Crítica | The Good Fight – 2ª Temporada

A crítica política é um terreno pantanoso e quem decide seguir por tal trilha deve ter muito cuidado para não se tornar um panfleto horroroso. A segunda temporada de The Good Fight é justamente o contrário disso, pois consegue manter o mesmo time do primeiro ano e investir em alfinetadas cada vez mais profundas na administração Trump e nas celeumas sociais e políticas do desastroso representante político dos Estados Unidos, dono de uma postura fascista que respinga, inclusive, no Brasil, bem como em várias partes do mundo. Excursionaremos por outras questões, mas voltaremos ao presidente Trump posteriormente.

Com episódios que giram em torno dos 55 minutos de duração, os conflitos continuam interligados aos temas da temporada anterior: ódio aos imigrantes, corrupção no seio do poder, abuso de autoridade, cultura do estupro, segregação racial, preconceito social contra as mulheres, os impactos da cibercultura em nossa dinâmica cotidiana e um “assassino de advogados”. A história de advogada iniciante que tem a sua carreira ameaçada por conta de um escândalo financeiro promovido por seu pai, ponto nevrálgico da primeira temporada, torna-se apenas um laço nos primeiros episódios, para que assim a história avance e os novos conflitos se estabeleçam.

Os casos atendidos pelos advogados da empresa gravitam em torno das questões apontadas anteriormente. Diane Lockhart (Christine Baranski) continua exercendo seu papel de mentora, apesar de demonstrar fragilidade no âmbito pessoal, ao ter que lidar com problemas matrimoniais e o uso de uma curiosa substância alucinógena como escapismo para os seus problemas; Maia Rindell (Rose Leslie) teve o desfecho dos seus conflitos elegantemente organizado pelo roteiro, sendo agora parte integrante das celeumas alheias; Lucca Quinn (Cush Jumbo) continua a sua saga por um lugar privilegiado na empresa, afinal, ela sabe que por ser uma mulher negra, precisará lutar contra o sistema ainda racista e opressor, tendo como desafio maior, provar as suas habilidades de advogada em casos tensos e dinâmicos, mesmo diante da gravidez inesperada, fruto do relacionamento com o promotor Colin (Justin Bartha), um homem agora envolvido com os meandros da política.

Quem cresceu vertiginosamente na temporada foi Marissa (Sarah Steele) e Jay Dispersia (Nyambi Nyambi). Ela nas investigações, no comportamento inteligente e equilíbrio emocional para lidar com os problemas e Jay como catalisador dos conflitos que regem o desfecho da temporada, questões que serão citadas mais adiante. Adrian Boseman (Delroy Lindo) segue adiante com firmeza na administração dos casos e do escritório, Julius Cain (Michael Boatman) mantém o perfil “sombra” dos manuais de roteiro, alguém que não sabemos até que nível é confiável. A chegada de Liz Lawrence (Audra McDonald) para acrescentar força ao time de advogados do escritório inicialmente é incerta, pois ela representa uma espécie de competidora de Diane, mas ao passo que a narrativa avança, as personagens se unem para engrossar o caldo do movimento feminino entre os funcionários, uma das características da série focada no empoderamento das mulheres e na equidade racial, um dos problemas sociais mais fervorosos dos Estados Unidos desde sempre.

De volta ao representante da extrema direita estadunidense. Em seu discurso de posse, o presidente foi bem direto: “A América em primeiro lugar”. Apesar de seus muitos seguidores apaixonados, Trump também colecionou uma série de desafetos ao longo de sua trajetória nefasta. Quando digo nefasta, não delineio em nenhum momento as suas ideologias racistas e machistas, mas a forma desrespeitosa como se porta, haja vista o importante cargo que lhe foi concedido. Presidente de uma nação que há tempos desempenha um papel político desarticulador diante do mundo, rodeada sempre dos mesmos conflitos imperialistas. É nessa linha que a série avança, com críticas muito bem costuradas ao tecido dramático, sem tornar-se, como dito anteriormente, um panfleto histérico.

