Crítica | The Handmaid’s Tale – 3X11: Liars

  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Ao que tudo indica, a tríade final de episódios neste terceiro ano de The Handmaid’s Tale terá a mesma agilidade e trabalho de conceitos com mudanças no tom do programa que vimos nos capítulos de abertura, a saber, Night (1X01), Mary and Martha (1X02) e Useful (1X03). E quando a gente chega em um episódio como Liars, há uma imensa felicidade em ver que os roteiros enfim estão fazendo o amplo uso de tudo o que a série tem para oferecer. Só que dessa vez é ainda melhor. Porque se trata de uma vitória para June. E um largo passo para abalar as estruturas de Gilead.

A roteirista Yahlin Chang (que também é uma das co-produtoras executivas do show) divide a narrativa em dois blocos: June e os Waterfords. Eu confesso que tenho um pé atrás com narrativas duais, porque é muito frequente os roteiristas utilizarem o bloco mais forte (em diversos sentidos) para “disfarçar” a necessidade de um bloco mais fraco, normalmente resolvendo problemas de personagens secundários, criando pontes imediatas entre indivíduos ou abrindo possibilidades iniciais para que a série ande nos pontos em que estava estacionada. Este, porém, não é o caso de Liars.

A luta de June para conseguir apoio das Marthas e depois para manter a ajuda do Comandante Lawrence tem uma imensa carga de maturidade psicológica e de visão social para todos os envolvidos, assim como a viagem clandestina de Fred e Serena, que coloca um pá de cal na aparência do relacionamento entre os dois e termina com uma excelente cena de prisão em território canadense, deixando uma piscadela de dúvida se Serena sabia de tudo… ou se foi pega de surpresa, assim como o marido. As duas histórias aqui fluem como um marcante suspense e recebem da diretora turca Deniz Gamze Ergüven o melhor tratamento possível para as mulheres, em termos de ação. Fala-se bem menos em Liars e mostra-se bem mais.

O bloco de June se constrói a partir de um estilo hitchcockiano, onde o suspense é traduzido na expectativa de uma empreitada impossível. Até aí, não estamos diante de uma novidade na série, correto? O último exemplo mais forte disso foi em The Word, que acabou como acabou. Mas vejam só o que escritora e diretora fazem no presente caso. A expectativa não é inconsequente, não está colocada como esperança vazia, não está alheia às dificuldades no processo de execução do plano e, acima de tudo, consegue ser realista o bastante para contar com o revés imediato. Dessa forma, o texto não cria uma esperança alta no público para depois frustá-la, apenas como espetáculo para enganar quem se impressiona fácil. O texto joga com aquilo que faz a série caminhar para frente, mostrando mais dos bastidores e contatos das mulheres nessa sociedade (o ideal de sororidade volta ao show em um par de cenas aplaudíveis!) e firma os pés no aprendizado e evolução dos envolvidos, especialmente de June, algo que me deixa imensamente feliz.

Já o bloco dos Waterfords, fotograficamente tomado por uma paleta cinza e verde (em contraste com o filtro laranja que marca todo o bloco de June), está cheio de sugestões de que algo ruim está para acontecer. Esta parte de Liars é uma acompanhante mais plácida das ações no bloco de June, sendo a montagem aqui uma verdadeira pérola na manutenção do ritmo e da lógica entre as duas partes, mesmo que não haja uma elegância na composição geral dos planos, como no caso da outra preciosidade da temporada: Household.

Embora caminhem em ritmos diferentes, com tratamentos estéticos opostos e tendo diferentes consequências para a série, ambos carregam algo de suma importância em termos de ação. A prisão de um lado e um belíssimo assassinato do outro. June agora está lutando exatamente contra quem ela deveria lutar: o sistema. E quando isso resulta em algo positivo… ah, o prazer é todo nosso. A cena do assassinato é uma das mais fortes e mais libertadoras que eu já vi na série e, mesmo que todo o elenco esteja incrível, não dá para não exaltar (mais uma vez!) a grande Elisabeth Moss.

Agora, como sempre, após uma vitória, a reação do sistema virá. Pois que venha. A nossa rainha de gelo está de volta… As mulheres, enfim, se levantarão.

The Handmaid’s Tale – 3X11: Liars (31 de julho de 2019)
Direção: Deniz Gamze Ergüven
Roteiro: Yahlin Chang
Elenco: Elisabeth Moss, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Amanda Brugel, Bradley Whitford, Christopher Meloni, Sam Jaeger, Julie Dretzin, Kristen Gutoskie, Deidrie Henry, Sugenja Sri, Diane Johnstone, Débora Demestre, Paniz Zade
Duração: 48 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.