Crítica | The Gifted – 2X08: the dreaM

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série.

The Gifted é sempre melhor quando foca no drama de seus personagens e isso fica evidente em the dreaM, mais um episódio focado em Lorna, com direito a flashbacks para dois momentos dela no passado que, claro, reverberam nas decisões que ela tem que tomar no presente. Tudo bem que o roteiro de Carly Soteras confunde um pouco drama com dramalhão mexicano, mas o que podemos fazer, não é mesmo?

O tema da semana foi paternidade. Lorna, claro, foi o foco, com todo o malabarismo possível para que o nome de seu pai biológico não fosse mencionado, seja lá qual for razão, já que até o logotipo dele foi mostrado. Mas a presença/ausência de Você Sabe Quem é sentida o tempo todo permeando o mergulho no passado rebelde e solitário da jovem Lorna morando com sua tia em uma cidadezinha pequena, sem saber de verdade quem é seu pai. O interessante do episódio é como isso é bem construído, apesar de toda essa história pregressa ser apresentada apenas aqui, um tanto quanto na correria. No lugar de salpicar as informações com mais vagar ao longo dos episódios anteriores, Matt Nix resolveu fazer algo concentrado, mas que, felizmente, em grande parte funciona.

O paralelo com o presente, com Lorna sentindo a necessidade de proteger Dawn ainda mais depois que Rebecca assassinou 37 humanos no banco ao final do episódio anterior, a leva a aceitar a sugestão de Esme de mandar sua filha para um internato especial para mutantes logo “ali do lado”, na Suíça. Confesso que o temor de Lorna e a citação da escola nos alpes europeus me pareceram forçados demais, desproporcionais em relação à situação efervescente anti-mutante que se origina das mortes. Claro, não cabe a nós julgarmos o que uma mãe sente por sua filha, mas a decisão em um estalar de dedos de ejetar a garota para os picos nevados de sei-lá-aonde não me pareceu uma decisão que pudesse ser tomada assim com tanta velocidade.

Pelo menos, porém, o roteiro de Soteras tempera essa situação ao fazer com que Lorna leve a bebê para que Marcos tenha a chance de se despedir, fazendo com que ele desperte nela sentimentos que acabam por relativizar o que ela carimbara de seu abandono por Aquele-Cujo-Nome-Não-Pode-Ser-Dito. O resultado é um meio-termo, com Dawn sendo deixada na casa da tia Dane (Kathryn Erbe) exatamente como Papai M fizera antes com Lorna que, ato contínuo, finalmente entende que não fora abandonada e sim salva.

Mas a paternidade é também o pano de fundo para o outro lado importante do episódio, que lida com os poderes nascentes e descontrolados de Reed, que leva a família Strucker a procurar a Dra. Madeline Risman (Kate Burton), antiga parceira do patriarca Strucker. O que essa linha narrativa tem de excelente, porém, é a abordagem da “cura mutante” que, claro, dialoga muito fortemente com uma certa outra “cura” que alguns advogam por aí. A diferença, porém, é a relativização dessa questão e que conversa muito fortemente com o mutante que sua ácido que vimos em afterMath. Afinal, o que acontece quando a mutação é perigosa e incontrolável? Alguém que secreta ácido do corpo quando sua pode ferir gravemente alguém com um toque, causar acidentes automobilísticos e aéreos sem nem fazer nada. A “cura mutante” é uma alternativa e, arriscaria dizer quase parecendo um ditador, até obrigatória a não ser que o mutante aceite viver confinado em algum lugar à prova de seus poderes. Claro que, em havendo como controlar a habilidade (e não necessariamente “poder” como bem deixa claro a Dra. Madeline), aí ok, mas o que vemos no episódio deixa a mensagem de que, em alguns casos, isso é impossível.

Obviamente que a descoberta de Lauren (Natalie Alyn Lind está particularmente péssima aqui) de que o objetivo final da doutora é obter a fórmula para a eliminação generalizada do gene X leva a conversa para o extremismo, especialmente quando, ao mesmo tempo, aprendemos que o pai de Madeline (olha aí a paternidade novamente!) é um dos fundadores dos Purificadores. A linha tênue entre uma cura responsável e uma cura mutante à revelia dos mutantes é borrada nesse ponto e abre uma linha narrativa muito instigante para a série abordar doravante.

The Gifted, apesar de não ter conseguido decolar ainda na segunda temporada, tem se mostrado uma série cuidadosa no desenvolvimento de seus personagens e the dreaM é um ótimo exemplo disso. Sem dúvida o lado dramático chegou às raias do brega e as ações de Lorna não ganharam uma boa justificativa, mas é lidando com os problemas pessoais de seus personagens que a série realmente encontra seu norte.

The Gifted – 2X08: the dreaM (EUA, 27 de novembro de 2018)
Criação e Showrunner: Matt Nix
Direção: Robert Duncan McNeill
Roteiro: Carly Soteras
Elenco: Stephen Moyer, Amy Acker, Sean Teale, Natalie Alyn Lind, Percy Hynes White, Coby Bell, Jamie Chung, Blair Redford, Emma Dumont, Skyler Samuels, Grace Byers, Hayley Lovitt, Jeff Daniel Phillips, Erinn Ruth, Michael Luwoye, Adam David Thompson, Tom O’Keefe, Anjelica Bette Fellini, Peter Gallagher, Kate Burton, Kathryn Erbe
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.