Crítica | The Handmaid’s Tale – 2X13: The Word

The Word o conto da aia The Handmaid's Tale

  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Um episódio muito difícil de analisar. De digerir. De abraçar. E não digo isso por “motivos de dificuldade emocional“, pois já tivemos estes, aos montes, no decorrer da temporada — e sofremos, choramos e convivemos com eles. Já este Finale da 2ª Temporada de The Handmaid’s Tale, para mim, foi difícil de uma outra forma. Foi difícil como entendimento de construção narrativa para ele e para a série.

Uma reclamação que deixei clara em Postpartum, foi o que considerei como uma ocasião desperdiçada e não-uso do próprio material que a série havia nos fornecido previamente. O incrível Holly já havia estabelecido um motivo de mudança (que simplesmente não veio) e, entre um cliffhanger abandonado, más explicações e novo ciclo sem necessidade alguma, o episódio se segurou apenas por um sólido e aplaudível bloco e pelas constantes grandes atuações e composições técnicas, algo que volta acontecer nesse derradeiro capítulo de temporada. Minha colocação inicial a respeito vem sob uma simples questão: se era para June seguir este caminho, por que é que o tempo todo o roteiro construiu um cenário para que ela escapasse e não que desejasse mudar o país por dentro?

A primeira defesa que alguém pode fazer aqui é a seguinte: “sem June em Gilead não tem série“. Justo. Mas então por que o espaço da fuga foi destacado sem absolutamente NENHUMA exposição de mudança interna ao longo de duas temporadas inteiras? Não é alta ciência, não é uma exigência purista. Creio que a maioria de vocês, leitores, também são seriadores e só de verem muitas séries, sabem muitíssimo bem como funcionam as regras do jogo nesta mídia. E não só nela. É uma questão de coerência narrativa para qualquer tipo de roteiro ou desenvolvimento de personagens em uma história de ficção. Se você vai mudar as bases textuais ligadas a este indivíduo, você só tem duas saídas que poderão ser boas no fim da linha: 1) você mata o personagem e aí se vê livre de ter que segurá-lo ou arrumar justificativas adicionais para ele (o Efeito Marion Crane) ou 2) você dá indícios do que esse personagem poderá protagonizar, fugindo de sua atual linha normativa. Em frase simples: você contextualiza a mudança.

O que Bruce Miller faz aqui, para mim, é “imperdoável”. Não no sentido de “uh, vou abandonar a série” (não sou desses), mas no sentido de “uh, #fuitapeado” — e isso da pior forma possível. Notem que esta Segunda Temporada contou com três episódios a mais na grade. Falta de tempo não foi. Aliás, o aumento de episódios não foi benéfico em nenhum aspecto para The Handmaid’s Tale. Todavia, supunha-se que o tempo extra seria utilizado a favor da escalação de uma mudança conjuntural ou estrutural na série e, no ponto de desgraças constantes em que estávamos, qualquer uma das duas coisas seria bem vinda. E eis que o showrunner escolheu a mais radical de todas, a mudança estrutural (ótimo, corajoso!), mas fez isso quase que de maneira aleatória, aproveitando-se de um ponto muitíssimo forte, como a segunda separação entre mãe e filha, para dar cabo da fuga apenas de Emily com e Holly/Nicole em cena. June… bem, June escolheu ficar em Gilead. Vamos repetir? JUNE ESCOLHEU FICAR EM GILEAD!

A segunda defesa que alguém pode fazer aqui é a de ligação entre June e Hannah, afinal “ela não ia deixar sua outra filha para trás“. Isso é só parcialmente aceitável. O primeiro argumento, de ligação entre June e Hannah, é a mais pura bobagem. June é uma mãe amorosa. É óbvio que ela estaria ligada à filha. E todos nós sabemos que, por mais de uma vez, à parte o peso moral e emocional que isso tem, a questão de Hannah nunca foi um empecilho para a fuga. Logo, essa cartada é inválida. Já o segundo argumento eu consigo entender de onde vem, todavia, caímos novamente na má estrutura do enredo da temporada para se chegar a esse ponto. Se June iria querer ficar em Gilead pra salvar Hannah, Serena, Nick, suas amigas aias, Rita… não importa, estamos em uma ficção e tudo isso é perfeitamente possível… desde que haja coerência por parte do roteirista, criando caminhos para que isso aconteça. Do jeito que foi feito aqui, a revolta de June e a escolha para ficar foi uma solução insólita que simplesmente aparatou dos confins da Terra dos Finais Mal Estruturados de série. Nada bom.

O bloco de Emily, novamente, se destacou como a melhor coisa do capítulo, que, para a nossa alegria, se juntou a outras boas cenas pontuais no decorrer da trama. A cena com Tia Lydia fez meu coração bater tão forte que eu tive medo de infartar. Achei genial. Não esperava aquilo e o desenrolar do fato para a próxima temporada já está na minha lista de altas expectativas, especialmente agora que Emily não estará lá. Outro ponto de destaque foi a “revolta” de Serena, sua união com outras Esposas, a leitura da Bíblia e a perda do dedo, o que deve servir (será, será?) para que ela veja que lutou a vida inteira por uma causa que não a via como alguém digna sequer de pedir para ler o livro-base no qual essa sociedade foi construída.

Pois aí está. A verdadeira definição histórico-sociológica de “você teve exatamente o que pediu“. É aquela velha história:  cuidado a ideologia que você defende e as coisas que você se coloca contra… Hoje, os políticos e juristas parças tiram cosias de quem você não gosta. Até que se engrandeçam tanto com o poder extra dado a eles — os chamados “heróis salvadores” — que passarão a tirar tudo, inclusive de você. Desde o Império Assírio isso acontece. Mais de 2.700 anos de padrões históricos exatamente iguais para analisar. E ainda tem gente que cai na armadilha e sai por aí gritando loas e erguendo altares para os cerceadores de liberdades individuais e reinterpretadores de leis para desfavorecer inimigos e passar o pano para amigos. Ah, as Serenas da vida… Um dedo ainda é pouco. Na vida real, seria a cabeça.

A direção de Mike Barker, especialmente na parte final do episódio, foi algo para ser aplaudido de pé. O diretor segurou como ninguém o ritmo para os diferentes blocos de tensão, chegando ao ponto onde o resgate viria e… bem… quebrando novamente o ritmo para a execução de um mal caminho do texto, com a permanência de June. Penso que a próxima temporada nos dará lampejos que como essa união de Martas aconteceu, nos bastidores, e o que será de June a partir de agora. Eu espero muitíssimo que ele não volte para a casa do Waterford e que faça a sua “jornada de vingança” (ele ficou para isso, certo?) a partir de um QG secreto, sei lá. Rogo para que os desequilíbrios de concepção da segunda parte dessa temporada não retornem no terceiro ano. Este segundo foi bom, mas com uma questionável visão de mudança. A vida segue, porém. Que venha a queda de Gilead…

The Handmaid’s Tale – 2X13: The Word (11 de julho de 2018)
Direção: Mike Barker
Roteiro: Bruce Miller
Elenco: Elisabeth Moss, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Alexis Bledel, Madeline Brewer, Amanda Brugel, Ann Dowd, O-T Fagbenle, Max Minghella, Bradley Whitford, Ever Carradine, Stephen Kunken, Julie Dretzin, David Tompa, Birgitte Solem
Duração: 63 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.