Crítica | The Gifted – 2X14: calaMity

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série.

Depois de um mini-hiato de duas semanas, The Gifted volta com um episódio decisivo para o futuro dos mutantes. Com a Resistência Mutante dizimada, Reeva passa a focar sua atenção nos Morlocks, dirigindo os Purificadores para os esgotos da cidade por intermédio de sua ligação espúria com Benedict Ryan, abordada em mais detalhes no já tradicional flashback de abertura. Começo a desconfiar que, se os X-Men não voltarem de seja lá onde estejam, não sobrarão muitos mutantes para contar história e a série acabará por falta de contingente, mas sei que estou me adiantando…

O episódio serve muito claramente como preparativo para o fim da temporada e coloca Jace Turner, personagem que um dia teve potencial, mas que se tornou o sujeito mais sem personalidade que já singrou a série, no papel de líder de um grupo de caipiras preconceituosos com armas militares que apareceram do nada (lembrem-se que os Purificadores usavam ferramentas rústicas e rifles de caça quando eles surgiram na série…) que invadem Morlockland para literalmente matar os “monstros” que lá vivem. Meu problema com isso é que Matt Nix não parece ter coragem de fazer com que Jace abrace de verdade seu lado sombrio. Sim, ele é um ex-agente do Sentinel Services traumatizado pela morte de sua filha no atentado mutante de tempos atrás, mas, se traçarmos sua trajetória desde então, fica evidente que ele já não tem mais jeito, pelo que suas dúvidas se aceita ou não a proposta de Ryan e sua hesitação em concordar que Ted, o mais odioso dos caipiras, participe do massacre, soam artificiais e simplistas, sem uma construção que faça sentido ou crie sentimentos reais, especialmente considerando a sequência em que ele, ao final do tiroteio, pega o ursinho do chão com aquele olhar que indaga “oh, o que eu fiz?”, só faltando rolar uma lágrima.

Mas se Jace e suas dúvidas atrozes completamente fake não funcionam bem, toda a sequência do embate nos esgotos, intercalada com o resgate das mulheres, crianças e mutantes “inúteis” (ou seja, sem poder ofensivo) por Blink mantém o episódio com uma cadência boa. Clarice, vale dizer, é a única pessoa que parece conseguir pensar sob pressão, pois parte dela a operação de resgate que envolve ligar para Marcos para que ele e o que sobrou da Resistência venha ajudar no transporte. Ainda que a lógica de Blink abrir seus portais para o beco sem saída exatamente em cima de onde todo mundo está e, portanto, próximo à polícia que se aproxima, não faça sentido estratégico algum – assim como não permitir que John a ajude no subterrâneo – o roteiro de Jason Lazarcheck cumpre a função de mudar o status quo dos Morlocks (além de apresentar e matar um monte deles, inclusive a versão verde do Cara de Barro) e de desenvolver ainda mais a personalidade daquela que, hoje, é a melhor mutante da série.

A progressão narrativa de Lazarcheck, combinada com o ritmo imposto pela direção de Stephen Surjik, apontava para o final trágico, mas Blink ganhou grande investimento de Matt Nix ao longo dessa temporada, pelo que duvido que ela tenha simplesmente morrido, até porque vale a regra básica de séries de TV: sem corpo, sem morte. O vórtex que se abre depois que ela é baleada parece indicar um portal especial, não sei se levando-a para algum lugar pré-programado (como os números de emergência em um celular) ou se The Gifted terá orçamento para transformar Blink em uma Exilada, como ela já foi e recentemente voltou a ser nos quadrinhos, pulando de dimensão em dimensão para salvar o dia.

Ainda dentro do contexto do resgate empreendido, é bom ver que Lauren resolveu encarar seus problemas de frente, recusando-se a continuar usando o supressor químico do pai, o que faz com que Reed também abrace seu lado mutante. Tomara que não demore para ele aprender a controlar seus poderes, de forma que possamos ver pai e filha lutando lado-a-lado ainda nessa temporada, mesmo que a verdadeira badass ali da família seja mesmo Caitlin, que parece ter o poder mutante de chutar o pau da barraca com sucesso repetidas vezes. Afinal, apesar de contar com uma montagem estranha e um CGI para lá de vagabundo, a cena dela enfrentando os policiais foi muito divertida.

No Círculo Interno, por sua vez, a narrativa gira em torno da investigação do assassinato de Max por Marcos no episódio anterior (aliás, fiquei com receio que ele não tivesse morrido na mesma base do “sem corpo, sem morte”, mas, pelo visto, ele se foi mesmo), sobrando para a coitada da Sage (ou Sábia, em português) para a mais absoluta sorte de Lorna, que continua irritantemente apavorada e, mais ainda, aparvalhada, literalmente sem saber o que fazer por si própria, tendo que desesperadamente ligar para Marcos com seu telefone dos anos 90 que inacreditavelmente não é achado por Reeva e seus minions, especialmente as Irmãs Stepford que, muito obviamente, por medida de segurança, deveriam ler a mente de todo mundo no complexo vilanesco. Apesar de Lorna, a trama é bem trabalhada nesse lado também, provavelmente também significando um ponto de ruptura importante para catalisar os dois episódios finais.

Com apenas o núcleo duro da série ainda intacto e mais Erg – e Blink provavelmente fora de combate em algum lugar incerto e não sabido – a 2ª temporada de The Gifted não tem mais para onde ir que não seja em direção ao tudo ou nada. Mas, para isso, John Proudstar precisa parar de ser uma sombra do mutante que já foi, Jace Turner precisa tornar-se malvadão de vez e Lorna Dane precisa tomar tenência, usar seus poderes para mais do que só levitar a grade do chão do quarto dela e mostrar a que veio. Se bem que, pelo andar da carruagem, Lauren, Reed e Caitlin, sozinhos, são capazes de dar conta do recado…

The Gifted – 2X14: calaMity (EUA, 12 de fevereiro de 2019)
Criação e Showrunner: Matt Nix
Direção: Stephen Surjik
Roteiro: Jason Lazarcheck
Elenco: Stephen Moyer, Amy Acker, Sean Teale, Natalie Alyn Lind, Percy Hynes White, Coby Bell, Jamie Chung, Blair Redford, Emma Dumont, Skyler Samuels, Grace Byers, Michael Luwoye, Jeffrey Nordling, James Carpinello, Carsten Norgaard
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.