Número de temporadas: 11
Número de episódios: 253
Período de exibição: 18 de janeiro de 1975 até 02 de julho de 1985
Há continuação ou reboot?: Não, mas a produção ganhou um derivado chamado Checking In, além de fazer parte dos diversos spin-offs de All in the Family.
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Assistir ao piloto de The Jeffersons hoje é testemunhar uma passagem de bastão na televisão americana, não apenas a continuação direta de All in the Family, mas uma espécie de declaração de independência política e cultural para produções sobre personagens negros na tv aberta. Se a série-mãe colocava brancos da classe trabalhadora para encarar as contradições sociais da época, o spin-off surge para completar o circuito: agora seguimos uma família negra que conseguiu ascender socialmente e que finalmente alcançou o privilégio urbano. E é justamente no movimento, que aqui é tanto social, geográfico e simbólico, que o piloto encontra sua força comicamente crítica. Porque não é apenas sobre um casal que troca Queens por Manhattan; é sobre o impacto emocional, social e comportamental de ocupar um espaço que historicamente não foi feito para eles.
Obviamente que os comentários sociais, pelo menos nesse piloto, não são tão profundos ou sutis, mas temos uma boa comédia de costumes que esconde uma bomba sociológica debaixo do sofá. Logo nas primeiras cenas, percebemos que a mudança física para o arranha-céu é apenas o pano de fundo, em que o verdadeiro deslocamento é interno e psicológico, com Louise (Isabel Sanford) quem primeiro reconhece esse abismo entre o novo mundo e o antigo lar. Sua tentativa de fazer amizade com Diane Stockwell, uma empregada negra do prédio, é mais do que uma apresentação de vizinhos; é um choque de percepções sobre quem os Jeffersons passam a ser aos olhos dos outros. George, por sua vez, responde a tudo isso com uma certa autoconfiança teatral que Sherman Hemsley domina muito bem, uma mistura de orgulho ferido e arrogância performativa que já nasceu icônica. Entre os dois, o piloto constrói uma tensão sobre identidade: a nova vida exige novos papéis, mas quem define o que significa ser “novo”?
E é nessa fricção entre aceitação e afirmação que o piloto faz um bom humor, se ainda um tanto expositivo (talvez necessário à época) e relativamente de poucas gargalhadas (o texto aqui é mais consciente e irônico do que completamente engraçado). George Jefferson foi criado para ser o espelho invertido de Archie Bunker: menos ignorante, mais ambicioso, tão teimoso quanto, e com uma grandiosidade quase cômica que, paradoxalmente, o torna profundamente humano. No piloto, George insiste obsessivamente em contratar uma empregada doméstica, sendo isso não apenas um capricho gênico, mas o símbolo do status que batalhou para alcançar. Louise, pelo contrário, entende o perigo emocional desse gesto: a contratação de uma empregada é também um afastamento das raízes, um rompimento com o dinamismo íntimo que sempre estruturou a família. É como se George quisesse reorganizar a casa para que ela ficasse mais parecida com aquilo que ele acredita ser “o modo certo” de viver, já Louise vê uma ameaça à forma que cresceu pobre.
Essa divergência, que aqui é mais tratada como um conflito doméstico trivial, traça diversos paralelos para discussões sobre classe, raça e autoestima. Nesse sentido, gosto bastante da cena em que um casal interracial (outra escolha ousada da produção), amigos de Louise, falam sobre esses tópicos com muito bom humor. Gradualmente, o roteiro transforma esse embate em uma metáfora sobre o que significa ascender em um país que, na década de 1970, ainda engatinhava em reconhecer que o sonho americano também poderia ter pele negra. O humor surge dessa fricção, não de humilhação, mas de choque cultural.
Gosto, também, da estrutura do episódio. A sitcom multicâmera tem uma cadência teatral utilizada muito bem aqui, com diálogos rápidos, entradas marcadas e aquele ritmo de comédia física pontual que Hemsley, em especial, domina bem, com o corpo inclinado para frente, o andar curto e impaciente, a postura de “homem que já chegou lá e não tem tempo a perder”, fora as diversas caras e bocas. Tirando o casal de vizinhos, o restante dos coadjuvantes (o filho dos protagonistas, sua namorada, a sogra e duas empregadas), não ganham muito o que fazer, mas preenchem bem seus papéis dentro da discussão central do piloto.
Por fim, o piloto de The Jeffersons cumpre o papel de mostrar que este não é apenas um spin-off, é uma ampliação temática de All in the Family. A produção assume a perspectiva de uma família negra que ascendeu mas carrega consigo cicatrizes, medos e inseguranças que o novo endereço não apaga. Em seu primeiro episódio, a série já entrega humor ágil (se ainda não tão engraçado), boas performances e, sobretudo, uma lucidez sobre a experiência negra americana no auge do sonho de mobilidade social. É televisão consciente, inteligente e calorosa, daquelas que entendem que rir também é um ato político.
The Jeffersons – 1X01: A Friend in Need (EUA, 18 de janeiro de 1975)
Criação: Don Nicholl, Michael Ross, Bernie West
Direção: Jack Shea
Roteiro: Don Nicholl, Michael Ross, Bernie West, Barry Harman, Harve Brosten
Elenco: Isabel Sanford, Sherman Hemsley, Roxie Roker, Franklin Cover, Paul Benedict, Mike Evans, Berlinda Tolbert, Zara Cully
Duração: 26 min.
