Crítica | The Good Doctor – 1ª Temporada

Do Que as Séries Americanas São Sintoma? Essa é uma pergunta do pesquisador francês François Jost, conhecido por ser um dos membros do mundo acadêmico que arregaçou as mangas para observar a televisão como recurso passível de análise, algo que gerações anteriores de supostos intelectuais não se permitiram. Em suas diversas elucubrações para responder a pergunta título do livro está o óbvio: as séries mais atuais buscaram excelência estética, o que nos permite chama-las de “cinematográficas”, divisão estética do audiovisual que nos dias atuais já não apresentam tanta diferença assim. Desta forma, o consumo passou a ser diferenciado, pois as séries começaram a se apresentar diante do público com maior extensão de recursos e possibilidades narrativas. Antes de adentrar especificamente na análise de The Good Doctor, creio que seja interessante traçar um paralelo com a leitura que me acompanhava durante maratona da primeira temporada.

Segundo Jost, as séries trazem consigo o acarretamento da nostalgia, isto é, nos permite recordar os momentos da infância em que pedíamos que a nossa história predileta fosse narrada numerosas vezes. Na visão filosófica e social do pesquisador, esse é um dos residuais do nosso interesse pelas narrativas televisivas serializadas, disponíveis aos montes para consumo de pessoas oriundas de segmentos bem distintos. A identificação com os detalhes do nosso cotidiano também são elementos importantes para essa relação mais aconchegante com o telespectador. A atualidade de seus temas é magnética. As séries parecem debater em seus episódios os acontecimentos que nos conectam com a “realidade” apresentados nos noticiários. Muito pertinente e válida essas ponderações de François Jost. Vale a reflexão.

Quando a primeira temporada da série The Good Doctor foi lançada em 2017, me encontrei mais uma vez num processo de análise repleto de aproximações e distanciamentos entre a saga do médico autista e a trajetória dos residentes de Grey’s Anatomy. É algo inevitável quando se discute modelo ficcional procedural e programas sobre determinada representação da medicina na TV. Tal como os policiais, detetives e advogados, os médicos ocupam uma zona de conforto na predileção dos telespectadores em busca de entretenimento mesclados com certa dose de realismo, pessoas que no geral, estão em busca de uma via catártica para as suas existências cheias de lacunas. A ideia geral se assemelha aos demais “colegas” de televisão, isto é, o exercício da medicina para salvar vidas. Alguns estão preocupados em dar tranquilidade a quem já foi desenganado, mas no geral, para manter o padrão heroico, a ideia central é não apenas manter os pacientes confortáveis, mas salvá-los de seus destinos previamente determinados.

Assim, The Good Doctor ganhou as atenções do público e da crítica. Mais enxuta que as séries já estabelecidas, a primeira temporada investiu em 18 episódios, chancelados por ninguém menos que David Shore, o criador do “clássico da ironia” House, outra série médica bem sucedida que durou oito temporadas. Shore, juntamente com Lloyd Gilyard, David Renard e uma equipe de roteiristas menos frequentes assumiram as cargas dramáticas dos episódios dirigidos por David Straiton, Michael P. Jann, Mike Listo, Seth Gordon, dentre outros. Nos 18 “momentos” de seu primeiro ano, a série mantém o padrão adotado pela maioria dos programas do formato: ações em maior parte dentro do centro hospitalar, escapadas externas para viajar, jantar, beber um drinque para aliviar a tensão, dentre outros momentos que explana por meio de ações e diálogos, os perfis sociais e psicológicos dos personagens que gravitam em torno do protagonista Shaun Murphy (Freddie Higmore), ator com desempenho excepcional.

Sem o charme e a força física dos atraentes Conrad Hawkins (Matt Czuchry), Derek Shepherd (Patrick Dempsey) e Connor Rhodes (Collin Donnel), os médicos inteligentes, competentes, charmosos e viris das séries The Resident, Grey’s Anatomy e Chicago Med, respectivamente, Murphy precisa lidar apenas com o seu intelecto, pois a sua condição de autista o impede de conseguir se relacionar com mais traquejo em todas as esferas de sua vida. Sagaz e contemplativo, ele desafia a equipe mais cética e sempre propõe um “extra” na avaliação dos pacientes já desenganados pelos médicos do quadro hospitalar, pessoas com maior poder de decisão, sem as incertezas do posto de residente. Em sua empreitada no Hospital San Jose St. Bonaventure, o jovem médico descobrirá outros desafios em sua vida, num processo mútuo de aprendizado e ensinamento, pois ao passo que precisa aprender a lidar com as suas particularidades, Murphy também permite que todos aprendam lições de ética e relacionamentos humanos.

