a turnê do referido álbum, apenas com eventuais retornos “sociais” à Terra da Rainha. A estratégia funcionou bem para as finanças mas deu o pontapé para uma fase de brigas que quase fizeram com que o Queen acabasse. Várias vezes. E isso continuou com a gravação de The Game (co-produzido por Reinhold Mack) inteiramente realizada em Munique, na Alemanha Ocidental.

As dissenções começaram durante as gravações de Jazz, que de alguma forma isolou os músicos e acirrou brigas em relação ao estilo das canções que deveriam ou não constar no disco. Ainda durante a turnê de Jazz, algo parece ter acontecido entre John Deacon, Brian May e Roger Taylor, algo que fez com que os dois últimos ficassem mais irascíveis em relação a tudo o que o baixista propunha. Existem inúmeras “lendas urbanas do rock” especulando o que aconteceu, mas isso não importa. O que importa é que o já recluso Deacon se tornou ainda mais quieto, mantendo apenas com Freddie Mercury o mesmo relacionamento de antes.

Durante os três últimos álbuns de estúdio da banda, The Miracle (1989), Innuendo (1991) e Made in Heaven (1995), os ânimos se acalmaram, mais por consideração do trio a Freddie Mercury, que já havia anunciado a doença para eles; mas o momento era outro, em todos os sentidos. Todavia, independente do que se especula ou se diz a respeito do relacionamento da banda, eles tiveram uma convivência X de 1970 (quando o Queen foi criado) até meados de 1978. Daí para frente, não só a música mas também a dinâmica interna do grupo mudaria bastante.
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Excesso de Coisas

No final dos anos 1970 o Queen era A BANDA de rock. Ricos, absurdamente famosos e admirados ao redor do mundo, o quarteto conseguiu colocar de lado as divergências pessoais — apesar de tudo, eles continuavam amigos, é preciso lembrar isso — e trabalhar muito. A gravação de The Game veio em uma onda de excesso de coisas para o grupo, como vocês podem ver no pequeno esquema abaixo, que compreende apenas os eventos entre os anos de 1979 e 1980.

  • jan/mar, 1979 — gravação da turnê europeia de Jazz;
  • abr/mai, 1979 — turnê japonesa de Jazz;
  • jun, 1979 — lançamento de Live Killers (turnê europeia de Jazz);
  • jun/jul, 1979 — gravação de The Game – 1ª parte;
  • jun/jul, 1979 — gravação de Flash Gordon – 1ª parte;
  • nov/dez, 1979 — turnê Crazy (Jazz), pela Grã Bretanha;
  • fev/mai, 1980 — gravação de Flash Gordon – 2ª parte;
  • fev/mai, 1980 — gravação de The Game – 2ª parte;
  • jun, 1980 — lançamento de The Game;
  • jun/set, 1980 — turnê norte americana de The Game;
  • out/nov, 1980 — gravação de Flash Gordon – 3ª parte;
  • nov/dez, 1980 — turnê europeia de The Game;
  • dez, 1980 — lançamento de Flash Gordon.

Com tudo isso em mente, não é de espantar os ânimos à flor da pele — Brian May chegou a sair pelo menos duas vezes do estúdio dizendo que ia abandonar de vez a banda — ou os descontentamentos com composições dos colegas — Roger Taylor xingou John Deacon e Another One Bites the Dust de todos os nomes possíveis, pois não concordava com a presença da faixa no disco –, situações que não impediram The Game ser o álbum mais bem vendido internacionalmente do Queen e tivesse uma recepção geral melhor que a de Jazz. E aqui estava, depois de dois discos-ponte, o Queen efetivamente no pop rock, funk, disco music. Um “Queen para tocar na rádio”. Mas um Queen que continuava sensacional.

