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Crítica | The Handmaid’s Tale – 6X09: Execution

O "plano C".

por Luiz Santiago
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Execution, penúltimo episódio de The Handmaid’s Tale, é uma obra-prima de dramaturgia e direção televisiva, que não apenas avança a narrativa da série para o seu ponto final, como também encapsula sua essência crítica sobre poder, ação revolucionária (de ordem política) e a condição humana. Magistralmente dirigido por Elisabeth Moss, que se destaca em altíssimo nível tanto à frente quanto atrás das câmeras, o episódio entrega uma meticulosa tensão e muitas das recompensas narrativas que o espectador precisava. Cada cena é meticulosamente pensada para concluir a história, ao mesmo tempo em que aprofunda nossa compreensão dos personagens e de seu amadurecimento/mudança, resultando num capítulo que é plural e cuidadosamente elaborado, certamente um dos episódios mais dinâmicos e poderosos de toda a série.

Completamos aqui na revolta que vinha sendo gestada ao longo da temporada, que finalmente explode de maneira catártica e provocativa, elevando o nível do que foi mostrado em Exodus. Esta outra parte da rebelião serve como um pivô temático que amarra a exploração da série sobre a natureza do poder, as consequências da resistência e a semeadura da esperança onde não existe. As consequências dessa revolta não se limitam aos personagens diretamente envolvidos, mas reverberam por toda a sociedade de Gilead, abrindo uma crise profunda para o regime, que certamente será endereçada no capítulo final. A narrativa navega pelas ramificações dessa insurreição, questionando se a queda de uma civilização opressora é possível ou se, pelo menos, suas estruturas podem ser abaladas de forma permanente. A forma como o episódio lida com essas questões é impecável, evitando resoluções simplistas e abraçando a complexidade inerente à luta contra um sistema tão enraizado na dominação masculina sobre as mulheres.

Um dos pontos mais fortes de Execution é a sua abordagem de personagens que, ao longo da série, oscilaram entre vítimas e algozes dentro de Gilead. Figuras como Tia Lydia e Serena, que anteriormente se apegaram às ideias religiosas extremistas que sustentam a distopia, são aqui confrontadas com as próprias contradições de suas crenças. Sem abandonar completamente suas convicções (ao menos é isso que concluo), elas reconhecem, ainda que tardiamente, o papel que desempenharam na perpetuação de um sistema que também as vitimiza. Essa evolução não é apresentada como uma redenção completa ou fácil, mas sim como um doloroso despertar para a desumanidade que ajudaram a construir. A série acerta ao não oferecer absolvição completa a essas personagens, mas sim ao mostrar que mesmo elas, em meio à sua cumplicidade, podem encontrar um caminho para a resistência — não por uma súbita conversão moral, mas por uma compreensão pragmática de que o sistema que defenderam também as devora… ou as devorará.

A qualidade das atuações aqui eleva ainda mais o episódio, com o elenco entregando algumas das melhores performances do show. Um momento particularmente memorável é a cena de diálogo entre June e Wharton, onde a tensão é visível sem que nenhum dos atores precise recorrer a gestos exagerados ou gritos. A contenção emocional, expressa através de silêncios, sussurros, olhares e inflexões sutis, torna o confronto imprevisível e carregado de importância. Da mesma forma, a cena do quase enforcamento de June é um exemplo de como o silêncio e a modulação cuidadosa podem amplificar o impacto dramático. Essas representações não apenas enriquecem o texto, mas também reafirmam o compromisso da série com uma construção de personagens profundamente humana e multifacetada, onde as emoções são tão cruciais quanto as ações.

A escolha final de Lawrence e June, que culmina na explosão do avião e em uma vitória monumental para a resistência, marca um ponto definitivo de virada. Essa linha de desfecho representa uma maturidade admirável, afastando-se dos caminhos mais previsíveis e qualitativamente inferiores que marcaram partes das temporadas 4 e 5. Em vez de cair na armadilha de um ciclo interminável de desespero, Execution opta por um tom de esperança cautelosa, poderosa e ativa. A decisão de encerrar o episódio com um salto vitorioso para a resistência é uma recompensa para o público e um sinal de que a série está disposta a abraçar as consequências de suas próprias premissas, preparando o terreno para um final que promete ser tão reflexivo quanto emocionalmente ressonante.

Execution é um triunfo em todos os aspectos, desde a direção de Moss até o desenvolvimento temático e de personagens em suas retas finais. O episódio não apenas entrega um dos momentos mais dramáticos e satisfatórios do programa, mas também redefine o futuro de Gilead de maneira irreversível. Ao fazer isso, a série reafirma seu lugar capaz de provocar reflexões profundas sobre poder, resistência e a capacidade humana de mudança. O impacto deste episódio não se limita à tela, porque se ancora na realidade e prepara o caminho para um último suspiro. Mantendo-se nesse nível, certamente fecharemos com chave de ouro. Assim espero.

The Handmaid’s Tale – 6X09: Execution (20 de maio de 2025)
Direção: Elisabeth Moss
Roteiro: Eric Tuchman
Elenco: Elisabeth Moss, Yvonne Strahovski, Madeline Brewer, Amanda Brugel, Ever Carradine, Ann Dowd, O-T Fagbenle, Sam Jaeger, Max Minghella, Samira Wiley, Bradley Whitford, Josh Charles, D’Arcy Carden, Athena Karkanis, Carey Cox, Jonathan Watton, Tim Campbell
Duração: 57 min.

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