Crítica | The Handmaid’s Tale – 3X04: God Bless the Child

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  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Depois de Useful, algumas dúvidas sobre o caráter da luta a ser travada em Gilead apareceram. Por experiências anteriores, sabíamos que uma ação direta por parte do baixo escalão dessa sociedade só poderia fazer estragos pontuais, desacertar um pouco o andamento da vida das aias (lembram-se da bomba?), mas a médio e longo prazo as coisas iriam voltar ao normal. E a questão aqui é inteiramente política, em sua mais básica forma. Para que uma sociedade realmente mude, para que uma revolução de hábitos e rumos de uma civilização aconteça, a mudança deve acontecer na estrutura. E é isso que vislumbramos pela primeira vez aqui em God Bless the Child.

O roteiro de Eric Tuchman procura manter as coisas centradas em um espaço mais seleto e usa o evento de apresentação (o batismo das crianças) para estruturar a narrativa. Em séries mais complexas como The Handmaid’s Tale, este é um recurso textual que eu gosto bastante, porque ajuda a conexão do público com o “novo momento” proposto pelo autor e sempre faz a série avançar, evitando, inclusive, o “caso aleatório da semana“, onde nada de importante acontece e onde os personagens repetem falas e comportamentos que já conhecemos muito bem. Notem que aqui em God Bless the Child não encontramos nada desse tipo de enrolação. O enredo se desenvolve sem pressa, é verdade, mas essa é a questão: ele se desenvolve.

Em paralelo, temos o flashback para o batismo da primeira filha de June e a reconexão de Emily com o filho, um bloco absurdamente dolorido e que me espantou quando eu percebi o que o autor estava fazendo — aliás, essa premissa foi colocada desde o episódio passado: a dor, o trauma, o sofrimento podem claramente ser sentidos em ambientes fora do horror de Gilead, mesmo quando tudo vai bem. A cena da leitura do livro de dinossauros me fez desabar. A delicadeza da direção, a atuação linda de Alexis Bledel e a preciosidade do menino lendo, percebendo que a mãe estava chorando… sério… que negócio mais emocionante. Este é o tipo de cena que nos mostra algo essencial: para trabalhar sentimentos e explorar questões bastante humanas não são exatamente necessários gritos, desespero e o horror à toda prova. Vejam o nível de emoção e a força de uma cena como esta, por exemplo.

Em Gilead, após a cerimônia com as crianças, temos a recepção na casa dos Putnam — que é onde “tudo dá errado”. Ou quase. O comportamento de Janine aqui foi uma verdadeira roda gigante de emoções e tensão e eu me impressionei positivamente com o drama criado. Tudo coisa simples, mas muito bem feita, com resultados intensos, sempre com o pé no chão. Após os meus elogios rasgados ao tom adotado nos três primeiros episódios desta 3ª Temporada, todos disponibilizados na primeira semana, fico bastante feliz em perceber que é algo que perdurará no show. Amém. E no mesmo núcleo, vemos intensificar-se a conexão entre June e Serena, com os devidos percalços que esse tipo de relação pode ter. E aqui, fecho o ciclo do meu argumento trazendo à tona a ideia de mudanças na estrutura. É possível que eu tenha feito um erro de julgamento no capítulo anterior, quando coloquei em perspectiva a atuação de June como uma “força de mudança solo” em Gilead. Parece que a coisa funcionará mesmo como um drama político cuidadoso e não apenas a intriga punitiva tendo June como ícone a ser mal interpretado mais adiante. Começo a respirar mais aliviado.

Embora eu não tenha gostado muito da montagem na primeira parte do episódio (o ritmo é bem estranho nas cenas em Gilead) e o flashback de June, apesar de lindamente dirigido e fotografado, parecer meio preguiçoso e carente de mais coisas acontecendo, God Bless the Child foi realmente um bom episódio. E mais dois medos se somam à minha longa lista com essa série: a nova companheira de caminhada de June e, em outra camada, Luke. Uma, pelo que pode representar de revés para as aias e outro, porque me deu a impressão que Gilead está de olho nele, o que não é uma coisa boa. O que isso pode representar para ele e para a série?

A propósito: será que logo teremos um flashback de Tia Lydia? O que foi esse descarrego de ódio aqui? Ann Dowd mais uma vez dando um verdadeiro show de interpretação! Quero que o arco dela se desenvolva bem mais nessa temporada. E vocês?

The Handmaid’s Tale – 3X04: God Bless the Child (12 de junho de 2019)
Direção: Amma Asante
Roteiro: Eric Tuchman
Elenco: Elisabeth Moss, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Alexis Bledel, Madeline Brewer, Ann Dowd, O-T Fagbenle, Samira Wiley, Ever Carradine, Ashleigh LaThrop, Samy Osman
Duração: 53 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.