Chicago, como Diane reforça numa situação conflituosa do penúltimo episódio, é uma “cidade santuário”, espaço que desde os anos 1980, não se dispõe a colaborar legalmente ou em nível de polícia com os agentes da imigração. Tais cidades dependem desses imigrantes, principalmente em ramos como a agricultura e a construção civil. A administração Trump, interessada no arrocho das pessoas que vivem diante de tal situação, reforça o ódio contra quem é de fora. A única exceção parece ser Melaine Trump, oriunda da Eslovênia, figura que hoje ocupa o posto de esposa de sua esposa. Segundo muitos especialistas no ramo da política, ela obteve o seu “visto Einstein” por meios escusos. Outros a consideram uma mulher merecedora. Mas, afinal, qual foi a contribuição da primeira dama para conseguir o carimbo tão valioso? O visto Einstein é parte de um programa de residência para estrangeiros com, digamos, “capacidades extraordinárias”, pessoas que contribuíram cientificamente ou culturalmente para alguma causa importante. Atrizes ganhadoras do Oscar, atletas olímpicos e executivos com projetos inovadores são alguns dos tipos que englobam a lista dos que pleiteiam a prerrogativa, mas será que a musa de Trump, em 2001, fez por merecer para isso? Se ela pode exercer a sua cidadania estadunidense em contribuições comprovadas, por quais motivos personagens como Jay Dispersia não podem continuar como investigador e dar a sua contribuição ao país? A série flerta com a questão, sem nunca ser didático ou apresentar discurso inflamado.

Outra polêmica interessante e que rende discussões políticas para a própria sociedade do espetáculo perpetrada pelo midiático Trump é o caso das prostitutas russas, baixaria que veio à tona com o livro publicado por James Comey, ex-diretor do FBI. Segundo o autor, em 2013, no Hotel Ritz-Carlton, situado em Moscou, Trump participou de uma suposta sessão selvagem de sexo com várias prostitutas, em “rituais” que envolveram urina na cama em que Obama dormiu com a esposa durante uma visita. A série traz essas e outras polêmicas sem perder a classe e o charme de um entretenimento de primeira linha.

The Good Fight se tornou uma série digna de inveja por parte de outros produtos que investem em críticas sociais, mas não conseguem êxito estético. A direção de fotografia de Tim Guinness e Fred Murphy acerta nos enquadramentos e na iluminação sofisticada, o design de produção de Stephen Hendrickson é eficiente ao construir os espaços de circulação dos personagens e conflitos, os figurinos de Daniel Lawson continuam vestindo muito bem cada um dos representantes da Reddick & Boseman. O visual é deslumbrante, a montagem sabe o momento certo de cortar e os escritores trabalharam bem os diálogos para o desempenho dramáticos do elenco que pode se gabar de ter atores e atrizes muito talentosos.

Michelle King, Robert King e Phil Alden Robinson acertaram novamente ao escalar uma competente equipe de roteiristas e diretores, dando ritmo aos treze episódios da segunda temporada. Ágil e sem suavização, a crítica política se mantém firme, sem deixar o humor e as necessidades dramáticas dos personagens em desequilíbrio. Renovada para uma terceira temporada, The Good Fight tem o desafio de continuar relevante em meio à grande oferta de séries com a temática semelhante.

The Good Fight – 2ª Temporada – EUA, 04 de março a 27 de maio de 2018.
Showrunners:  Michelle King, Robert King, Phil Alden Robinson.
Direção: Jim Mckay, Broke Kennedy, Ron Underwood, Allan Arkush, Marta Cunnigham, So Yong Kim
Roteiro: Joey Martstone, Tegan Shohet, Marcus Dalzine, Ryan Pedersen, Aurin Squire
Elenco: Connie Britton, Angela Bassett, Peter Krause, Oliver Stark, Aisha Hinds, Kenneth Choi, Rockmond Dunbar
Duração:  50 min (cada episódio – 13 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.