Home TVEpisódio Crítica | The Handmaid’s Tale – 4X01 a 3: Pigs, Nightshade e The Crossing

Crítica | The Handmaid’s Tale – 4X01 a 3: Pigs, Nightshade e The Crossing

por Luiz Santiago
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  • SPOILERS! Confira as críticas para os outros episódios da série e para o Universo criado por Margaret Atwood  aqui.

Nossa, o que a gente mais precisava era algo para deixar a gente com raiva, não é mesmo? Sendo o mundo e o Brasil esse lindo Paraíso róseo que é, só mesmo na ficção entraríamos algo para odiar… E lá vamos nós outra vez, embebidos em ironia, bile e lágrima.

A palavra que definia o meu status como espectador e crítico responsável por acompanhar The Handmaid’s Tale por episódio aqui no Plano Crítico era “receio“. A 3ª Temporada da série já tinha trazido um número bem grande de problemas de desenvolvimento, caindo constantemente no buraco da repetição de um ciclo que, a despeito das sublimes interpretações do elenco (impressionante como não tem um ator, uma atriz atuando mal nessa série), do desenho de produção e em geral da direção, os textos constantemente saturavam espectador, jogando de novo e novamente na tela algo que já tínhamos visto inúmeras vezes. E este não era o único problema.

No miolo da temporada passada, June passou por uma horrenda descaracterização de personagem, um problema que ao longo de quatro capítulos gerou algumas das discussões mais acaloradas entre os espectadores da série, principalmente porque colocava na cabeça do movimento de derrubada de Gilead um comportamento irresponsável e totalmente fora de seu padrão de ação ou mesmo de qualquer possível desenvolvimento. Até hoje não consigo entender como Bruce Miller tenha tido a coragem de dar o aval para que aqueles roteiros fossem filmados daquele jeito e no fim, exibidos. Juntem essas duas pontas e, pelo menos no meu caso, aí estavam as principais fontes de meu receio em relação à 4ª Temporada. E qual não foi a minha surpresa ao ver os mesmos elementos cíclicos — que poderiam facilmente fazer um repeteco do que víramos no ano anterior — reformulados e colocados de uma forma bem mais madura na tela.

Vejam o arco do Canadá, por exemplo. Sem ter muito o que fazer com a personagem de Serena, além de confrontá-la com diversas questões legais à borda do marido — e não cito Fred como parte dessa percepção porque ele tem como acusação os crimes contra a humanidade, aí já é outro peso –, os roteiristas terminaram por fazer com que ela ficasse grávida, e isso muda toda a história! Vemos aí a conclusão de um arco da personagem que se ergueu desde a 1ª Temporada, tornando inúmeras as possibilidades para ela agora, já que adiciona à mesa um número enorme de elementos éticos e morais em caráter de dilema. E notem que esses três episódios de estreia são inteiramente focados em dilemas.

Esse tipo de abordagem dramática é uma riquíssima estratégia para tornar os personagens mais profundos e para fazer com que as situações não sejam simplesmente reações a alguma coisa, mas uma sequência orgânica de eventos condizentes com a série, fazendo jus a tudo o que foi construído até o momento. Mais um exemplo disso? Veja Luke! A maneira como ele se coloca diante do ciclo de notícias sobre June é a mais humana e compreensível possível. Sua raiva, sua frustração, sua forma de pensar são excelentes exemplos de alguém sobrecarregado por tragédias e que ainda se vê na obrigação (pessoal) de fazer alguma coisa, não apenas pelo seu sentimento, mas pelo dever humano que sente. Uma baita alavancada no discurso do personagem, que realmente estava precisando disso.

Em Gilead, os mesmos dilemas acontecem, e aqui a gente teve um tríptico de ações que nos sugerem o tom da temporada, com June entre a problemática liberdade e posterior prisão e torturas — o episódio 3, dirigido pela própria Elisabeth Moss, é o ponto alto disso, sendo uma das melhores e mais dolorosas horas que já tivemos na série, com tortura de câmara e, de novo, um baita dilema moral para June: impedir que a filha fosse machucada ou entregar o esconderijo de suas companheiras? Os textos investem na desconfiança e entre o perigo da captura, faz com que a gente espere o pior de qualquer pessoa, mesmo as que estão ajudando. Vejam, por exemplo, como a personagem Mrs. Keyes (Mckenna Grace) é brevemente desenvolvida. Vemos o seu lado bom e o seu lado mau, de modo que desconfiamos dela em boa parte do tempo. E para tornar ainda mais complexa a questão, descobrimos a sua motivação emocional/traumática/psicológica para agir do jeito que age, e temos um outro choque quando June entrega a faca a ela e a manda matar o infame que a estuprava.

Há uma complexidade muito maior em The Handmaid’s Tale, e isso se encontra em todos os blocos. Tia Lydia agora parece assumir o lugar de ódio e dubiedade que antes pertencia a Serena. Temos mais um Comandante para odiar e também ficamos apreensivos em relação ao que vem pela frente, em termos de política internacional. A série já foi renovada para a 5ª Temporada, então não veremos esse regime nojento cair este ano, mas fica a dúvida: estamos realmente vendo uma preparação? A ida das crianças e das Marthas para o Canadá vai desencadear ações drásticas de Gilead, a ponto de lhe trazer a ruína? Muitas coisas acontecendo e muita água para rolar ainda, mas é fato que estamos diante de uma temporada bem diferente. Até o relacionamento de June e Nick voltou à baila e pode ser considerado como um tipo de dilema moral. Pelo visto, teremos cada vez mais decisões impossíveis para tomar no decorrer desse quarto ano da série. Pelo menos o início já fizeram sob esse molde. Se seguir com a mesma qualidade por todo o restante da temporada, será um dos melhores anos do show.

The Handmaid’s Tale – 4X01 a 3: Pigs, Nightshade e The Crossing (EUA, 28 de abril de 2021)
Direção: Colin Watkinson (os dois primeiros) e Elisabeth Moss (o terceiro)
Roteiro: Bruce Miller, Kira Snyder (baseado na obra de Margaret Atwood)
Elenco: Elisabeth Moss, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Madeline Brewer, Ann Dowd, Sam Jaeger, Max Minghella, Bradley Whitford, Mckenna Grace, Stephen Kunken, Nina Kiri, Bahia Watson, Jonathan Watton, Alexis Bledel, Amanda Brugel, O-T Fagbenle, Samira Wiley, Zawe Ashton, Laura Vandervoort, Alexandra Castillo, Reed Birney, Kristen Gutoskie, Jordana Blake, Krista Morin, Sugenja Sri
Duração: 62 a 47 minutos

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