Crítica | The Gifted – 2X09: gaMe changer

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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série.

Com a ampliação do número de episódios de 13 para 16 na segunda temporada, The Gifted ganhou a estrutura padrão da maioria das séries americanas, ou seja, com um hiato mais ou menos na metade. Ao mesmo tempo que isso é muito bom se bem conduzido, vide Agents of S.H.I.E.L.D., essa forma narrativa pode trazer problemas e a série mutante não-lisérgica da Fox tem um pouco de cada.

Não é segredo algum que esses nove episódios iniciais foram claudicantes, com diversos momentos sofríveis intercalados com bons – mas não espetaculares – desenvolvimentos de personagens. Por isso é que a promessa do final de gaMe changer, de trazer mais mutantes e começar uma revolta mundial liderada pelo Círculo Interno pode e deve ser vista com bons olhos, já que parece indicar que o jogo de sombras do interminável “plano secreto” de Reeva não mais existe e o conflito entre os Homo Sapiens e os Homo Superior tem boas chances de ser escalado, algo que, em um primeiro momento pode assustar com a necessidade de mais orçamento (que duvido que venha) para lidar com os efeitos especiais necessários, mas que um planejamento cuidadoso pode circunavegar nem que seja pegando alguns atalhos aqui e ali.

Portanto, a segunda metade pode mudar o status quo da série e, nesse contexto, o episódio sob análise talvez precisasse mesmo ser assim, quase que fazendo uma limpeza de palato para a chegada do prato principal. Acontece que a palavra-chave, aqui, é “quase”, já que o que Matt Nix acaba fazendo para chegar onde queria pareceu-me afobado, simples demais e com enorme desperdício de potencial para certas linhas narrativas.

Se o fim de pelo menos uma grande parte do plano de Reeva foi um alívio, a forma como o roteiro de Melinda Hsu Taylor abordou Rebecca e Andy foi abrupta e desapontadores. Afinal, a mutante sociopata tinha ainda um enorme potencial disruptivo dentro do próprio Círculo Interno e poderia ter ganhado sobrevida para justamente fazer ruir por dentro a estrutura aparentemente limpa e perfeita da dissidência do Clube do Inferno. Mas não. Matar Rebecca foi a saída encontrada para lidar com uma personagem forte, complexa e que havia contribuído muito para, junto com Caitlin em outMatched, emprestar contornos sombrios para a série.

E, pior do que isso, sua morte foi sem cerimônias, cortando uma sequência que poderia ter rendido uma ótima sequência de ação com um resultado potencialmente mais trágico. Do jeito que ficou, Andy carrega sua culpa é sua dor por exatos 15 segundos, derramando lágrimas vazias e pronto, uma inconveniência foi varrida para debaixo do tapete e o jovem Strucker “amadureceu” com sua experiência, voltando para o plano de desligar a central que controla as coleiras anti-mutante em um meteórico piscar de olhos. Matt Nix nem mesmo se deu ao trabalho de determinar que a diretora Allison Liddi-Brown enxertasse algumas elipses dilatadoras de tempo para tornar a transição mais grave e pesada, para que o espectador sentisse alguma gravidade.

Se Rebecca tivesse sido o único desperdício, teria ficado feliz. No entanto, a linha narrativa da “cura mutante” da família Strucker no laboratório de Madeline foi outra vítima precoce da “maldição da metade de temporada em velocidade de dobra”. Toda a construção da antiga assistente de laboratório do pai de Reed sendo a proverbial loba em pele de cordeiro querendo usar Reed e Lauren para seus objetivos nefastos e toda a interessantíssima questão da cura em si – quando ou se ela pode ser boa – são defenestradas sem cerimônia em uma desnecessária corrida contra o tempo que coloca os Strucker em pé de guerra com a cientista, com direito a traições e a destruição de anos de pesquisa que, como vimos no episódio imediatamente anterior, trouxe efetivos benefícios. Para que essa sangria desatada, Matt Nix?

Os lados positivos dessa parte da história, porém, valem ser apontados. O primeiro deles é a atuação de Natalie Alyn Lind, que consegue sair do nível “vergonha alheia” e chegar no nível “opa, será que a loira burra tem jeito, afinal de contas?”. Pontos para a atriz.

O outro aspecto positivo foi a explicação pseudo-científica para os poderes dos irmãos Strucker atuando em conjunto. Quem lê minhas críticas sabe que eu acho hilária a tentativa de racionalização de 90% dos poderes mutantes, mas simplesmente adorei Madeline explicando que Lauren e Andy, assim como seus avós antes deles, compartilham dois genes X, uma anomalia dentro na anomalia. Para que isso serve e onde isso vai dar, não faço a menor ideia, mas vi valor no trabalho de Nix para chegar em algo que, pelo menos para um leigo como eu, parece “razoável”.

Se os desperdícios do episódio podem ser justificados pela “necessidade” de se andar com o arco macro da temporada e começar uma nova fase, o mesmo não pode ser dito de tudo que se relaciona com o que outrora chegou a ser a Resistência Mutante, mas que hoje mais parece uma versão horrivelmente séria dos Três Patetas. Confesso que não tenho muita vontade de escrever sobre John, Marcos e Clarice, pois a trinca antes tão azeitada agora não para de bater cabeça, de literalmente entrar às cegas em qualquer plano meia-boca que alguém chuta de qualquer jeito, somente para meter-se em enrascadas idiotas que termina da pior maneira possível. No episódio, vemos Pássaro Trovejante e Blink (que virou mesmo a voz da sanidade entre os três) sequestrar um funcionário da Regimen em ação off camera que nos leva a um momento que me deu vontade de quebrar a televisão em um ataque de raiva: a sequência no beco em que John, o mais experiente da Resistência, ex-militar, rastreador exímio e mutante super-forte e invulnerável, toreia uma picape dos Purificadores. O que foi aquilo, minha gente? Não vou nem escrever mais senão e capaz de eu socar o teclado até quebrar…

No final das contas, gaMe changer realmente muda o jogo, mas o faz de maneira atabalhoada e frenética demais, potencialmente jogando fora material que merecia mais desenvolvimento. Agora é torcer para que Matt Nix use os sete episódios finais para reerguer a temporada.

  • The Gifted entra em hiato de final de ano, retornando no dia 1o de janeiro de 2019.

The Gifted – 2X09: gaMe changer (EUA, 4 de dezembro de 2018)
Criação e Showrunner: Matt Nix
Direção: Allison Liddi-Brown
Roteiro: Melinda Hsu Taylor
Elenco: Stephen Moyer, Amy Acker, Sean Teale, Natalie Alyn Lind, Percy Hynes White, Coby Bell, Jamie Chung, Blair Redford, Emma Dumont, Skyler Samuels, Grace Byers, Kate Burton, Christopher Cousins, Anjelica Bette Fellini, Tom O’Keefe
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.