Lea Delallo (Paige Spara) é alguém que o enxerga como um amigo, mas que sabe as intenções do jovem em relação ao contrato entre ambos. Ela surge logo depois dos primeiros episódios para ser um dos eixos de contato entre Murphy e sua vida externa ao hospital. Tendo como mentor o Dr. Aaron Glassman (Richard Schiff), médico bastante experiente que lhe criou depois das circunstancias ardilosas do passado, todas deflagradas por meio de flashbacks devidamente orgânicos ao longo dos episódios, Murphy a cada situação com os pacientes, evolui como ser humano, cativa os colegas de trabalho e a nós, telespectadores, ansiosos por algo que diferencie a série do mais do mesmo já contemplado durante longas temporadas de séries médicas diversas. Devo dizer ao leitor que o padrão procedural se mantém firme. Cada episódio os casos se estabelecem, precisam ser resolvidos, passam por um processo de análise que culmina na resolução, seja esse desfecho algo positivo ou negativo para os envolvidos.

Trajados pelos figurinos elaborados pela equipe de Kimberly A. Tillman, os personagens que circulam pelo hospital possuem dramas internos e externos. Internamente há a disputa de poder, o tato em lidar com situações problemáticas, a postura segura ao ter que ceder diante de superiores hierárquicos que agem com arrogância, em suma, um resumo das celeumas num ambiente corporativo. Externamente, quando digo, me refiro aos problemas que circundam os personagens em suas vidas sociais, isto é, os dilemas que os movimentam fora do ambiente hospitalar. Dr. Neil Melendez (Nicholas Gonzalez) é um dos chefes da residência. Ele comanda o que vai ser feito e age como todo ser humano “normal”, isto é, às vezes é gentil e agradável, noutros momentos exala arrogância e prepotência em seu estado mais bruto, algo parecido com o Dr. Marcus Andrew (Hill Harper), um médico bem sucedido que cobiça a vaga de diretor do hospital e procura qualquer brecha para tirar o mentor do protagonista Murphy da sua cadeira respeitada do hospital. O motivo? Além do cargo, ele não acredita nas possibilidades e habilidades do médico autista, algo que será trabalhado parcialmente ao longo da temporada.

Alegra Aoki (Tamlyn Tomita) ocupa o papel de coadjuvante relevante, aquela que surge nos momentos-chave para tramitar processos importantes na administração do hospital. A residente Dra. Claire Browne (Antonia Thomas) luta firmemente por seu posto, desafiada constantemente pela misoginia e outras posturas tóxicas comuns aos ambientes de trabalho representados na contemporaneidade. Assertiva, precisa manter-se atenta durante toda a temporada, principalmente depois da chegada de Dra. Morgan Reznick (Fiona Gublham), residente aparentemente puxa-saco e pueril, mas que ao longo da metade-final da temporada demonstra importante papel dentro da dinâmica hospitalar. Sobre a preocupação, esclareço: ela é igualmente inteligente, mas além de ser pouco humanizada e muito competitiva, é loira e branca, sendo assim, creio que não é preciso dizer algo mais, concorda?

No bojo dos personagens importantes temos ainda a Dra. Audrey Lim (Christina Chang), uma mulher igualmente batalhadora, competente e decisiva na resolução de muitos problemas nos atendimentos ao longo dos episódios; o Dr. Alex Park (Vai L. Lee), residente que encontra a sua vocação mais tarde que os demais colegas, aos 45 anos, algo que o leva a enfrentar, de maneira rápida e pouco problematizadora, o ageísmo comum aos ambientes profissionais; e temos por fim o Dr. Jared Kalu (Chuku Modu), médico bonitão e também competente, tratado com certo desdém por alguns colegas por ser privilegiado, haja vista a sua família financeiramente bem sucedida, algo que não lhe traz desconforto diante de qualquer problema resolvido à base do dinheiro.

