Train, Exile e Devotion abrem a 6ª Temporada de The Handmaid’s Tale com grande densidade emocional e promessas de um ano final cheio de surpresas, no caminho da revolução que pretende resgatar mais crianças de Gilead e, se possível, destruir a nação. Há algo de cerimonial na maneira como a trama retoma os fios soltos da temporada anterior, jogando June e seus aliados na resistência, enquanto Gilead tenta enfeitar o seu fascismo cristão para seduzir olhares internacionais. A direção de Elisabeth Moss (Train e Exile) e David Lester (Devotion) costura esse início com intimidade e grandiosidade, sustentando essa relação com uma trilha sonora que, no início de Train, invade o silêncio mais do que deveria, mas depois entrega excelentes passagens temáticas para grupos ou personagens principais (com destaque para a reapresentação Nick). É um começo que não apenas empurra a história adiante, mas planta sementes de reflexão sobre o que significa lutar e sobreviver num mundo polarizado e em programada transformação.
A jornada de June e Serena num vagão que corta a noite como um símbolo de transição e incerteza é uma ótima retomada de onde paramos, em Safe. A câmera deslizando pelos trilhos até encontrá-las, com seus filhos, faz o papel de visão externa que se aproxima para revelar a progressão de algo muito importante, uma baita escolha da direção. June, agora guardiã não só da própria filha, mas também do filho de Serena, carrega o fardo de recomeçar, de tentar dissipar o passado sem deixar que ele a sufoque; enquanto Serena, mesmo à beira do linchamento (numa cena incrível e muito tensa), ainda defende a ideologia cristã-extremista Gilead, como uma armadura que ela não consegue abandonar. Uma prova de como o fanatismo, aliado a ideologias políticas, pode cegar até mesmo os feridos por ele. Enquanto isso, a entrada de Nick e de Holly retomam blocos que julgávamos perdidos, especialmente no caso de Nick, que, num primeiro momento, parece estar reorientando seu alinhamento em relação a June e aos anti-Gilead/New Bethlehem.
Rapidamente, o tabuleiro ganha contornos políticos, com um salto de dois meses, jogando luz sobre os movimentos da resistência que promete “ir às últimas consequências” contra os comandantes de Gilead. Estes, por sua vez, estão desesperados e buscam envernizar sua tirania para conquistar aliados além das fronteiras. June, instalada numa nova comunidade, tenta se adequar à nova realidade, enquanto Serena revela mais uma vez sua natureza híbrida, um mosaico de contradições que a torna fascinante (aliás, esses três episódios fizeram constantes paralelos entre ela e June, e parece que ambas protagonizarão a atuação política feminina nesta temporada). Luke e Moira, por sua vez, apostam alto em um plano que pode custar suas vidas. E mais uma vez temos um paralelo estético primoroso (inclusive com variação na fotografia, figurinos e direção de arte), com Serena chegando a New Bethlehem, a “terra prometida das segundas-chances” criada pelos opressores, e June alcançando o grupo Mayday, agora com um propósito renovado. São destinos de mulheres em busca de algum lugar onde o caos faça sentido.
No terceiro episódio, o foco se volta para as batalhas íntimas, com June mais uma vez lançada na missão de proteger quem ama (fio condutor que a série nunca deixa afrouxar), mas com camadas graúdas de desespero e determinação. Do outro lado, o Comandante Lawrence abre as portas de New Bethlehem para diplomatas, numa jogada que tenta vender Gilead como um experimento viável, quase civilizado, como se permitir às mulheres migalhas de liberdade fosse um gesto de magnanimidade e não um direito roubado. A fachada, porém, é frágil, e a série sabe disso, desmontando-a com uma sutileza que corta mais fundo que qualquer denúncia escancarada. Há ainda a busca de Tia Lydia por Janine, numa sequência que carrega enorme peso simbólico — a guardiã severa em confronto com sua própria humanidade —, mas que, no contexto do episódio, me pareceu um pouco perdida e sem muito propósito a longo prazo.
Com este “prelúdio de guerra” cheio de possibilidades, fazemos um mergulho nas entranhas de uma sociedade que sufoca e resiste em igual medida, onde a luta por poder (político, cultural, ideológico) nunca deixa espaço para o vazio, mas também nunca garante permanências. A direção de Moss em Train e Exile (assim como sua atuação) brilha ao capturar a essência dessa nova fase, sem perder de vista o peso do mundo ao redor; enquanto Lester, em Devotion, mantém a chama acesa, ainda que com um ou outro deslize. A trilha sonora, imponente como um personagem à parte, embala essa jornada com uma força que, às vezes, sufoca, mas quase sempre eleva, criando uma atmosfera onde as mais diversas emoções se apresentam para o espectador. É um trio de episódios que reflete sobre o que resta quando as ideologias se esgotam (e tentam se renovar), ao mesmo tempo em que as peças humanas no tabuleiro estão esgotadas. O que quer que possa nascer das ruínas de um Estado ou de uma organização política, veremos em cena ao longo dessa última temporada. Demorou mais do que deveria, mas finalmente estamos caminhando para um desfecho do Conto da Aia.
The Handmaid’s Tale – 6X01 a 3: Train, Exile e Devotion (EUA, 8 de abril de 2025)
Direção: Elisabeth Moss, David Lester
Roteiro: Nika Castillo, Bruce Miller, J. Holtham, Nina Fiore, John Herrera
Elenco: Elisabeth Moss, Yvonne Strahovski, Sam Jaeger, Max Minghella, Samira Wiley, Josh Charles, Carey Cox, Cherry Jones, Jennifer Gibson, Amanda Brugel, Ever Carradine, O-T Fagbenle, Bradley Whitford, Naomi Snieckus, Greg Ellwand, Madeline Brewer, Ann Dowd, Peter Deiwick, Camille James, Puja Uppal
Duração: 48 a 58 min.