LADO A
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Abrindo com Play the Game, composta por Freddie Mercury e com letra que representa muita coisa da visão de amor que o músico tinha à época, um cenário que voltaria a visitar mais ou menos na mesma atmosfera em It’s A Hard LifeYou Don’t Fool Me, o disco marca novo território em questão de segundos. A introdução da canção é um conjunto de glissandos descendentes no sintetizador e címbalos tocados em reverso que aumentam de volume e caem em um território bastante familiar para Mercury: o solo de piano com ecos de Death on Two Legs gerando uma ótima balada. A progressão do coro é clichê, mas a execução é perfeita e bem harmonizada, com excelente participação de May e Taylor.

Na sequência temos Dragon Attack, uma lembrança de Brian May dos discos anteriores, investindo em diversas sessões rítmicas e dando oportunidade para John Deacon e Roger Taylor brilharem em seus instrumentos, o que não era muito comum nas canções de May até então. Deacon volta quebrando tudo em uma composição própria, Another One Bites the Dust, a “música da discórdia” do álbum. Para desespero de Roger Taylor, que simplesmente a odiava, a faixa foi um hit imenso e chamou a atenção até de Michael Jackson, que encontrou o Queen no camarim, durante a turnê americana de The Game em Los Angeles e insistiu para que eles a lançassem como single.

A composição da linha do baixo para Another One Bites the Dust foi inspirada em Good Times (1979) de um grupo de disco/black music chamado Chic. Não há sintetizador aqui. As palmas, ruídos e instrumentos foram gravados pelos próprios músicos e tocados em diferentes velocidades, ordem e distorções para gerar a produção incrementada que temos ao final, um dos experimentos mais icônicos do Queen nessa nova fase e o segundo aceno para o futuro Hot Space (o primeiro foi Fun It, curiosamente, uma música de Roger Taylor).

A outra faixa de Deacon em The Game é a quase sessentista Need Your Loving Tonight, um pouquinho de retorno ao passado, com o baixo e a bateria no básico e pequenas quebras e pontes que dão o charme da faixa. Como todas as composições do baixista, é uma música facilmente digerível, simpática e com forte apelo radiofônico.

Este Lado A se encerra com a lendária Crazy Little Thing Called Love. Há várias versões para a origem da canção, todas com alguma pegada de fantasia, mas sempre com duas coisas em comum: Mercury teve a inspiração do nada e ela foi gravada “às pressas”, antes que Brian May chegasse ao estúdio e começasse a querer complicar os arranjos. Posteriormente, o guitarrista gravou as frases da guitarra, com o solinho típico de rock dos anos 50 e início dos 60 — a composição é uma homenagem a Elvis Presley — adicionadas na mixagem. Merecidamente, este se tornou o principal single do disco e uma das canções mais lembradas da banda.

LADO B
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Taylor realmente queria marcar território dentro do rock e nunca deixar os fãs da banda esquecerem qual era a “verdadeira missão” do Queen. Rock it (Prime Jive) é uma prova disso. A música tem vocais de abertura feitos por Mercury e na sequência Taylor assume as estrofes. É uma das harmonias mais simples do Queen e uma canção que se encaixa muito bem em The Game, apesar de olhar “para fora” da proposta-eixo do disco. E quase como um “complemento moderno” para esta abertura do Lado B, temos a provocativa Don’t Try Suicide, de Freddie Mercury, com seus versos de arranjo rock-blues que carrega uma série de especulações sobre quem (e para quem) foi composta.

Mesmo antes de conhecer de verdade a discografia do Queen eu ouvia comentários bastante negativos em relação a Don’t Try Suicide, devido a óbvia provocação da letra. Não quero fazer um julgamento ético-moral do compositor e nem de quem não gosta da faixa pelo que ela diz, mas me pergunto se esses indivíduos levam em consideração o artista que a produziu e o tipo de “mensagem/provocação” que ele quis fazer aqui. Não se trata de uma música que condena o ato do suicídio nem nada disso. É um rock de humor negro.

