Home TVTemporadas Crítica | The Get Down – 1ª Temporada, Parte 2

Crítica | The Get Down – 1ª Temporada, Parte 2

por Ritter Fan
124 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4

Obs: Leia, aqui, a crítica da Parte 1.

Depois de uma energética primeira parte e de uma incerta e às vezes preocupante espera de quase oito meses, The Get Down volta para seus cinco episódios finais, depois que a já complicada produção sofreu atrasos e a Netflix decidiu separar a temporada inaugural em duas partes. A decisão, tomada por questões de ordens práticas, na verdade é muito bem vinda, pois às vezes mesmo estruturas de poucos episódios como normalmente são as das séries originais do canal de streaming mostram fadiga. E a obsessão de Baz Luhrmann, que vinha tentando colocar sua visão no ar há 10 anos, era uma forte candidata ao cansaço gerado pelo chamado binge watching, considerando o frenesi e o bombardeio visual que marcam a série.

Mas a quebra da temporada em duas partes foi bem feita e bem trabalhada, mostrando consciência da produção em não deixar os espectadores pendurados com cliffhangers ou situações não resolvidas. Houve um arco completo na primeira parte e a segunda começa algo como 18 meses depois, já em 1978, com algumas mudanças de status quo quase parecendo mesmo uma segunda temporada.

Quando a Parte 2 começa, Mylene Cruz já tem um sucesso musical e seu pai, usando a filha como catapulta, não para de deixar sua ambição religiosa crescer exponencialmente. Zeke continua firme e forte em seu estágio não remunerado com o Sr. Gunns e está às voltas com sua carta de apresentação para Yale. Shaolin Fantastic inaugura uma boate sob as graças de Fat Annie e Cadillac onde os The Get Down Brothers podem performar toda noite em meio à venda da droga angel dust ou “pó de anjo” correndo solta nos bastidores.

A atmosfera positiva e alegre que permeou toda a Parte 1 continua aqui, mas o tom fabulesco dá lugar a uma história mais lugar-comum, que lida com as escolhas de Zeke (Bronx ou Yale) e de Mylene (música religiosa de alcance litmitado ou sensual sem limites) em meio a um conflito entre Shaolin Fantastic, apaixonado por sua música e Fat Annie e Cadillac, apaixonados pelo dinheiro das drogas. Há uma tentativa de se manter esse mesmo ar com o uso de animações a partir das páginas em quadrinhos que Dizzee cria para contar sobre o que está acontecendo com ele para Thor, que está na prisão, mas esse artifício falha nessa tentativa e, muito ao contrário, parece muito mais uma forma de facilitar o fechamento da produção do que algo com bom  efeito narrativo.

Mas a história mais básica não diminui a energia dos episódios. Baz Luhrmann usa sua série para contar a história do hip hop e consegue, aqui, distribuir melhor o tempo entre os vários componentes dos The Get Down Brothers. Claro que Zeke e Shao continuam recebendo os holofotes, mas Ra-Ra se torna uma espécie de estrategista do grupo, literalmente salvando o dia algumas vezes com sua diplomacia, Boo-Boo quer uma parte mais relevante do negócio das drogas e secretamente passa a ser um ajudante de Shao e, finalmente, Dizzee é mais bem costurado à narrativa, ainda que sua história continue a mais separada de todas, algo que condiz com sua atração homossexual por Thor, o que é tratado com elegância e uma boa dose de auto-consciência do personagem, que se denomina uma “alienígena”.

O comentário social, claro, fica especialmente por conta do dilema de Zeke sobre o que fazer diante de sua vida no Bronx com uma chance incerta com sua poesia e outra mais ambiciosa em Yale, mas que o faria largar suas raízes e adaptar-se a um mundo branco em que ele é quase uma experiência antropológica. É muito interessante ver o personagem como um peixe fora d’água no Ivy Club dos importantes e famosos, com um segregacionismo latente não só entre aqueles que servem e aqueles que são servidos, como, também, entre aqueles que tem um “direito de nascença” de estar ali e outros que estão ali pelas bondade dos corações dos tais herdeiros.

