Crítica | The Handmaid’s Tale – 3X10: Bear Witness

  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Finalmente!

Depois do pior episódio da temporada até aqui (Unfit) e do pior roteiro já escrito para June em toda a série até o momento, mais um arco inútil envolvendo a opressão de uma oprimida por outra oprimida de um sistema e a descaracterização da protagonista do show — no melhor estilo de fanfic inconsequente para enganar quem se deixa enganar facilmente — voltamos ao que temos de melhor em The Handmaid’s Tale, que é um roteiro intenso, bem escrito do começo ao fim, lógico nas propostas que entrega e, acima de tudo, que faz a série avançar, algo que não estava acontecendo e que afastava ainda mais espectadores do programa — não sem razão, vamos convir.

Jacey Heldrich segue na construção do trabalho sólido em torno do sistema político de Gilead, de seus opressores, de suas vítimas e de seus atos vis. A sequência da Cerimônia volta… e todo o horror do estupro em nome de Deus e da procriação tem aqui um efeito catalisador daquilo que a temporada nos promete desde o trailer; que introduziu na trindade lançada já na primeira semana e que do nada deixou de lado para perder tempo com coisas que não serviram à série. Como eu já havia falado com alguns leitores por aqui, minha fé na série prosseguiria até o final, apesar do medo de não dar tempo de muita coisa acontecer. E isso se deve a um simples fato que, imagino, todo mundo em sã consciência também consegue perceber: a marca filler desta terceira temporada deixou muitas linhas dramáticas em suspenso e, para que a temporada se mantivesse em alta, era preciso puxar cada uma delas de modo ágil, mas sem atropelos. Bom roteiro, sabem? Pois bem. Foi justamente isso que aconteceu aqui em Bear Witness.

Embora o caráter da inspeção pelo Comandante Winslow tenha quase brotado em meio a um esperado recrudescimento por parte do Estado — consequência da saída de Nichole para o Canadá –, sua colocação aqui não demorou muito tempo para se fazer valer. Fred parece se enveredar para caminhos que possuem ainda mais a cara do sistema e o contato direto com Winslow, somado à sede de poder, certamente está tendo um resultado de maior peso negativo em suas ações. Isso e o fato de haver uma forte carga sentimental e egoica ligando-o a June e à humilhação em torno do fato de ter a “filha sequestrada”. Sua presença, bem como a de Serena, serve como um imenso contraste por dentro do sistema, uma espécie de “ovo da serpente” que pode dividir alguns escalões do controle dessa nação e então enfraquecê-la passo a passo. Isso não é historicamente ou ficcionalmente uma novidade (na TV, cinema ou literatura), então a gente consegue até completar as ligações dramáticas com o início da temporada sem necessariamente precisar de cenas ou sequências de contexto para tanto.

Volta aqui a dubiedade em torno de Serena (o status que acredito ser o mais interessante para ela do que apenas a pura vilã, visto que esse tipo de personagem já temos aos montes na série) e suas ações novamente deixam uma porção de dúvidas. Como o texto aqui indica uma maior união entre as mulheres e o real objetivo em torno da série está pouco a pouco ganhando forma, os assuntos em suspensão que citei anteriormente acabam ganhando espaço sem muito esforço. Notem como cada bloco do episódio traz surpresas, tristezas e alegrias envolvendo diversos grupos de mulheres, em distintas situações de relação com as regras dessa ditadura e em distintos estágios emocionais, agora com um objetivo em comum — até que fim! — chegando para todos os grupos femininos.

Com uma direção muitíssimo elegante de Daina Reid, que sabe exatamente o quê e como mostrar as coisas a ponto de deixar fúria, curiosidade e outras emoções no espectador, Bear Witness é, em andamento e exposição de personagens, o que essa temporada inteira deveria ter sido. Como disse antes, a rusga do episódio está apenas na motivação direta para a inspeção de Winslow, mas isso é algo que logo se ajusta no propósito do capítulo e resulta em um inteligente concatenador de temáticas. É aquela história: bons roteiros fazem milagres, não descaracterizam personagens ou inserem arcos inúteis na temporada. Será maravilhoso se os três capítulos seguintes seguirem por este mesmo caminho de boas abordagens. Bendito seja o fruto.

p.s.: Janine! Janine! Janineeeeeeeeee!!!

The Handmaid’s Tale – 3X10: Bear Witness (24 de julho de 2019)
Direção: Daina Reid
Roteiro: Jacey Heldrich
Elenco: Elisabeth Moss, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Madeline Brewer, Amanda Brugel, Ann Dowd, Bradley Whitford, Christopher Meloni, Julie Dretzin, Kristen Gutoskie, Nina Kiri, Bahia Watson, Sugenja Sri, Yahsmin Daviault, Stephanie Ng Wan
Duração: 48 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.