No que tange aos pontos de conexão realista, podemos destacar a presença dos acidentes em vias urbanas como um dos principais problemas nos atendimentos de emergência. Vermes, câncer e outros problemas no corpo humano são constantes, mas a quantidade dos pacientes acometidos por problemas oriundos da displicência diante das falhas humanas é algo que deve ser pontuado como uma observação crítica de nossa vida em sociedade. Há também questões bem pertinentes sobre assédio moral no ambiente de trabalho. Por sair com um dos colegas de trabalho, a residente Claire é abordada por um dos médicos que a convida para sair por meio de uma estratégia de toques indevidos. Noutro momento, a personagem apresenta aborrecimento durante um procedimento por conta de problemas diversos que estão dominando o seu dia de trabalho. Por conta disso, o cirurgião responsável pelo procedimento aproveita a breve saída da médica para buscar algo e faz chacota com a mesma, alegando que só pode ser irritação por estar “naqueles dias”. Há, tal como esses momentos, outros trechos igualmente relevantes na discussão de temas comuns aos ambientes profissionais, questões que são tratadas de maneira dramatúrgica, sem parecer apenas uma discussão panfletária.

Na seara da construção audiovisual das narrativas, a primeira temporada de The Good Doctor contou com um grupo de profissionais competentes, algo óbvio dentro de um sistema de produção que injeta capital na busca por o mínimo de qualidade estética que mantenha o telespectador conectado ao longo dos fios narrativos de 18 episódios de 45 minutos. A maior parte das cenas se situam no hospital, imagens registradas pela direção de fotografia que foi assinada por profissionais diferentes, dentre eles, Eric Steelberg, John S. Bartley e Christopher Faloona, setor que enquadra, ilumina e acompanha os personagens que circulam pelos ambientes erguidos e gerenciados por Michael Joy e Charles M. Logola. Responsáveis pelo design de produção, a dupla também possui um trabalho eficiente ao estabelecer uma textura visual com predominância do azul e do branco, tons que dominam os espaços do hospital, pigmentações conduzidas musicalmente por Dan Homer e seu eficiente trabalho sonoro. Tons clássicos amadeirados e pérola adornam os ambientes externos, em especial, os apartamentos e casas dos personagens, num contraste interessante entre para diferenciar o trabalho e o lar.

Outro ponto de composição narrativa que merece destaque é o trabalho da equipe de efeitos visuais supervisionados por Melissa De Long, recursos que não funcionam apenas como adornos pueris para exposição de imagens bonitinhas, ao contrário, são fundamentais para que possamos compreender como a mente de Murphy funciona diante dos casos. São ilustrações gráficas sem teor exclusivamente didático, belas e funcionais, importantes para que adentrarmos ainda mais na dimensão psicológica do personagem, algo já bem trabalhado no material dramático dos roteiristas. Produzida em Vancouver, no Canadá, The Good Doctor é baseada na série coreana Good Doctor, de Park Jae-Bum.

Quando encerrada a análise da temporada, ainda me encontrava acompanhado da reflexão do ensaísta francês descrito na abertura.  Leitura que me alcançou na maratona do segundo ano, conferido logo em seguida ao desfecho do episódio final da primeira temporada. François Jost segue a sua análise do fenômeno seriado televisivo detalhando que os motivos que fazem o modelo ser industrialmente bem sucedido é a sua ampla “persistência”, “universidade antropológica” e “midiatização”, tríade que pode ser definida por acontecimentos que são sempre recordados (o 11/9 por exemplo, contágios, terrorismo, violência urbana), a exploração do que há de humano em nós, o bom e o mau, sem as divisões maniqueístas que perduraram durante muito tempo na ficção (e ainda persistem) e a atualidade das imagens das séries que insistem em nos apresentar a “verdade” conforme os noticiários cotidianos. Em The Good Doctor a ficção se mantém de mãos atadas com a “realidade”, numa comprovação cabal da tese do ensaísta.

The Good Doctor – 1ª Temporada (Idem, Estados Unidos/Canadá – 2017)
Criação: David Shore, Daniel Dae Kim
Direção: Mike Listo, Michael Patrick Jann, David Straiton, Steven DePaul, Seth Gordon
Roteiro: Lloyd Gilyard Jr., Jae-Beom Park, David Renaud, Karen Struck, Mark Rozeman, Johanna Lee
Elenco: Freddie HighmoreNicholas Gonzalez, Antonia Thomas, Chuku Modu, Beau Garrett, Irene Keng, Hill Harper, Richard Schiff, Tamlyn Tomita, Will Yun Lee, Fiona Gubelmann, Christina Chang, Paige Spara,
Duração: 45 min. por episódio (18 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.