Crítica | The Handmaid’s Tale – The Graphic Novel

The Handmaid’s Tale ou, como foi traduzido originalmente no Brasil, O Conto da Aia, é uma das mais perturbadoras obras da canadense Margaret Atwood em que ela cria uma distopia onde os EUA se tornaram um país teocrático patriarcal, com as mulheres relegadas às funções de esposas, domésticas ou parideiras. Narrado sob o ponto de vista de Offred, o livro ressona muito fortemente na sociedade atual e funciona como um eficiente alarme para nos acordar para o que está ao nosso redor. Apesar de publicado originalmente em 1985 e ganhado uma adaptação cinematográfica em 1990, o romance passou a realmente receber os holofotes de um público maior quando a série de TV homônima estrelando Elisabeth Moss chegou no serviço de streaming Hulu, amealhando não só críticas positivas, como uma audiência de respeito e muitos prêmios.

Toda essa merecida atenção levou não só a autora a começar a escrever um segundo romance passado nesse universo (a ser lançado nos EUA em setembro sob o título The Testaments) como acabou gerando a adaptação da obra original para uma nova mídia: os quadrinhos. Apesar de muitas versões da Nona Arte de obras literárias e cinematográficas serem, hoje em dia, meros caça-níqueis, este não é o caso do trabalho cuidadoso de Renée Nault, ilustradora e cartunista compatriota de Atwood, que ganhou uma sóbria e belíssima publicação em capa dura por Nan A. Talese que mais do que faz jus ao seu conteúdo e à obra original.

Não entrarei, na presente crítica, na análise do conteúdo do romance distópico de Atwood, algo que já fiz em detalhes aqui, mas sim no mérito da adaptação em si. Ainda que a leitura da obra original ainda seja absolutamente essencial e uma experiência bem mais completa e aterradora do que a própria série de TV (o que não vemos assusta mais do que o que vemos, já diria o sábio), devo dizer que o esforço de Nault é a melhor maneira de se conhecer o livro sem lê-lo. A artista é reverencial ao que Atwood escreveu, mas, ao mesmo tempo, ela sabe o valor de uma boa adaptação intermídia, não tendo pudor em compactar o texto original para fazê-lo funcionar na arte sequencial. E ela faz isso brilhantemente, sem recorrer a cores de capítulos ou de situações. Tudo está lá, mas de um jeito preciso, que passa a mensagem sem que parágrafos longos de narração ou diálogo sejam necessários. Com isso, ela impede que o espaço para a arte seja “invadido” pelas palavras, equilibrando com cuidado cirúrgico cada um dos elementos da graphic novel.

Se o “mistério” sobre a função principal das aias nesse futuro assustador é mantido por mais tempo na obra literária, Nault não tem o mesmo luxo aqui, mas ela mesmo assim consegue “adiar” a revelação – que não é uma reviravolta ou nada que estruturalmente possa ser considerado como um ponto de virada -, acostumando o leitor a imagens de certa forma idílicas que transitam, como n livro, entre presente e passado. Com isso, quando o primeiro horror vem, ele pode não nos pegar de surpresa, mas a forma “natural” com que ela lida com toda a cerimônia envolvendo a Aia, o Comandante e sua Esposa choca justamente por essa naturalidade. E o mesmo vale para os horrores seguintes, especialmente os enforcados no muro e a incrível sequência de páginas que lidam com o sentenciamento de um alegado estuprador, com o crescendo de violência sendo ilustrado não só com a crescente deformação dos desenhos, mas também com o inacreditável uso das cores.

Com o texto devidamente minimizado, a arte tem, então, espaço para sobressair-se e o estilo de Nault, com traços simples e pintura em guache com cores básicas, replicando a codificação de Atwood, comanda nossos olhos e torna a história poderosa de maneira muito própria. Não só ela faz uso do vermelho, do azul, do verde e, claro, do cinza e preto, para lidar com as necessidades narrativas da autora, como também para transmitir sentimentos, para quebrar expectativas e para transformar o espaço negativo em momentos de contemplação. Além disso, a artista mantém, na grande maioria das páginas, uma desconcertante impressão de calma, de “paraíso na terra” tanto nas expressões de Offred, quanto nos cenários, notadamente a espaçosa, mas vazia mansão do Comandante e o multicolorido, mas nefasto jardim da Esposa. A profusão de cores, em determinado ponto, chega até a incomodar e o objetivo foi justamente esse, de contraste absoluto entre mensagem e imagem, de maneira a enojar o leitor de maneira semelhante ao que Atwood foi capaz de fazer apenas com o uso preciso de palavras.

A adaptação em quadrinhos de The Handmaid’s Tale é mais uma maneira desse grande romance ser conhecido e absorvido por um público cada vez maior. Funciona não só como uma forma de relembrarmos o conteúdo da obra original, como também como uma excelente demonstração do comando de Renée Nault sobre sua técnica. O resultado é uma obra que usa a beleza dos desenhos para desvelar o horror que pode estar ali na esquina e que, em muitos países, é a realidade hoje.

The Handmaid’s Tale – The Graphic Novel (EUA, 2019)
Roteiro: Renée Nault (baseado em romance de Margaret Atwood)
Arte: Renée Nault
Editora original: Nan A. Talese, Doubleday, Randon House
Data original de publicação: 26 de março de 2019
Páginas: 240

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.