Do lado mais dramático e pesado, há a vida de Mylene que está em meio a um cabo de guerra entre seu pai pastor e seu produtor musical (e do lendário produtor Robert Stigwood), dois extremos claramente insalubres para ela, como, aliás, são todos os extremos. No entanto, o choque de valores, nesse aspecto, é muito interessante e resulta nas melhores sequências da Parte 2, especialmente o clímax em que seu pai a vê fazendo o fatídico show na boate Ruby Con, a versão da série da famosa Studio 54.

E esse choque de valores continua e ganha um bom grau de espelhamento na relação proibida entre Lydia e Papa Fuerte, respectivamente mãe e tio de Mylene, algo que o espectador aceita mais facilmente ainda em razão do aumento da obsessão do Pastor Ramon Cruz que chega a ganhar contornos vilanescos até. Há uma certa ressonância entre o que acontece com os dois e o que acontece com Mylene, ainda que sejam narrativas separadas (mas menos do que a de Dizzee), mantendo mero paralelismo para convergir no quarto episódio, o melhor dessa segunda parte.

No entanto, o quinto e mais longo episódio, que lida com o grande embate musical dos heróis unidos às demais “tribos” do Bronx contra Cadillac e seus capangas, é um tanto quanto desapontador. Não em relação ao conflito em si, que é muito bem executado, mas sim com relação ao que vem depois em um longo e interminável dénouement que reverte algumas situações (o que foi aquela carta de Yale?) e começa a estabelecer novas regras do jogo para uma ainda pouco provável segunda temporada. Se a Parte 1 acabou tão redonda, era obrigação dos produtores, especialmente em razão dos notórios atrasos e gastos excessivos da produção, ter oferecido um fechamento aos espectadores e não um novo começo. São 25 minutos complicados de assistir, pois eles desfazem muito do que Lurmann havia conseguido em sua saga musical.

De toda maneira, a grande verdade é que o grande personagem da série é a música. Os episódios são feitos a partir dela e para ela, tanto do lado do hip hop quanto do lado da disco music em um sensacional confronto de conceitos e ideias, especialmente o ultraje que os DJs e MCs sentem quando se menciona em gravar suas obras. Ao misturar seus personagens fictícios com pontas de atores vivendo lendas como os Notorious Three, DJ Kool Herc, Afrika Bambaata e Grandmaster Flash e carregando na musicalidade a cada episódio, com direito a efetivos números musicais dos mais variados, Luhrmann alcança um nirvana narrativo que usa de cores fortes, diversas narrativas paralelas, tragédias, figurinos bem característicos e uma fotografia que é alguma coisa entre o documentário e o filme de época para atacar (no bom sentido) o espectador com um bombardeio sensorial imperdível, apesar dos problemas indicados.

E muito desse trabalho do mais alto gabarito se dá em razão do elenco. Justice Smith como Zeke e Herizen F. Guardiola como Mylene formam uma dupla encantadora e autêntica (considerando o ar de Romeu e Julieta que fica como pano de fundo), sem descambar para os clichês do gênero. Cada um dos dois jovens atores tem suas características próprias e eles trabalham em cima delas, evitando pasteurização. Shameik Moore continua seu ótimo trabalho como o marcante Shaolin Fantastic, convencendo-nos de suas dúvidas internas entre fidelidade à sua “família” e à Fat Annie. Skylan Brooks T. J. Brown Jr., respectivamente vivendo Ra-Ra e Boo-Boo, merecidamente ganham mais destaque e são incluídos mais naturalmente na trama, ambos funcionando como alívios cômicos em certo grau e auxílio dramático para o desenrolar da história. Jaden Smith, o nome jovem mais famoso da série, também não faz feio como seu viajante e apaixonado Dizzee. E, claro, a “velha guarda” da série, composta principalmente por Jimmy Smits e Giancarlo Esposito como os irmãos Papa Fuere e Pastor Ramón roubam as cenas em que aparecem, ainda que Yahya Abdul-Mateen II como Cadillac e Lillias White como Fat Annie estejam igualmente espetaculares, ainda que carregando fortemente nas cores de personagens vilanescos arquetípicos.

A segunda e última parte da 1ª Temporada de The Get Down, apesar de não ser tão sensacional quanto a primeira, confirma a qualidade da série como um todo. Baz Luhrmann deslumbra, diverte e encanta com história fictícias reunidas pinceladas com fatos reais para contar um pouco sobre um momento chave da História da Música. O resultado é refrescante e recompensador como poucas séries por aí.

