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Crítica | The Handmaid’s Tale – 4X04: Milk

por Luiz Santiago
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  • SPOILERS! Confira as críticas para os outros episódios da série e para o Universo criado por Margaret Atwood  aqui.

Uma evolução e tanto. Já são 4 episódios de uma nova temporada onde fica cada vez mais difícil entender por que o showrunner demorou tanto para adotar esse caminho narrativo para The Handmaid’s Tale antes, mostrando os dissabores de June e Janine, mas apresentando uma evolução em termos de andamento geral da série, não apenas seguindo um interminável ciclo de ações ou reações. E quando falo isso, não estou apenas apontando para “atos similares” ou coisas do tipo. Similaridade em conceitos-chave de uma série de TV é obrigatório, porque isso é a essência do show, se mudar, muda-se a série. A minha reclamação (e tenho certeza que a de muita gente) era justamente a estagnação dramática. A 2ª Temporada e a 3ª Temporada do programa foram, majoritariamente, um loop de exata dinâmica de funcionamento para “possíveis vitórias e consequentes derrotas das aias“. Daí surgiram os mais diversos adjetivos que articulistas e espectadores passaram a dar à série, alguns vergonhosamente estúpidos e outros criticamente verdadeiros.

Esta 4º Temporada preza por uma elevação de coisas que o espectador já conhecia, e como expus na crítica da tríade de estreia, torna tudo mais instigante, completamente pautado por um dilema moral e por um acréscimo de profundidade para os personagens que, confesso, eu nunca esperaria ver aqui, especialmente depois da temporada anterior. Notem como o texto de Jacey Heldrich trata a fuga de June e Janine. Não há contra-ataque desnecessário, não há força empregada, não há conflito bobo acontecendo. Em termos de obstáculos e ações morais ou situacionais, tudo está estrategicamente localizado, desde a entrada da dupla no vão-refrigerador que transportava leite… até o confronto de June com Steven (Omar Maskati). Esse confronto, aliás, é um gigantesco soco, mostrando que o tratamento da mulher como tendo apenas o sexo para oferecer não é exclusivo de sociedades ditatoriais, funcionando sob uma podre égide cristã. O machismo que escraviza sexualmente as mulheres em Gilead é o mesmo que torna condicional a presença de duas mulheres em um refúgio mediante uma prática sexual como pagamento.

E por falar em cristianismo, quero levantar aqui uma bola que não quis levantar nos episódios passados porque achei cedo. Queria ver como isso teria continuidade. Mas após esse episódio já dá para ver a intenção da produção diante desse assunto. O que muita gente esperava era que Rita, após a saída de Gilead, se voltasse contra sua religião, após sofrer tanto e ver sofrer tanta gente em nome de Deus, da moral, dos valores tradicionais e dos bons costumes. Mas não é isso que acontece. E essa mesma percepção se espalha para outros personagens. Vejam como Janine mantém a sua fé em Deus, mesmo depois de tudo o que passou. Ou como June também mantém a sua fé. É muito curioso que a relação dessas mulheres com Deus permaneça, a despeito de tudo o que fizeram com elas em nome desse mesmo Deus. É um tipo de relação que me incomoda, como ser humano crítico e não-religioso, mas ao mesmo tempo me faz ver a beleza da fé, deixando claro a experiência espiritual de cada uma com o divino, algo que passa por cima daquela situação toda.

Essas mulheres entenderam que o Deus em quem confiam, em quem acreditam e de quem esperam o melhor, não é a matriz de todo o sofrimento que lhes foi infligido. Esta, aliás, seria uma separação bem-vinda para inúmeros religiosos em nossos tempos, pois o que temos hoje é uma horda de supostos cristãos achando que Deus é um assassino cósmico-mor. Um vingador Universal que se compraz em matar e castigar. Só que se esquecem que isso não é cristianismo em canto nenhum, isso é fascismo místico mesmo. Igualzinho Gilead. A maneira como a fé em Deus é exposta nesses episódios vai por um caminho oposto. Separa a violência em nome de Deus, da fé em um Deus que condena a violência. E por mais simples que isso possa ser, colocado numa série como essas, não deixa de ter um enorme impacto sobre nós.

Vale ainda a apreciação da montagem nesse episódio, mantendo o nível que vimos nos capítulos anteriores. A passagem de espaço para espaço e de personagem para personagem é uma mais inteligente que a outra, e visualmente nos dão pistas e indicam sentimentos que demorariam muitas páginas de roteiro para se conseguir via diálogos. Um exemplo? Toda o cerco feito em torno de Fred e Serena, tendo Rita como ligação. A fé, a noção de família, o milagre da maternidade e da paternidade e o que isso implica para os Waterford é essencialmente conseguido através de uma excelente montagem, já que os diálogos entre Rita e seus antigos proprietários são os mais curtos possíveis. E aí também entra a aplaudível direção de Christina Choe, que sabe trabalhar com pouco texto e como mostrar o essencial para o público nos momentos de silêncio. Parece fácil, mas não é, e muito diretor experiente escorrega constantemente nesse tipo de abordagem.

Milk dá mais um grande passo adiante na série e parece que afasta June e Janine para articular algo — podemos sonhar? — como o fim de Gilead, ou pelo menos os ataques que trarão o fim. A série já foi renovada para a 5ª Temporada, e como não sabemos se haverá mais show além disso, ficamos um pouco na expectativa sobre o que esse novo momento significa. O que quer que seja, se continuar recebendo esse mesmo tratamento, que se estenda pelo tempo necessário para finalizar de modo perfeito essa saga. Que não seja apenas aquela situação em que após a gente elogiar, começa a estragar.

The Handmaid’s Tale – 4X04: Milk (EUA, 28 de abril de 2021)
Direção: Christina Choe
Roteiro: Jacey Heldrich
Elenco: Elisabeth Moss, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Madeline Brewer, Amanda Brugel, Sam Jaeger, Samira Wiley, Nona Parker Johnson, Omar Maskati, Sophia Walker, Allison Edwards-Crewe, Paloma Nuñez
Duração: 47 minutos

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