Sail Away Sweet Sister (To the Sister I Never Had) é uma balada de Brian May com forma simples e modulações tonais no coro e na ponte entre as estrofes, com um rico eixo harmônico e uma letra tocante. É uma das minhas favoritas do disco, tanto pela beleza musical quanto pelo significado da letra, que pode ter duas interpretações, ambas consideradas pelo compositor (a da irmã biológica e a da ‘amiga-irmã’, emulando o maior lamento de uma friend zone da história do rock). A pedido de May, Freddie Mercury toca o piano nesta canção, salientando a sua forma “martelada” de acompanhar baladas, acrescentando bom compasso rítmico à faixa, completado por um excelente coro e pela voz suave de Brian May na liderança.

A penúltima canção do álbum, Coming Soon, é uma das mais fracas de Roger Taylor, apesar de ter uma execução intricada aqui. Talvez por ter sido iniciada durante a gravação de Jazz e terminada a fórceps para The Game, a faixa esteja deslocada aqui. Há alguns bons momentos, mas o todo não é interessante. O sintetizador volta, de maneira breve, durante o coro de agudos meio metálicos. Mas nós nos esquecemos rapidamente dessa pisada em falso quando chegamos à última faixa, Save Me, mais uma balada clássica de Brian May.

Eu tentei achar informações para qual instrumento-base Save Me foi composta, mas não encontrei. Minha curiosidade vem da enorme combinação que o escopo harmônico da faixa tem para guitarra e piano, ambos em execução aqui e ambos em perfeita harmonia. O interessante é que ouvindo às pressas, trata-se de uma música de métrica simples, mas não é não. Tente ouvi-la com atenção (e com headphones) para entender o que eu estou dizendo. As alterações entre a introdução, as pequenas estrofes e o coro são anomalias sensacionais e mostram um domínio pleno de Roger Taylor na bateria e de Brian May na estrutura geral da canção.

Diferente e admirável, The Game marcou a entrada do Queen nos anos 1980. É um álbum que carrega a marca de sua época e que incorpora inúmeros elementos caros à banda, mas completamente metamorfoseados nessa nova fase. Às vezes um fã pode se perguntar: e se a minha banda favorita (ou uma banda que eu admiro muito) mudasse a linha diretiva de sua produção musical mas sem perder a excelência na execução? No caso do Queen, The Game e todos os álbuns posteriores respondem a pergunta. Se alguns deixaram de admirá-los por conta disso, centenas de outros fãs se aproximaram deles justamente por esse novo estilo. E é assim que a música evolui: arriscando e impondo mudanças.

Em tempo: para este álbum também foi gravada uma canção de Roger Taylor chamada A Human Body, mas ela não entrou para o lançamento final, ficando apenas no lado B do single Play The Game.

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Nota sobre fontes: eu traduzi trechos de informações em entrevistas com os membros da banda para diversas redes de TV e rádio ao longo dos anos; compilei informações técnicas específicas expostas no livro Queen – História Ilustrada da Maior Banda de Rock de Todos os Tempos, de Phil Sutcliffe (e também de encartes de CDs, documentários de DVDs e livros que acompanham os boxes Especiais da banda); trouxe diversas informações sobre decisões ou discussões de bastidores, processo de criação das músicas, uso específico de instrumentos, descrição de cenas da produção dos discos, estilos ou comparações entre canções de diversas Eras da banda através de um processo criativo de caráter biográfico do documentário Queen – Days of Our Lives e também de artigos em diversas páginas ligadas à banda, aos estúdios e principalmente aos produtores dos discos.

Aumenta!: Crazy Little Thing Called Love  e  Another One Bites the Dust
Diminui!: Coming Soon
Minhas canções favoritas do álbum: Sail Away Sweet Sister  e  Save Me

The Game
Artista: Queen
País: Reino Unido
Lançamento: 30 de junho de 1980
Gravadora: EMI, Parlophone
Estilo: Rock, Funk, Disco Rock

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.