The Get Down – 1ª Temporada, Parte 2 (EUA, 07 de abril de 2017)
Criação: Baz Luhrmann, Stephen Adly Guirgis
Showrunner: Baz Luhrmann
Direção: Lawrence Trilling, Ed Bianchi, Clark Johnson
Roteiro: Stephen Adly Guirgis, Aaron Rahsaan Thomas, Nelson George, Seth Zvi Rosenfeld, Sam Bromell, Jacqui Rivera
Elenco: Justice Smith, Shameik Moore, Herizen F. Guardiola, Skylan Brooks, T.J. Brown Jr., Jaden Smith, Yahya Abdul-Mateen II, Jimmy Smits, Giancarlo Esposito, Mamoudou Athie, Kevin Corrigan, Stefanée Martin, Shyrley Rodriguez, Michel Gill, Zabryna Guevara, Tory Devon, Lillias White, Eric Bogosian, Eric D. Hill Jr., Noah Le Gros
Disponibilização no Brasil na data de publicação da crítica: Netflix
Duração: 286 min. aprox. (5 episódios)

Você Também pode curtir

4 comentários

Leo Martins 16 de abril de 2017 - 09:35

Excelente crítica!
Minha única ressalva para essa temporada foi terem usado animação, tanto narrativamente como visualmente achei fraca as sequências em animação. No restante a série continua formidável.

Responder
planocritico 16 de abril de 2017 - 14:02

@Jarl_soft:disqus , eu gostei das animações em si, mas não gostei muito da quantidade de vezes que ela é usada, dando a impressão de que foram mais “remendos” para dar fluidez à série…

Abs,
Ritter.

Responder
Handerson Ornelas. 16 de abril de 2017 - 00:04

Discordo sobre o fim do quinto episódio. Tive a impressão de que a produção sabia que era incerta uma próxima temporada, logo, decidiu fazer um “fim” que funcionasse tanto como gancho para o futuro, como também um fim. O único arco que achei ter ficado aberto demais foi o de Papa Fuerte. Fora isso, se a série terminasse aqui diria que se trata de um final nada menos que excelente.

Shaolin Fantastic grita desde a primeira parte: “This is the Bronxs, this is no fairytail”. Mas mesmo assim, um clima de conto de fadas é flertado na série… até que esse fim nos lembre da frase de Shaolin. Aqui é a realidade, nua e crua. Quem seguiu caminhos tortuosos levou finais tortuosos (Boo e Shaolin). E se havia um personagem que tínhamos certeza que terminaria bem, esse era apenas Zeke, já que vemos seu futuro como rapper de sucesso. E perceba que o rap cantado pelo personagem no início de cada episódio possui um ar contemplativo e até meio triste sobre o passado, deixando a entender em vários momentos que, no fim, as coisas não terminaram bem. Por outro lado, aqueles que escolheram o caminho da música (Mylene e Zeke) foram justamente os que tiveram “finais felizes” (perceba que eles se encontraram, sim, no futuro, já que no fim do rap de Zeke começa a canção de Mylene e vemos três sombras entrarem no palco).

Sobre a carta de Yale, não me incomodou, é a sugestão que o roteiro dá de que o caminho seguido por ele é diferente. Ninguém daquele cenário – Grandmaster Flash, Bambaataa ou Kool Herc – explodiu no cenário musical como é sugerido ao “Zeke do futuro”. É a série mostrando que tudo é questão de oportunidade.

E fechar dizendo que 9 meses depois foi lançado o divisor de águas “Rapper’s Delight”… “com uma banda” reforça a ideia de que a realidade não é bem como muitos poderiam imaginar…

Ótima crítica. Recomendo o documentário sobre a origem do hip-hop feita pela Netflix em 4 episódios, Ritter! Se curtiu a série vai gostar MUITO do documentário. Ele explica muitos contextos que a série referencia e brinca.

Responder
planocritico 16 de abril de 2017 - 14:03

Gostei muito de sua visão do final. Bem formulada e lógica! Com isso, eu me dou por satisfeito caso a série realmente não volte, que é o que está pintando…

Abs,
Ritter.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais